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Eleições 2016: a esquerda não será mais a mesma.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Como era de se esperar, o processo de impeachment e o bombardeio de denúncias de corrupção relacionados à Operação Lava Jato fizeram com que o Partido dos Trabalhadores fosse o maior derrotado desta eleição. Apesar das vitórias pontuais e da presença em algumas disputas de segundo turno, o PT será apenas uma sombra do que já foi considerando as administrações municipais. A menos que um fato novo ocorra, essa condição provavelmente se repetirá nas eleições de 2018, fazendo com que o partido perca a hegemonia na esquerda.[...] Vale lembrar, contudo, que a esquerda e seus ideais são maiores que partidos que dizem falar em seu nome e decepcionam o povo ao se tornar aquilo que mais criticavam no intuito de se manter no poder em âmbito federal. Esses erros fazem com que décadas se percam, passos sejam dados para trás, conquistas acabem lançadas no lixo. Mas a esquerda também é maior que as pessoas que não gostam de ler livros de história e acham que política pode ser feita sem reflexão sobre ela mesma. Porque a história de movimentos contra-hegemônicos é uma história de reconstrução.Um partido pode se esfacelar diante de seus erros e dos crimes de seus membros. Mas uma ideia, não. Líderes, falsos ou verdadeiros, caem a toda hora. Mas uma ideia, não. E a ideia da luta por justiça social e dignidade e pelo direito à identidade e ao combate à desigualdade nas grandes cidades e no campo - que norteia historicamente a esquerda - segue viva com movimentos, coletivos e organizações. Bem como a defesa de uma democracia popular e participativa, que continua existindo longe dos palácios e mais perto do povo.[...] O tempo chama a esquerda a refletir sobre seus erros, não só no Brasil, em todo o mundo. E a encontrar novos caminhos e construir resistência, que não significa apenas lutar contra retrocessos, mas apontar saídas - saídas que não podem excluir pobres, trabalhadores e minorias do mundo, pois o mundo só fará sentido se for construído com eles, por eles e para eles.[...] Não raro esquecemos que a história não caminha em linha reta e é a resultante de forças que variam em tamanho e intensidade de acordo com cada época. A democracia pressupõe alternância de poder. E, sim, os direitos que foram garantidos podem ser perdidos, incluindo a definição conceitual de coisas caras à nossa civilização, como dignidade e liberdade. Por isso mesmo que a ideia de diálogo é tão importante. É uma ideia paciente, da qual não podemos nos dar ao luxo de abrir mão. Precisa estar viva, nas ruas, nas conversas de bar, na grande política do nosso cotidiano e na pequena política dos parlamentos, gabinetes e tribunais. Ela que fará com que os diferentes não se odeiem e com que, ao final de contas, a barbárie da intolerância não triunfe.- Leonardo Sakamoto.Para ler o artigo todo, clique aqui.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Outras opiniões, Política | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Leituras para compreender o impeachment
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Os últimos dias registraram um dos momentos históricos e políticos mais importantes do Brasil. O impeachment da presidente Dilma Rousseff, aprovado pelo Senado Federal no dia 31 de agosto, não foi o show de horrores que assistimos na Câmara dos Deputados. Mesmo sabendo, penso eu, que perderia seu mandato, Dilma enfrentou 14 horas de interrogatório. Para alguns, a cara de pau mais desmedida; para outros, o exemplo da verdadeira coragem e do filho que não foge à própria luta, sobretudo por ter sido questionada por representantes escancaradamente criminosos - é importante ressaltar: 49 dos 81 senadores estão sendo investigados.A minha intenção desta vez é deixar três reflexões que, naturalmente, são condizentes com o modo como enxergo este momento tão conturbado que o Brasil enfrenta e que trazem um olhar muito rico e profundo sobre o impeachment.Primeiro aspecto: Direitista e esquerdistaDireitista e Esquerdista é um artigo do Frei Betto que sugiro como leitura essencial para entendermos melhor a polarização política que se alastrou nas ruas, nas redes sociais e nas relações interpessoais. Publicado há quatro anos, o texto é super atual e nos mostra que, não importa o lado, estar em qualquer um dos polos não é saudável para o exercício crítico - é um verdadeiro diálogo de surdos. Isso não quer dizer que temos que ficar em cima do muro, mas o quanto a esquerda e a direita podem se encontrar na mesma face de uma moeda."Os dois padecem da síndrome de pânico conspiratório. O direitista, aquinhoado por uma conjuntura que lhe é favorável, envaidece-se com a claque endinheirada que o adula como um dono a seu cão farejador. O esquerdista, cercado de adversários por todos os lados, julga que história resulta da sua vontade. [...] O direitista escreve, de preferência, para atacar aqueles que não reconhecem que ele e a verdade são duas entidades numa só natureza. O esquerdista não se preocupa apenas em combater o sistema, também se desgasta em tentar minar políticos e empresários que, a seu ver, são a encarnação do mal."Segundo aspecto: O golpe é bem mais complexo que uma briga entre esquerda e direitaEnquanto o artigo de Frei Betto fica mais no plano teórico acerca da polarização, este texto, que na verdade foi um comentário de Miguel Gouveia em outra publicação, aborda o esgotamento de um sistema político e econômico carregado de conceitos, dados estatísticos e suas respectivas fontes. Suas ideias são desenvolvidas a partir da constatação de que a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale à riqueza dos 99% restantes. Para Gouveia, "a questão central é a seguinte: como equacionar o poder do 1% com as necessidades dos 99%. Isso não necessariamente desemboca numa discussão ideológica de esquerda vs direita. [...] O fato é: a continuar essa exploração indevida e sem controle, sem espaço para o social sem ser na forma de esmola, o confronto será inevitável. [...] Testemunharemos mais mazelas sociais de que tanto tememos e que também afetará, consequentemente, o 1%."Terceiro aspecto: Desmontar de novoQue tipo de ruptura o Brasil enfrenta depois do impeachment de Dilma Rousseff? Esta é a pergunta a qual o sociólogo José de Souza Martins responde em seu mais recente artigo publicado no domingo, dia 04, no jornal O Estado de São Paulo. Após a votação na Câmara dos Deputados, afirmei que "longe de ser o advento de uma nova era, o impeachment representa, acima de tudo, o poder de uma classe política desinteressada pelo povo". José de Souza Martins enveredou pelo mesmo caminho:"O passado que nos governa desde sempre continuará governando o nosso presente e o nosso futuro, não obstante a suposta ruptura representada pelo impedimento e perda do mandato da presidente da República. Nãos nos iludamos. Não foi uma ruptura inovadora porque não foi uma ruptura de superação. [...] Não somos criativos em política nem somos inovadores. Apesar das polarizações ideológicas, acabamos na prudência do repetitivo. Temos que fazer um grande esforço educacional para legarmos às novas gerações a superação dessa limitação. [...] Não só qual ruptura, mas também quem tornará o real legado da ruptura possível e dele extrairá a revelação das possibilidades do Brasil? Essa é a questão que abre o novo capítulo da história política brasileira. Temos mais perguntas que respostas. Qual é o Brasil desse legado? Na perspectiva deste presente tumultuado, qual é o futuro de uma nação que não tem como se desfazer do fardo de uma história social e política que a oprime, que a tolhe? O cenário sugere que esse Brasil é um pão amanhecido. A sociedade está desmobilizada, subjugada por bandeiras corporativas e obsoletas, iludida pela concessão de direitos no papel mas não realizáveis."Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Isso é Brasil, Outras opiniões | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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O Anti-Trump
terça-feira, 24 de maio de 2016

Sadiq Khan, à esquerda, eleito prefeito de Londres, e Donald Trump, possível candidato à presidência nos Estados Unidos. Fonte: RT.
