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  1. Leituras para compreender o impeachment

    segunda-feira, 5 de setembro de 2016

    Os últimos dias registraram um dos momentos históricos e políticos mais importantes do Brasil. O impeachment da presidente Dilma Rousseff, aprovado pelo Senado Federal no dia 31 de agosto, não foi o show de horrores que assistimos na Câmara dos Deputados. Mesmo sabendo, penso eu, que perderia seu mandato, Dilma enfrentou 14 horas de interrogatório. Para alguns, a cara de pau mais desmedida; para outros, o exemplo da verdadeira coragem e do filho que não foge à própria luta, sobretudo por ter sido questionada por representantes escancaradamente criminosos - é importante ressaltar: 49 dos 81 senadores estão sendo investigados.
    A minha intenção desta vez é deixar três reflexões que, naturalmente, são condizentes com o modo como enxergo este momento tão conturbado que o Brasil enfrenta e que trazem um olhar muito rico e profundo sobre o impeachment.

    Primeiro aspecto: Direitista e esquerdista
    Direitista e Esquerdista é um artigo do Frei Betto que sugiro como leitura essencial para entendermos melhor a polarização política que se alastrou nas ruas, nas redes sociais e nas relações interpessoais. Publicado há quatro anos, o texto é super atual e nos mostra que, não importa o lado, estar em qualquer um dos polos não é saudável para o exercício crítico - é um verdadeiro diálogo de surdos. Isso não quer dizer que temos que ficar em cima do muro, mas o quanto a esquerda e a direita podem se encontrar na mesma face de uma moeda.
    "Os dois padecem da síndrome de pânico conspiratório. O direitista, aquinhoado por uma conjuntura que lhe é favorável, envaidece-se com a claque endinheirada que o adula como um dono a seu cão farejador. O esquerdista, cercado de adversários por todos os lados, julga que história resulta da sua vontade. [...] O direitista escreve, de preferência, para atacar aqueles que não reconhecem que ele e a verdade são duas entidades numa só natureza. O esquerdista não se preocupa apenas em combater o sistema, também se desgasta em tentar minar políticos e empresários que, a seu ver, são a encarnação do mal."

    Segundo aspecto: O golpe é bem mais complexo que uma briga entre esquerda e direita
    Enquanto o artigo de Frei Betto fica mais no plano teórico acerca da polarização, este texto, que na verdade foi um comentário de Miguel Gouveia em outra publicação, aborda o esgotamento de um sistema político e econômico carregado de conceitos, dados estatísticos e suas respectivas fontes. Suas ideias são desenvolvidas a partir da constatação de que a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale à riqueza dos 99% restantes. Para Gouveia, "a questão central é a seguinte: como equacionar o poder do 1% com as necessidades dos 99%. Isso não necessariamente desemboca numa discussão ideológica de esquerda vs direita. [...] O fato é: a continuar essa exploração indevida e sem controle, sem espaço para o social sem ser na forma de esmola, o confronto será inevitável. [...] Testemunharemos mais mazelas sociais de que tanto tememos e que também afetará, consequentemente, o 1%." 

    Terceiro aspecto: Desmontar de novo
    Que tipo de ruptura o Brasil enfrenta depois do impeachment de Dilma Rousseff? Esta é a pergunta a qual o sociólogo José de Souza Martins responde em seu mais recente artigo publicado no domingo, dia 04, no jornal O Estado de São Paulo. Após a votação na Câmara dos Deputados, afirmei que "longe de ser o advento de uma nova era, o impeachment representa, acima de tudo, o poder de uma classe política desinteressada pelo povo". José de Souza Martins enveredou pelo mesmo caminho: 
    "O passado que nos governa desde sempre continuará governando o nosso presente e o nosso futuro, não obstante a suposta ruptura representada pelo impedimento e perda do mandato da presidente da República. Nãos nos iludamos. Não foi uma ruptura inovadora porque não foi uma ruptura de superação. [...] Não somos criativos em política nem somos inovadores. Apesar das polarizações ideológicas, acabamos na prudência do repetitivo. Temos que fazer um grande esforço educacional para legarmos às novas gerações a superação dessa limitação. [...] Não só qual ruptura, mas também quem tornará o real legado da ruptura possível e dele extrairá a revelação das possibilidades do Brasil? Essa é a questão que abre o novo capítulo da história política brasileira. Temos mais perguntas que respostas. Qual é o Brasil desse legado? Na perspectiva deste presente tumultuado, qual é o futuro de uma nação que não tem como se desfazer do fardo de uma história social e política que a oprime, que a tolhe? O cenário sugere que esse Brasil é um pão amanhecido. A sociedade está desmobilizada, subjugada por bandeiras corporativas e obsoletas, iludida pela concessão de direitos no papel mas não realizáveis."

  2. As instituições políticas brasileiras quebraram

    segunda-feira, 9 de maio de 2016

    Sobre a decisão de