O acontecimento político mais importante das últimas semanas não foi o surgimento de Donald J. Trump como provável indicado presidencial do Partido Republicano, e sim a eleição de Sadiq Khan, muçulmano, filho de um motorista de ônibus londrino, ao cargo de prefeito de Londres.Trump não conquistou nenhum cargo político ainda, mas Khan, o candidato do Partido Trabalhista, esmagou o conservador Zac Goldsmith e assumiu a prefeitura de uma das maiores cidades do mundo, uma vibrante metrópole onde é possível ouvir todas as línguas. Em sua vitória, um triunfo sobre as calúnias que tentaram vinculá-lo ao extremismo islâmico, Khan se levantou pela abertura contra o isolacionismo, pela integração contra o confronto, pela oportunidade a todos contra o racismo e a misoginia. Ele foi o anti-Trump.Antes da eleição, Khan disse ao meu colega Stephen Castle: "Eu sou londrino, sou europeu, sou britânico, sou inglês, sou de religião islâmica, de origem asiática, de tradição paquistanesa, sou pai e marido".O mundo do século 21 será moldado por essas identidades multifacetadas tão subestimadas, pelas cidades florescentes que celebram a diversidade, e não por algum sujeito branco dado a agressões verbais, insolente, intolerante, defensor do princípio da "América em primeiro lugar", ansioso por construir muros.Vale a pena observar que, com a proibição da entrada de muçulmanos que não tenham a cidadania americana no país, proposta por Trump, Khan não teria permissão de visitar os Estados Unidos. Para usar uma das frases favoritas de Trump, isso seria um "desastre completo e total". Tornaria os EUA assunto de zombaria ainda maior para o mundo já horrorizado com a ascensão do candidato republicano.A eleição de Khan é importante porque desmente a fácil metáfora de que a Europa está sendo tomada pelos islamistas jihadistas. Ela enfatiza o fato de que os atos terroristas ocultam um milhão de invisíveis histórias de sucesso entre as comunidades muçulmanas europeias. Khan, um dos sete filhos de uma família de imigrantes paquistaneses, cresceu em habitações do governo e acabou se tornando um advogado da área de direitos humanos e ministro do governo. Ele obteve mais de 1,3 milhão de votos na eleição de Londres, uma vitória pessoal jamais igualada por um político na história britânica.Sua eleição é importante porque as vozes mais eficientes contra o terrorismo islamista são as dos muçulmanos e Khan foi preparado para se manifestar a respeito. Depois dos ataques de Paris, no ano passado, ele disse num discurso que os muçulmanos tinham um "papel especial" a desempenhar contra o terrorismo, "não porque sejamos mais responsáveis do que os outros, como alguns afirmaram equivocadamente, mas porque podemos ser mais eficientes no ataque ao extremismo do que quaisquer outros".Khan também quis falar à comunidade judaica da Grã-Bretanha, repudiando energicamente o crescente antissemitismo nas fileiras trabalhistas que, no mês passado, provocou a suspensão de Ken Livingstone, um ex-prefeito de Londres, do partido.Como George Eaton observou na revista The New Statesman: "Khan será uma personalidade de importância global. Sua eleição é uma censura aos extremistas de todos os quadrantes, de Donald Trump a Abu Bakr Al-Baghdadi, que afirmam que as religiões não podem coexistir pacificamente".Trump como político é o produto do medo e acima de tudo da revolta americana. Nas últimas semanas, um estudante da Califórnia em Bekerley foi escoltado para fora de um avião da Southwest Airlines porque foi ouvido falar árabe, e um italiano de tez escura e cabelos cacheados, economista da Ivy League, foi retirado de um voo da American Airlines por ter sido visto rabiscar cálculos matemáticos que seu vizinho de assento achou suspeitos.Trump - que o cientista político Norm Ornstein descreveu como "a pessoa mais insegura e egoísta do país" - é o porta-voz dessa América assustada que vê ameaças em toda parte (até num matemático italiano).Quando Trump declara: "A 'América em primeiro lugar' será o tema principal e predominante do meu governo", o que o resto do mundo ouve é uma nação revoltada exibindo o seu poder.A ascensão de Khan, ao contrário, é uma história de vitória sobre os medos gerados pelos atentados de 11 de setembro. Sua vitória é uma censura sobre Osama bin Laden, ao Estado Islâmico, à ideologia jihadista de todos os quadrantes - e aos políticos que disseminam o ódio como Trump que escolheu o lema "muçulmano igual a perigo". Khan argumentou que uma maior integração é essencial e que "muitos muçulmanos britânicos crescem sem conhecer pessoas de uma cultura diferente".Sigmund Freud escreveu: "É impossível menosprezar a medida em que a civilização vem sendo construída sobre uma renúncia ao instinto". Donald Trump escreveu: "Aprendi a ouvir e a confiar no meu instinto. Ele é um de meus mais valiosos conselheiros". E recentemente ele disse: "Nós, enquanto nação, devemos ser mais imprevisíveis".Muito bem.Se juntarmos um egoísta, um machão, um poder imenso e a predileção pela imprevisibilidade dirigida pelo instinto, obteremos uma mescla perigosa que poderá pôr em risco a própria civilização. Se Trump for eleito, aqueles seus dedos finos terão acesso aos códigos nucleares.Nesse contexto, a vitória de Sadiq Khan nos tranquiliza porque ele representa certas correntes mundiais - que buscam a identidade global e a integração - e que vão se provar mais fortes com o tempo do que com o tribalismo e o nativismo de Trump.Texto de Roger Cohen. Artigo original publicado no The New York Times.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Outras opiniões, Política | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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As instituições políticas brasileiras quebraram
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Sobre a decisão de Waldir Maranhão anular a votação da impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, o melhor posicionamento, o encaixe mais proporcional e coerente de ideias ficou para o crítico de cinema Pablo Villaça. Portanto, faço questão de compartilhar o seu texto como representação do meu olhar.As instituições políticas brasileiras quebraram.Não há como tirar outra conclusão: quando as instituições passam a depender mais da personalidade e das motivações daqueles que as dirigem do que das leis e de seus regimentos internos, é porque algo está muito errado.Quando o STF suspendeu o mandato de Eduardo Cunha, há alguns dias, ponderou que ele estava usando seu posto de forma indevida para influenciar os deputados, as votações e seus resultados. Ora, se isto é verdade (e todos sabemos que é), por que o pedido para afastá-lo, que se encontrava nas mãos dos ministros do Supremo desde dezembro, só foi julgado depois que Cunha havia promovido aquela que certamente é a mais importante votação do plenário dos últimos 20 anos?Se outro deputado fosse presidente da Câmara nos últimos meses, o processo de impeachment teria avançado como avançou? E se a presidente do Senado fosse, digamos, Vanessa Grazziotin?Pois é: quando a mudança de apenas uma pessoa pode provocar alterações tão gigantescas, isto significa que as instituições se tornaram menores do que as personalidades que abrigam. Uma democracia não deveria funcionar assim.
Pablo Villaça. Fonte: Facebook Quando soube que Waldir Maranhão havia anulado a infame sessão de votação do impeachment na Câmara (bem como as duas anteriores), celebrei, claro. Em resposta a um tweet do "jornalista"/porta-voz do golpe Ricardo Noblat, que protestou por "um homem anular os votos de 367 deputados", respondi que não via nada de absurdo, já que estes 367 haviam anulado os votos de 54 milhões de brasileiros.Por outro lado, que nossa democracia dependa de alguém como Waldir Maranhão para salvá-la é uma tragédia em si mesma - e perceber que chegamos a este ponto é desesperador. Não à toa, boa parte daqueles que haviam se calado depois da votação e procurado se distanciar de Cunha voltaram hoje ao ataque condenando seu vice - e é irônico como acusaram a ação deste último de "golpismo" e de "falta de legitimidade" quando foram eles quem jogaram a Constituição no lixo e passaram a defender uma presidência ilegítima como a de Temer.(Pois como é possível que um vice conspire contra a chefe do Executivo e planeje colocar em prática todo o projeto daqueles que foram derrotados na eleição, chegando a convidar vários da oposição derrotada para seu "governo"?)O fato é que hoje o Brasil é um estado tomado pelo caos. Na tentativa de destituir Dilma, a oposição mantém o país parado há um ano e meio - e depois protesta contra a crise. A Câmara passou a ser liderada por um bandido que desfazia todas as votações cujos resultados lhe desagradavam, o STF se fez de cego para o que ocorria, o judiciário se tornou arma de intimidação política, a mídia incentivou e aplaudiu todos os absurdos cometidos em prol do golpismo e o Executivo se fez de morto, esperando sei-lá-o-quê para tomar controle da situação e recolocar o país no eixo.Todos agindo como crianças birrentas, despreparadas e inconsequentes.E agora somos uma piada de mau gosto para o resto do mundo graças ao espetáculo da votação embaraçosa do impeachment por deputados obviamente despreparados para o cargo e, agora, pelo braço-de-ferro inacreditável entre as casas do Legislativo e a inação do Supremo.Mas é isso que acontece quando as regras democráticas são ignoradas: o vale-tudo passa a imperar e o poder é tomado não necessariamente por quem tem a legitimidade para fazê-lo, mas por quem joga melhor o jogo, mesmo apelando para trapaças.E só não digo que a única saída são eleições gerais imediatas porque temo que os vencedores não teriam uma qualidade melhor do que a que vemos hoje.Ou seja: estamos do jeitinho que a direita gosta. O impeachment é só o sintoma mais visível da doença.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Isso é Brasil, Outras opiniões, Política | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Nascidos para morrer
segunda-feira, 28 de março de 2016
Os atentados em Bruxelas ocorridos na semana passada somam quase 40 mortes e deixou mais de 300 feridos. Foram considerados os piores atentados da história da Bélgica, cometidos por jihadistas do grupo Estado Islâmico, que há tempos vem proclamando sua campanha de terror no Ocidente.
Os jovens que foram responsabilizados pelo ataque. Fonte: Expreso. Semana passada, por coincidência de horário e lugar, assisti ao inútil diálogo entre os apresentadores da Rede Globo Rodrigo Bocardi (do Bom Dia SP) e Chico Pinheiro (do Bom Dia Brasil). Este dizia mais ou menos o seguinte: "eu chego na redação cinco e pouco da manhã e me deparo com notícias sobre os atentatos na Bélgica na pauta". Chico Pinheiro afirmou que seu dia já começava mal e ficava desanimado com essa onda de violência. Não satisfeito, lançou a cartada final: "a pessoa tem que ser muito ignorante para se explodir. O que uma pessoa tem na cabeça para fazer isso?". Este último comentário provavelmente foi a representação máxima do senso comum e não duvido que a maior parte do telespectador tenha a mesma linha de raciocínio. Acontece que Chico comprovou toda a sua falta de conhecimento sobre o assunto, ou usando a mesma palavra: mostrou-se ignorante. O olhar puramente ocidental e preconceituoso sobre esses indivíduos não faz a população entender o que se passa no universo dos jovens que optam pela adesão ao Estado Islâmico. Nesse aspecto, vale ressaltar a explicação dada pela professora de História Árabe da USP Arlene Clemesha no Jornal da Cultura terça-feira passada. Não precisamos de opiniões, mas de debates mais amplos que a Rede Globo está longe de nos oferecer.Deixo também uma recomendação de leitura muito pertinente. Robert Fisk é um correspondente de guerra britânico residente no Líbano. Há 40 anos no front no Oriente Médio, deu uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo intitulada Nascidos para morrer. Selecionei trechos que merecem atenção:- "O que o EI quer é destruir a generosidade do Ocidente de dar abrigo aos refugiados. O grupo tenta nos fazer acreditar que seus recrutas fanáticos existem dentro da comunidade de refugiados. [...] Com atentados como esse, o objetivo do EI é nos fazer odiar os milhões de refugiados que vão à Europa e culpá-los pelos massacres do grupo."- "Os EUA têm tratado o EI em termos apocalípticos desde que o grupo se expandiu em 2014. Não têm estratégia para lidar com o EI, exceto bombardeá-lo e fazê-lo parecer muito maior do que é. De fato, o EI é perigoso. Mas a reação dos EUA tem sido do tipo Hollywood, em vez de por meio de conceitos."- "A melhor forma de destruir o grupo - e ele se autodestruirá - é promover justiça e educação no Oriente Médio."- "Na Segunda Guerra, em 1941, Churchill convocou um gabinete para organizar a Alemanha do pós-guerra quatro anos antes do fim do conflito. No passado planejávamos as coisas, hoje não. Veja a crise de refugiados: não estamos nem perto de saber como lidar."- "Sempre fizemos ações militares no Oriente Médio, mas tudo foram mortes, sangue e injustiças. [...] E ainda achamos que vai dar certo. É uma catástrofe! Não temos estratégia para o Oriente Médio."- "Os mapas que mostram vastos territórios de carnificina do EI não refletem seu poder real. O EI é uma terra de almas perdidas."Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Conflitos internacionais, Outras opiniões, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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O espelho do horror
domingo, 8 de fevereiro de 2015
O professor e historiador Leandro Karnal sempre consegue despertar em nós a capacidade da reflexão profunda e minuciosa, ainda que seja para discordar de suas colocações. No Youtube há vários vídeos que perpassam pelos mais diversos temas.Hoje foi publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, seu artigo intitulado O espelho do horror. É uma leitura mais que fundamental para pensarmos a ligação historicamente determinada entre violência e religião, sobretudo num momento em que o grupo Estado Islâmico tem aparecido como protagonista de uma série de notícias. Será que os vínculos entre uma coisa e outra são tão fortes assim? Será que as pessoas realmente matam em nome de "algo maior"?Uma pequena provocação:"A marcha da História é um espetáculo terrível de atrocidades. A humanidade queima, empala, tortura, executa, cria câmaras de gás, mata de fome, bombardeia, enforca, esquarteja, leva à cadeira elétrica, perfura de balas, atropela e esmaga. Sempre foi assim, mas variam nossos mecanismos de crueldade e de violência. O que limita nossa crueldade é nossa tecnologia. Se alguém cair em tentação de atribuir à religião essa violência, deve aumentar a lista com dois tiranos campeões de genocídio, Stalin e Mao, ambos ateus. Não é Deus nem a raça; não é o momento nem as riquezas - somos nós mesmos. A semente do mal germina em nós, nós somos o mal. Se a água que rega é piedosa ou científica, ateia ou mística, tanto faz para as vítimas".Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Conflitos internacionais, Outras opiniões, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Nunca se roubou tão pouco
sábado, 22 de novembro de 2014
Um dos artigos mais polêmicos desta semana foi o de Ricardo Semler Nunca se roubou tão pouco. Em geral, o empresário se diz orgulhoso de ser tucano, porém admite que os casos de corrupção que têm vindo à tona nas gestões do PT não se comparam com os de outras épocas.O motivo é simples: o fato de existirem tantas investigações nos últimos anos representa um momento histórico para o Brasil porque pela primeira vez a população está tendo a oportunidade de se informar com mais clareza sobre as boas e más condutas do governo. Os mais conservadores preferem fechar os olhos e simplesmente afirmarem que a última década foi a mais corrupta do país devido à imensa quantidade de escândalos. Após a reeleição de Dilma Rousseff a situação se agravou. Ricardo Semler diz no artigo que "agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão - cem vezes mais do que o caso Petrobrás - pelos empresários?"Alguns aspectos merecem ser pontuados.Primeiramente, a Polícia Federal nunca teve tanta autonomia como nos últimos anos. Nenhuma outra gestão federal propiciou tanta abertura de envolvimento da PF quanto o PT.A Operação Lava Jato também deixou claro, segundo o Ministério Público, que o caso da Petrobras teve início no governo Fernando Henrique Cardoso, o Farol de Alexandria.Uma das mais importantes lições que devemos tirar deste caso é que precisamos urgentemente começar a debater com seriedade a respeito do financiamento das empreiteiras em campanhas eleitorais. Muitas das envolvidas na Lava Jato financiam, inclusive, os partidos de oposição. Portanto, culpar o PT ou qualquer outro partido especificamente é chover no molhado e deixar que os desvios continuem. Quem paga a conta, afinal?O ódio e a irracionalidadeNão sou petista. Sou de esquerda. O PT não é de esquerda, tampouco é socialista ou comunista. O ódio ao PT está deixando as pessoas irracionais. Toda a corrupção que existe no mundo é culpa do PT. A saúde vai mal? Culpa do PT. A educação está péssima? Culpa do PT. O transporte coletivo cai aos pedaços e é super lotado? Culpa do PT. Afinal, governadores e prefeitos não servem para nada. Você apostou na Mega Sena e não ganhou? Culpa do PT. Dilma foi reeleita porque houve fraude na eleição para que a ditadura do PT seja mantida. Mas os 20 anos de PSDB em São Paulo é a democracia por excelência e jamais devemos desconfiar de fraude nas urnas. Percebem como a dualidade PT - PSDB cansa?Claro que teoria e prática são coisas diferentes. O Brasil, se comparado à teoria, pode não ser completamente democrático - e não é mesmo! E a burocracia tem se tornado uma das grandes inimigas no avanço dos processos democráticos no país. No entanto, querer de volta a ditadura militar é o ápice do esquecimento daqueles que morreram para que, inclusive, existisse o direito de se manifestar (ainda que seja pela volta da ditadura). É uma contradição absurda!Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Outras opiniões, Política | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Leituras do carnaval III: O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer
segunda-feira, 3 de março de 2014
Para encerrar nossas leituras sobre o carnaval, nada melhor que o olhar antropológico de Roberto DaMatta. Este texto faz parte de uma obra maravilhosa intitulada "O que é o Brasil?", na tentativa de compreender melhor nosso país, nosso povo e nossa cultura.O carnaval, ou o mundo como teatro e prazerTodas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festas, os rituais, as comemorações.[...] No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva.[...] Na festa, comemos, rimos e vivemos o mito da ausência de hierarquia, poder, dinheiro e esforço físico. Nela, todos se harmonizam por meio de roupas especiais, comidas singulares e, muito especialmente, pela música que congrega e iguala no seu ritmo e na sua melodia.No caso do Brasil, a maior e mais importante, a mais livre, criativa, irreverente e popular é, sem dúvida, o carnaval. Aliás, nessa festa, a própria definição já perturba, pois que dispensa os elementos da ordem, da esfera política e moral, básicos das outras festas. O carnaval não pode ser sério, senão não seria um carnaval...Mas qual a receita para o carnaval brasileiro?Sabemos que o carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo excesso - mas como excesso de prazer, de riqueza (ou de "luxo"), de alegria e de riso; de prazer sensual que finalmente fica ao alcance de todos. [...] Com isso, o carnaval inventa um universo social onde a regra é praticar todos os excessos.Por isso, o carnaval é percebido como algo que vem de fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistível que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. [...] Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que extraordinário é esse que ele tão criativamente inventa?O carnaval é um ritual de inversão do mundo. [...] No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo pelo uso do corpo como instrumento de beleza e prazer. No trabalho, estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No carnaval isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o corpo é gasto pelo prazer e pela "brincadeira".[...] O carnaval também promove a troca dos uniformes pelas fantasias. Se o uniforme é uma vestimenta que cria ordem e hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posições. E a fantasia é tanto o sonho acordado quanto aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos e o que poderíamos ter sido ou o que merecíamos ser. A fantasia liberta, "desconstrói", abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo. Ademais, ela torna possível passar de "ninguém" a "alguém"; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica.É precisamente por estar vivendo uma situação na qual as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores, dos "elementos" que entram na fila e das "pessoas" que jamais são vistas em público como comuns.[...] No carnaval, nós, brasileiros, cantamos e, geralmente, podemos fazer o que cantamos. [...] Ali, todos podem exercer o direito de interpretar o mundo do seu jeito e a seu modo. Do mesmo modo, a crítica social mais ácida e a crítica política mais acesa, que pode dar em prisão e censura, são realizadas abertamente, tanto quanto a competição, que todos temem como algo monstruoso, mas que é também aceita em todos os carnavais brasileiros, construídos por meio de inúmeros concursos.De fato, no carnaval, há competição para tudo: músicas, fantasias, maior capacidade de exibir-se e, naturalmente, a disputa dos blocos e escolas de samba.[...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de "quem conhece o seu lugar" - algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política.[...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto...Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Consumo, Cultura, Felicidade, Isso é Brasil, Livros, Outras opiniões | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Nesta segunda publicação sobre o carnaval, o Sociologia e Opinião traz trechos de uma entrevista com o cantor e compositor Martinho da Vila, em fevereiro de 2011, mesmo ano em que um incêndio atingiu os barracões das escolas de samba Portela, Grande Rio e União da Ilha, do Rio de Janeiro. Uma real interpretação dos eventos carnavalescos e uma entrevista que ajuda a compreender melhor o que se passa por trás de todo o luxo e glamour da Marquês de Sapucaí (de acordo com o próprio Martinho da Vila, para uma escola ser competitiva, tem que gastar uns R$ 5 milhões).Pobres e ricos se misturavam no carnaval?Os ricos brincavam em outro local, nos clubes, nos corsos, nos ranchos. Isso foi caindo e a escola de samba absorveu tudo. [...] E, aí sim, com as escolas de samba, é que começou a haver a mistura entre pobres e ricos. Só que perdeu a interação com a cidade. Noutros tempos, o rádio só estaria tocando música de carnaval neste mês. O carnaval não é mais vivido por muito tempo. Passa logo. Hoje o dinheiro está mais presente e tudo ficou muito ligeiro. A velocidade do cotidiano influencia o carnaval de maneira marcante. Ninguém tinha muita pressa quando não havia organização oficial. Os blocos saíam na hora que quisessem, ficavam na rua o tempo que quisessem.A organização deixou o carnaval chato?A organização fez a escola de samba ganhar uma importância enorme. Era uma coisa inicialmente só de sambista do morro, hoje é de toda a sociedade. Então, até a TV resolveu entrar nesse lance, porque viu uma oportunidade de lucrar. O carnaval não era uma atividade lucrativa e nem era esse o objetivo. Mas assim vai ficar, porque as coisas não voltam para trás.Quanto do carnaval é dinheiro e quanto é paixão hoje em dia?Tudo é comercial, precisa gerar receita. Ninguém faz nada mais por prazer. O carnaval está completamente fora de sua origem. Virou indústria. O cara que é da escola de samba, que participa efetivamente, não precisa de dinheiro para sair no carnaval. Ele não paga fantasia. Os que vêm de fora e pagam ajudam a bancar o sambista. Em contrapartida, para você desfilar numa escola de samba, se for da comunidade, tem que participar obrigatoriamente dos ensaios. Ensaio de escola de samba só falta ter cartão de ponto. Quem não aparece perde a fantasia. Mas o sujeito gosta, aquilo é importante para ele. Não por causa da televisão, porque ele quer ser visto, nada disso. O cara do morro gosta da escola porque ela continua sendo a única opção de lazer dele. Ele não tem clube com piscina. Tá longe da praia. Então a escola vira a vida do cara. Como alegria de pobre é pouca, a escola tem essa função: de alegrar, divertir, distrair.Os ditos moradores do asfalto têm ligação, têm proximidade com o dia a dia da escola?A maioria não tem ligação. Mas, como a escola de samba não é mais só do sambista, ela é de todos agora, e é uma coisa apaixonante, o cara do asfalto vai a um ensaio e é imediatamente contaminado, fica louco. É uma magia difícil de explicar. Inclusive, esse pessoal da sociedade também se submete às regras. A top model que vira madrinha da bateria tem que ir ao ensaio. Se não for, trocam ela.Quem ganha mais com as celebridades no carnaval: elas mesmas, a escola, a TV?Há uma troca. O cara que sai na bateria não tem condição de ver uma estrela fora da TV ou da revista. Então, quando ela vai à quadra, o cara se sente honrado. Já o artista vive de cartaz, então celebridade desfila para aparecer, não por desfilar. Eu acho bom, porque mistura as classes sociais.No sambódromo essa mistura é menor, não é? Tem camarote pra uns, arquibancadas na chuva pra outros...Ah, mas isso é o Brasil. A seleção em nosso país se dá pelo dinheiro. Para socializar o camarote só quando a sociedade brasileira estiver mais equilibrada. Por enquanto é o lucro que manda. Por isso o carnavalesco é profissional, os mestres-salas, as porta-bandeiras... Todos eles são funcionários contratados pelas escolas.E você gosta que seja assim?Não gosto. Eu preferia no passado, quando todos se sentiam donos da escola e se esforçavam para fazer a coisa acontecer. Os moradores iam varrer a quadra, vender cerveja nos ensaios... Hoje, não. Todo mundo ali está trabalhando. A Vila Isabel tem uns 400 empregados. Por um lado é bom, porque dá emprego, mas mata a paixão. Até no carnaval o capitalismo venceu. Antigamente, a glória de um sambista era ter seu samba cantado na avenida. Hoje tem resultados financeiros no jogo. Para seu samba ser escolhido, você tem que contratar um puxador que vá defendê-lo na quadra em todos os ensaios. Um puxador, dois ritmistas e um cavaquinho. Isso custa dinheiro. De graça ninguém faz mais. E o puxador pode ser nascido na Portela, por exemplo, mas é contratado pelo compositor para defender o samba da Vila Isabel. E ele vai, claro, pra ganhar um dinheiro.Isso soa tão anti-carnaval...As escolas estão quase como os clubes de futebol. Eles não têm mais jogador, que pertence a empresários, patrocinadores, a todo mundo menos ao clube. As escolas também não têm mais o seu mestre-sala, o seu diretor de bateria. Terminou o carnaval, começam as contratações. As escolas disputam o diretor de harmonia que foi bem naquele ano, o mestre de bateria mais premiado... Neste ano, quando der abril já vai estar todo mundo contratado, e possivelmente por uma escola diferente da que desfilou.A entrevista pode ser lida na íntegra aqui.
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O carnaval também faz parte do debate sociológico. Publicarei no blog três leituras e interpretações a respeito da maior festa no Brasil. A primeira é um artigo do sociólogo José de Souza Martins.
A apoteose dos corpos insubmissosSempre houve uma certa expectativa quanto a quem será desancado ou quem será bajulado na relativa surpresa dos nossos desfiles carnavalescos e na ordem invertida que representam. O carnaval nos chegou de Portugal, como entrudo. Trouxe-nos a medieval cultura das inversões simbólicas das identidades e dos poderes nos três dias de festa. Na cultura do avesso, assimilou manifestações centradas na tensão do corpo com sua dominação social e política, vindas de grupos negros e indígenas.O carnaval tornou-se o momento da pública exposição dos acontecimentos do ano e de suas figuras à mordacidade da crítica popular ou à sua bajulação. É o momento da manifestação do corpo insubmisso, como instrumento de um discurso gestual da contrariedade. Momento em que os grandes pagam pelos desaforos feitos aos pequenos. Mas, também, hora em que o puxa-saquismo se torna monumental, na visibilidade de uma gratidão material ou política carregada de malícia. É a hora do troco, em que a força subversiva do imaginário do povo se dá a ver nos enredos dos sambas, nas cores e nas alegorias de carros e fantasias, nos desfiles de cordões e escolas de samba, no Rei Momo, monarca do faz-de-conta, o anti-poder de três dias. É o momento dos fracos contra os fortes, da sociedade contra o Estado, da rua contra as instituições. O carnaval é um acerto de contas anual, o intervalo de um corrosivo tempo de deboche.Não é só o presente que cai na pancadaria simbólica dos carnavalescos. O passado inteiro está sujeito a apreciações sem cerimônia, em que nunca se sabe se a narrativa dos sambas-enredo são irônicas por intenção ou por desinformação. De qualquer modo, é sempre prudente recomendar aos estudantes que a melhor fonte do conhecimento histórico ainda é o livro.Mas é também o momento do corpo contra o espírito, do desejo contra a continência e a repressão, do proibido contra o permitido. Não é apenas feliz acaso que o nome da primeira escola de samba do Rio de Janeiro tenha sido Deixa Falar, uma insurgência contra a língua comprida e a dominante sociedade dos linguarudos, da polícia e dos comentadores da vida alheia, da "decadência" oficial contra a "indecência" popular, da repartição pública contra a rua e o povo. Não é à toa que, em carnavais de outros tempos, e hoje menos, as pessoas se fantasiassem, ou se fantasiem, de seus contrários, homem vestido de mulher, mulher vestida de homem, adultos vestidos de bebês, de "mamãe-eu-quero-mamar", mascarados vestidos de demônio nesse tempo de ritual e anjos decaídos. É o embaralhamento das identidades, no vestuário e nas máscaras carnavalescas em que traços do antagônico são ressaltados para expor as fisionomias reais, do perverso, do sovina, do corrupto, do oportunista, que se ocultam nas dissimuladas fisionomias cotidianas. É a personificação crítica das alteridades que demarcam repressivamente nossa nem sempre fácil vida de todo dia. É a máscara que permite transgredir sem ser reconhecido nem ser punido. A transfiguração de cada um naquele que não é. É, sobretudo, o duplo sentido do dizer oculto.O carnaval é o momento mais forte e significativo de exposição da centralidade do corpo na nossa cultura, como referência problemática da realidade social. O corpo nu e natural é apenas adjetivo, apenas ponto de reparo e referência da construção do corpo imaginário e social, o corpo que pode ser "lido", situado e compreendido. Desde o nascimento, as crianças são trajadas de maneira a adquirirem a identidade que as situará no mundo, a cor da roupa, o brinco da menina, os brinquedos. Os ritos de casamento são, basicamente, ritos de fecundidade, sacralização da troca biológica de sangue entre os esposos, modo de assegurar a antecipação cultural e social dos corpos que serão gerados, simbolicamente concebidos desde antes de existirem. Nesses processos, o corpo é situado nas tensões da vida e da morte, do transitório e do eterno, do mortal e do imortal. O carnaval desveste o que os poderes vestiram.Ele é bem mais do que crítica social e política. Nele se expressam essas tensões constitutivas do humano, no pouco caso das fantasias de caveira e de demônio, na exorcização do medo e da morte, na negação do sobrenatural no corpo liberto, até mesmo nos extremos da nudez em desfiles de escolas de samba. No fundo, o carnaval é um contra-rito religioso. Inscrito na véspera da Quaresma e do tempo do luto e da dor, é o tempo do desejo e da euforia, que precede um tempo de jejum e de punição ritual do corpo, um tempo de purgação da pecaminosa carnalidade do homem. Antes desse recolhimento litúrgico, a licença do carnal, não só o da sexualidade, mas também o do apetite, sujeitos às interdições rituais e à fria temperança da Quaresma. O carnaval é um intervalo cíclico de transgressão consentida, que no temporário da festa liberta o corpo desordenador e da desordem consentida que dele resulta. Não por acaso, o carnaval é o tempo da folia, da loucura e da multidão.Embora seja um intervalo no tempo herdado da liturgia religiosa, da qual muitos estão cada vez mais distantes, é no carnaval que a crise social e as mudanças de longa duração, quase imperceptíveis, se manifestam no curto tempo do desabafo. Na perspectiva desse tempo longo é possível notar que, na sua substância, o carnaval está acabando lentamente. Não só porque se torna progressivamente um empreendimento comercial sujeito a regras empresariais, que em tudo negam a insurreição livre do corpo e do desejo. Mas, também, porque no cotidiano elementos de identificação carnavalesca do corpo estão agora presentes e não só entre jovens. É muito significativo quando tatuagens e piercings, adornos corporais permanentes, se tornam cada vez mais complementos de uma nudez semi-oculta, mas proclamada. Uma negação explícita da transitoriedade ritual do carnaval e uma desconstrução do corpo submisso, uma forma de dizer que a insurreição de três dias se torna a insurreição visual de um ano inteiro - e se esvazia.Publicado em 07 de fevereiro de 2008 no caderno Aliás, do Estadão.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Consumo, Cultura, Felicidade, Isso é Brasil, Outras opiniões | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Terrorismo Oficial
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
A mais recente publicação do Blog da Boitempo é o texto Terrorismo Oficial, do professor de História Contemporânea da USP Lincoln Secco. Um texto polêmico e, ao mesmo tempo, muito fundamentado, referente ao protesto realizado no dia 2 de fevereiro em São Paulo e à conduta da polícia militar.Não é de hoje, e nem das Jornadas de Junho, que se discute o comportamento dos agentes da corporação. As manifestações que vêm ocorrendo desde o ano passado impulsionam o debate, que ganha visibilidade na mídia, mas nem por isso se aprofunda nos problemas reais e estruturais que fazem parte da nossa vida social. Além disso, mais importante que ficar avaliando as ações dos policiais é pensar na existência desse grupo intitulado polícia militar. Por que a militarização se o regime da ditadura, na teoria, já se encerrou? O problema não é a existência da polícia; ela é absolutamente necessária. O aspecto que se discute aqui é o da militarização. Como informação nunca é demais, sugiro a leitura do artigo Jabuticaba Policial, do Túlio Vianna, altamente esclarecedor sobre o significado da desmilitarização: "Desmilitarizar não é desarmar a polícia, [...] é afastar o ranço autoritário da nossa polícia e democratizá-la, garantindo os direitos dos próprios policiais, que hoje lhes são negados pelo militarismo, e exigindo deles em contrapartida o respeito inexorável às leis e a todo e qualquer cidadão".Outro aspecto importantíssimo é a reflexão sobre alguns elementos presentes nos dias de hoje que são resquícios da nossa ditadura militar, dentre eles a herança policial. Um bom exemplo que deixo é o relato do jornalista Marcelo Rubens Paiva no programa Metrópolis da TV Cultura (dos 7 aos 8 minutos), que associou a morte de seu pai à morte de Amarildo no Rio de Janeiro.Todas essas leituras da sociedade são necessárias: as tensões e contradições estão cada vez mais insustentáveis, e temos ciência do que pode vir a ocorrer em breve.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Outras opiniões, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Em busca do urbanismo perdido
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
As cidades brasileiras vivem o seu pior momento. Pelo menos esta é a opinião do antropólogo, historiador e poeta Antonio Risério. Diante de tanto caos e problemas típicos da vida urbana - moradia, trânsito, violência, entre outros - a situação se apresenta como irreversível. "Atravessamos a maior crise urbana da história brasileira", afirma Risério. Mas isso não quer dizer que tudo está necessariamente perdido; os governantes tem consciência da complexidade dos problemas. Acontece que, para o antropólogo, "o Brasil é um país que, por flexibilidade ou por hipocrisia, chega muito fácil a certos consensos, mas não realiza as coisas".Em entrevista ao Aliás do jornal O Estado de São Paulo, Risério discute as questões urbanas com maestria e acredita ser possível reverter a situação. Comenta sobre a Copa do Mundo e as Olimpíadas ("o Brasil tende a ser o paraíso do autoengano"), os rolezinhos, a poluição dos rios, as enchentes crônicas, o transporte público versus o individual e as segregações sociespacial e socioterritorial.Leia toda a entrevista "Em busca do urbanismo perdido" aqui.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Isso é Brasil, Outras opiniões, Sociologia Urbana | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Rolês e Rolos
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Por que os rolezinhos estão causando tanto impacto nas mídias e redes sociais? Porque dividem o público e, sobretudo, revelam algumas das contradições sociais existentes.Embora os rolês estejam ganhando visibilidade nos últimos dias, eles tiveram início em dezembro. Só para se ter uma ideia, no sábado, 14 de dezembro, houve um encontro num shopping da região de Guarulhos. Não foi registrada uma ocorrência sequer. Sem roubos, sem "arrastão", sem algo considerado ilícito. Mesmo assim, 23 jovens foram encaminhados à delegacia. Este já era um indicativo do que aguardava esses jovens nos rolês que se sucederam.O estopim se deu no Shopping Itaquera no último final de semana. Houve repressão por parte da polícia que, por sinal, há tempos vem utilizando a "legitimidade do uso da força" em favor dos interesses das elites e colaborando demasiadamente para a discriminação social dos grupos que se encontram à margem da sociedade. Houve sensação de terror: lojas foram fechadas, pessoas correndo por todos os lados.Após o tumulto, jornais se encarregaram de pautas e coberturas sobre os rolês. Enquanto isso, diversos shoppings foram atrás de liminares na justiça para impedir que os rolezinhos acontecessem dentro de seus estabelecimentos, como o JK Iguatemi. E foi aí que o problema começou. Ou melhor, uma nova faceta de um problema antigo surgiu.
Histórico
Fonte: Portal Ctb Em fevereiro de 2012, aproximadamente 300 manifestantes da Marcha contra o Racismo realizaram uma manifestação partindo do Largo Santa Cecília em direção ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Lojas fecharam e seguranças tentaram impedir a entrada. Em novembro de 2013, o Shopping Parangaba, em Fortaleza (CE), foi o palco de repressão e humilhação de jovens negros. Em dezembro, o mesmo ocorreu em Vitória (ES). Os rolês em São Paulo representam uma variação. Mas, no fundo, estão querendo passar a mesma mensagem, que abordaremos adiante.Está claro o preconceitoMuita gente procurou mostrar que, na verdade, o que existe é preconceito. Enquanto os rolês dos jovens das regiões periféricas, em sua maioria negros, estão no auge da repercussão midiática, cercados de comentários preconceituosos, pouco se ouve falar do famoso "rolê" dos estudantes/calouros da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) no shopping Eldorado que ocorre anualmente, e há pelo menos 7 anos. Assim como o rolezinho, os alunos, em sua maioria brancos, entram num grande grupo, gritando palavras de ordem e seguem cantando para comemorar o ingresso na universidade. Não há repressão e as lojas não são fechadas. Os clientes não temem por um arrastão. A ordem parece não ser perturbada. Se levarmos em conta as reações das pessoas em cada caso, está ou não está clara a existência do preconceito, inclusive por parte da mídia? Será que este ano o PIG (Partido da Imprensa Golpista) se lembrará de mostrar a festa dos "bixos" da USP?
Rolês e Rolos: como são vistosComo nem só de comparações se criam argumentos, deixemos os calouros da USP pra lá. Para desenvolver minha análise sobre os rolezinhos, começarei publicando o comentário da jornalista Rachel Sheherazade, que considero uma das grandes manipuladoras da massa televisiva.
E o que o público que condena os rolezinhos diz de tudo isso? Bem, esta semana encontrei uma notícia da Folha de São Paulo no Facebook com a seguinte manchete: "Em apoio a jovens de São Paulo, cariocas marcam rolezinho em shopping no Leblon". Os comentários são taxativos: "Rolezinho na biblioteca esses vagabundos não querem fazer"; "Por que não fazem um rolezinho na cadeia?"; "Em apoio à PM de São Paulo, a PM do Rio vai descer o cassetete no pessoal do rolezinho. Com toda razão!"; "Trabalhar que é bom essa cambada de desocupado não quer né?". E assim por diante. Outros comentários que li ou ouvi algum entrevistado dizer: "maloqueiros", "vândalos", "bandidos".Poucos sabem, contudo, que grande parte desses jovens já trabalham, muitos na informalidade, e que realizam atividades mal remuneradas. Quer dizer que todos que participam do rolezinho merecem cadeia, sem estarem fazendo nada que seja considerado um crime? Os shoppings só correm o risco de serem assaltados nessas ocasiões ou a memória está curta e há muita falta de informação? Porque um jovem se atreveu a fazer parte do rolezinho ele tem que apanhar da polícia e ser hostilizado? Tem algo errado aí. Os comentários revelam uma discriminação de "cara lavada" porque a maioria dos indivíduos acredita que esses jovens não sabem qual é o seu lugar e alguém tem que lhes mostrar.Agora, vamos responder ao primeiro comentário. Por que não fazem o rolê na biblioteca? Ora, parece óbvio. Dou a resposta nas palavras de Juninho Jr, um dos organizadores do rolezinho: "A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com este sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupados pelo andar de cima, aí gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela opressão" (entrevista ao Brasil de Fato). Os jovens da periferia são obrigados a engolir o tempo todo o discurso do consumo e do status, e os shoppings acabam constituindo o local ideal de lazer.Qual é a dos shoppings?Os espaços públicos estão desaparecendo. As atividades consideradas culturais (teatros, cinemas, livrarias, jogos) têm sido absorvidas pelos shoppings centers. São locais privados, mas abertos a todos os indivíduos. Acontece que a ideia que se tem de um shopping normalmente é a de um templo, não religioso, mas onde consumir é praticamente um ritual, e dos mais fiéis. Sendo assim, shoppings reúnem amigos, familiares e desconhecidos no mundo do comércio. Se, por um lado, constituem um lugar onde algumas pessoas passam muitas horas de lazer e vivem boa parte de sua vida social, por outro, esses ambientes sustentam um meio artificial de cultura, porque possuem como finalidade a compra de bens e entretenimento - sem contar que também são locais que procuram adestrar o comportamento dos indivíduos.De uma forma ou de outra, os jovens dos rolezinhos também querem ter acesso e usufruir dos bens materiais que funcionam como signos: são representações de poder, reconhecimento e status.Questionaram o famoso direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, independente de raça, classe econômica e social, etc. Com as liminares que foram concedidas, questionou-se a discriminação por parte da própria justiça, uma justiça que atua em favor da manutenção da desigualdade, como se os shoppings fossem locais exclusivos de um grupo. Para o jornalista Rodrigo Vianna, "o 'rolezinho' demonstra o paradoxo da elite brasileira, que por um lado quer crescimento econômico, mas por outro quer manter os de pele marrom confinados na senzala".Os defensores do rolezinho começaram a falar em apartheid racial e social e foram imediatamente taxados de burros, tamanha aberração falar em apartheid. A minha pergunta é: as fronteiras, visíveis e invisíveis, de uma cidade como São Paulo, são tão imperceptíveis assim? Se analisarmos a cidade, e não precisa ser especialista para isso, veremos que os bairros estão claramente divididos; podemos distinguir o que é periférico e o que não é, podemos distinguir os níveis econômicos sem grande esforço: sabemos muito bem quais são os bairros nobres, os da dita classe média, os de baixa renda. É inegável que existe uma segregação e que esta afeta as possibilidades de acesso a determinadas áreas e o usufruto de bens materiais e culturais.Muitos chegaram a comentar que não era necessário ir em "bando" para o shopping; a ideia é mais ou menos assim: "todo mundo tem direito de ir ao shopping, mas ninguém vai com a galera toda da rua. Qualquer um pode ir com sua turminha de amigos, mas ir aos montes já é pra chamar a atenção e perturbar". Não tenho grandes experiências em shoppings, mas nas vezes que já frequentei pude notar cenas desanimadoras. Ok, bando não pode. Então o jovem decide ir com seus quatro amigos para o templo de consumo. E o que acontece? Vemos a expressão repugnante e o olhar taxativo de alguns frequentadores para o grupinho que foi lá pra se divertir e dar o seu rolê. Moral da história: normalmente, não importa se estão em três ou em cem: mesmo que nada ocorra, o olhar denuncia. E uma verdade que custa para ser admitida: uma grande parcela de negros e/ou pobres no shopping assusta a maioria das pessoas. E se o fenômeno se tornasse comum? Certamente a elite inventaria outro lugar para frequentar, e a patética classe média pegaria o mesmo bonde, pois procura se afastar das classes populares.Muito seriamente, os rolezinhos evidenciaram a falta de opções de lazer para a maioria dos jovens pobres. O prefeito Haddad reconheceu que na cidade de São Paulo os espaços para se usufruir variam de região para região, e que na periférica são escassos. Se o reconhecimento foi feito, é necessário agora repensar a dinâmica do lazer na cidade. Não no sentido de oferecer opções para que os jovens não frequentem os shoppings, mas para que tenham possibilidades similares.Jovens, consumo e shoppingsComo afirmei, os shoppings são considerados templos de consumo. Dão a falsa sensação de segurança que o espaço público não oferece. Como se não bastasse, vivemos constantemente com o discurso do consumo e da felicidade interligados para o sagrado fim: a realização pessoal. Ocorre nesse processo a reprodução e propagação de um estilo de vida consumista que forma a identidade e a individualidade de todos (sim, não só dos jovens). Na busca pela realização e segurança, o consumo ganha importância e funciona como um véu para cobrir necessidades e anseios.O consumo também funciona como uma forma de distinção das classes sociais, e isso os rolezinhos deixaram bem claro. Para fechar este posicionamento, cito um trecho de um trabalho do sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes que dá o tom da questão:"Os jovens são mergulhados em espaços estéticos gerados pela imagem televisiva e pela visibilidade anônima da vida urbana. A valorização de espaços de consumo de classe média, como os shopping centers, apontados como área de lazer de fim de semana, indica que, mesmo em desvantagem em relação aos grupos dominantes, há uma permanente tentativa de diferenciação do lugar de origem, do próprio grupo, prevalecendo a individualização. A tentativa de se adaptar à moda vestimentária ditada pelos canais de comunicação é um exemplo desse fenômeno. [...] Assim, o que consumimos é nossa marca visível e determina inclusive nosso lugar social. O consumo, que passa a ser vivenciado como mecanismo de inserção e de status, traz a ideia de acesso a um mundo social existente em nossa volta."¹Indico também a leitura "Etnografia do Rolezinho", de Rosana Pinheiro.HiatoOs rolezinhos podem ser associados, em partes, ao que o documentário Hiato nos mostra. Em 2000, manifestantes ocuparam um shopping da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como os rolezinhos, este acontecimento também gerou uma repercussão muito grande na mídia. O que há de mais interessante em Hiato são as vozes dos que nunca são ouvidos. Também temos comentários de professores universitários que tentam elucidar o episódio e o que ele representou.No fundo, Hiato e os rolezinhos perpassam por uma questão séria, que é a do direito de acessibilidade que parece ser dado a alguns e negado a outros, como se uns fossem mais cidadãos que outros. Hiato foi dirigido por Vladimir Seixas. Tempo de duração: 20 minutos.Nota:1 - Consumo e identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular no Distrito Federal.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Cinema, Consumo, Cultura, Felicidade, Outras opiniões, Sociologia Urbana, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Bonde Errado
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Nos últimos dias, tivemos a sensação de que nunca se falou tanto do Estado mais pobre do Brasil: o Maranhão. E não foram notícias boas, como já sabemos. O presídio de Pedrinhas abalou as placas tectônicas da vida social maranhense e nos fez repensar a dinâmica da violência, que não se restringe somente ao presídio. A maioria das pessoas sempre acreditou que os problemas do presídio são dos detentos, dos guardas, da administração, do governo e o resto da sociedade nada tem a ver com isso. Os últimos acontecimentos mostraram o contrário: a violência das organizações criminosas perpassam os muros do presídio e atingem o cotidiano de forma brutal, além de penetrarem e tocarem no ponto fraco de um Estado cuja população é predominante jovem: o abandono, a exclusão, a falta de políticas públicas que contribuam para o desenvolvimento digno de jovens e crianças.O Aliás, do Estadão, trouxe uma entrevista imperdível e necessária com Luis Antonio Pedrosa, advogado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB no Maranhão. Para ter acesso à entrevista, clique aqui.Aqui no blog, deixo registrados os trechos que envolvem alguns dos pontos cruciais dessa onda de violência que se assolou no Maranhão, embora não seja recente."A verdade é que não há gestão política preocupada com o sistema prisional. Primeiro porque prisão não dá voto. Segundo porque ali estão os mais pobres. Terceiro porque há uma cultura que acha que os presos têm é que se matar dentro da cadeia, não é problema da sociedade. Mas hoje a sociedade está aterrorizada porque percebeu que essa violência pode fugir do controle.""A perspectiva mais promissora na cabeça de um adolescente de periferia é integrar uma organização criminosa ou um grupo criminoso, porque pelo menos ali ele consegue impor o respeito que a sociedade não lhe dá. Isso é um fator que agravou sobremaneira a violência no Estado.""A nossa [polícia] é um fracasso em termos de atuação tendo como referencial a dignidade das pessoas. O referencial é a pressuposição de que o cara é bandido. E, sendo um bandido, tem que ser tratado como tal."
Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Isso é Brasil, Outras opiniões, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Livro: Cidades Rebeldes
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
A partir deste ano, o blog terá um espaço voltado exclusivamente para indicações de livros. A ideia não é disponibilizar resenhas profundas - são, mais uma vez, indicações. Os livros, que podem ou não ser da área sociológica, serão divulgados com a finalidade de despertar o interesse por temas relevantes.A primeira indicação será de um livro que talvez tenha sido um dos mais inquietantes do ano de 2012, bem como as motivações que levaram à publicação da obra: Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.

Imagem: Outras Palavras No calor dos protestos e manifestações que invadiram as ruas, as manchetes de jornais, programas televisivos e, claro, as redes sociais, vários artigos foram divulgados; pensadores foram contratados exclusivamente para dar uma resposta "satisfatória" à população, que se indagava a todo momento - num misto de confusão, rebeldia, inconformismo, revolta e indiferença também - "o que está acontecendo?". Naturalmente, todos nós tentamos compreender o que essas duas semanas de rebelião urbana representaram para o país e os possíveis desdobramentos.Cidades Rebeldes, da Boitempo Editorial em parceria com a Carta Maior, é, sem sombra de dúvidas, a melhor produção sobre as jornadas de junho até o momento. Se quisermos uma reflexão mais profunda sobre os acontecimentos que atingiram proporções inimagináveis, esta é uma leitura obrigatória e, portanto, imprescindível.O livro é resultado de uma coletânea de ensaios cujos autores são de alto renome no pensamento crítico em escala (inter)nacional. Além disso, a obra reúne charges e imagens que não foram veiculadas pelos grandes meios de comunicação, ou melhor, pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista).No âmbito internacional, temos os ensaios de David Harvey, Mike Davis e Slavoj Zizek. Entre os autores brasileiros, temos Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Felipe Brito, João Peschanski, Jorge Luiz Souto Maior, Leonardo Sakamoto, Lincoln Secco, Mauro Luis Iasi, Pedro Rocha de Oliveira, Raquel Rolnik, Ruy Braga, Silvia Viana e Venício Lima, além das colaborações da Mídia NINJA e do Movimento Passe Livre de São Paulo.Cidades Rebeldes apresenta os elementos que não apenas tornam as cidades mais complexas, contraditórias ou caóticas, mas como sentimos tais efeitos e de que forma se relacionam com as lutas e reivindicações. Um ponto interessante é que, ao contrário do que vimos ano passado, os ensaios não procuram atacar ferozmente ou idealizar as manifestações; eles abordam justamente o que está por trás desses atos.Mencionarei alguns aspectos do livro que contribuem para uma análise que atinja as expectativas do leitor. Em primeiro lugar, está claro que as vozes que se fizeram ouvir nas ruas não formam um conjunto homogêneo; os interesses não eram os mesmos. Apesar da diversidade ideológica nítida, na pauta das manifestações estavam as mais diversas agendas mal (ou ainda não) resolvidas. Outras abordagens presentes:- O transporte coletivo vinculado a um sistema completamente entregue à lógica da mercadoria.- Repensar o sentido da cidade, uma vez que ela é o principal local onde se dá a reprodução da força de trabalho, representa a expressão das relações sociais e prioriza o transporte individual.- Reformas: urbana, política e fundiária.- O direito à cidade, que não pode ser concebido como um direito (ou poder?) individual. Acredito que esta seja a discussão mais marcante do livro. Vale a pena uma citação da Raquel Rolnik:"Não se compra o direito à cidade em concessionárias de automóveis ou no Feirão da Caixa: o aumento de renda, que possibilita o crescimento do consumo, não "resolve" nem o problema da falta de urbanidade nem a precariedade dos serviços públicos de educação e saúde, muito menos a inexistência total de sistemas integrados eficientes e acessíveis de transporte ou a enorme fragmentação representada pela dualidade da nossa condição urbana (favela versus asfalto, legal versus ilegal, permanente versus provisório)".- A repressão brutal que os movimentos sofreram, física e ideologicamente.- A legitimidade das manifestações e uma das palavras mais utilizadas: vandalismo.- Compreender melhor a bandeira do transporte público.- Refletir a respeito de um movimento que começou Apartidário e se tornou ANTIpartidário.- A crítica da expansão (ou não) dos direitos sociais e a discussão acerca da qualidade dos serviços públicos.- Problematização da crise de representação política e os discursos dos grandes meios de comunicação que investem na desqualificação dos políticos e da própria política, através do discurso insistente da corrupção como principal responsável por tudo que acontece ou deixa de acontecer no Brasil.Todas essas reflexões estão em apenas 110 páginas, incluindo o item "Sobre os autores". Mais um bom motivo para ter Cidades Rebeldes: a obra custa aproximadamente R$ 10,00.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Capitalismo, Isso é Brasil, Livros, Outras opiniões, Política, Sociologia Urbana, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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Penalidade Mínima
domingo, 15 de dezembro de 2013
Hoje o caderno Aliás, do Estadão, trouxe uma entrevista digna de ser lida, comentada e, sobretudo, divulgada.No domingo anterior, dia 08, não se falou em outra coisa a não ser o confronto entre os torcedores do Vasco, que corria risco de rebaixamento, e Atlético Paranaense na Arena Joinville. O que presenciamos? Selvageria. Barbárie. Terror. Violência extrema. Parecia cenário de guerra. Há um bom tempo não víamos uma briga de torcidas como esta, a desordem civil por excelência.
Este confronto foi assunto de todos os programas esportivos e rodas de amigos e familiares. As imagens rodaram o mundo. O pai que tentava evitar que torcedores completamente descontrolados e enfurecidos se aproximassem do filho; o homem desacordado que continuou sofrendo agressões; os que tiveram camisas rasgadas; os que foram nocauteados. Para ver mais imagens do confronto, clique aqui.
Todas as imagens são do extra.globo O sociólogo Mauricio Murad, especialista em violência no futebol, tocou em pontos imprescindíveis, como a segurança escalada para o jogo, a repercussão do país que sediará a Copa do Mundo em 2014, a existência de torcidas organizadas, as punições e impunidades. Resumindo, comentários que dificilmente são alimentados e discutidos nos canais esportivos que promovem a reflexão vulgar e a mera reprodução do senso comum.Vale muito a pena! Para ler a entrevista, clique aqui.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Isso é Brasil, Outras opiniões, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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O enigma da classe média brasileira
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Em outubro, o professor Renato Souza escreveu um artigo que gerou muita polêmica ao estabelecer uma relação entre a classe média brasileira e a meritocracia como poder ideológico relevante e influente em todas as camadas sociais.Devido à grandiosa repercussão, neste mês de novembro Renato elaborou um segundo artigo procurando abordar as discussões criadas nos comentários do primeiro texto. Certamente a discussão continua e o debate não só é importante, como também necessário.No entanto, como este blog não é neutro, admito a urgência das reflexões expostas, até porque a maioria das pessoas acredita que "tudo depende somente de você e do seu esforço" (questão do mérito) e se esquece de que há algo maior atuando e agindo o tempo todo diretamente e independente da vontade ou do esforço. Porém, quando algo não dá certo, é muito fácil pensar que a culpa é somente do indivíduo porque o mesmo, afinal, não foi capaz ou não se esforçou o suficiente: ele simplesmente fracassou. E a ideia da meritocracia é difundida em todos os aspectos da vida como uma desculpa convincente e aceita por muitos.Vamos aos textos:Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira:Clique aqui.Desvendo a espuma II: de volta ao enigma da classe médiaClique aqui.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Outras opiniões, Política | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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A verdade (e a mentira) sobre a utilidade dos testes com animais
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
O resgate dos Beagles ocorrido semana passada no Instituto Royal, em São Roque - SP, rendeu "pano para manga". Todos, sem exceção, quando souberam do fato, não deixaram de expressar o que pensam a respeito da ação dos ativistas - ou ladrões e terroristas, como muitos classificaram. A grande desvantagem é o que a maioria os indivíduos que se posicionaram e tomaram partido nesta situação leu muito pouco (ou quase nada) sobre o assunto e, portanto, o conhecimento é relativamente limitado. Suas ideias são guiadas mais pela passionalidade do que por argumentos fundamentados.Por outro lado, a principal vantagem deste acontecimento é não deixarmos de lado o debate sobre a utilidade de algumas pesquisas que são realizadas. Esta é a melhor oportunidade que temos para não tratarmos com indiferença a natureza e o caráter das pesquisas. Elas, assim como a ciência, têm seus méritos e são importantes, não se pode negar.De todos os artigos que li, o do filósofo e professor Paulo Ghiraldelli ganhou o título de "melhor coerência". Sem fugir da proposta e fundamentado do princípio ao fim, ainda que passível de contestação, como qualquer artigo de opinião, certo?Recomendo a leitura para a reflexão, e discussão também.Para ler, clique aqui.Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Outras opiniões | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |
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A ordem fora da lei
domingo, 20 de outubro de 2013
Excelente artigo do sociólogo José de Souza Martins publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo.
Foco do artigo: as investigações do Ministério Público sobre o crime organizado.
Para ler, clique aqui.
Publicado por Raquel Chiaradia Categorias: Isso é Brasil, Outras opiniões, Violência | 0 comentários | Enviar por e-mail Postar no blog! Compartilhar no X Compartilhar no Facebook |



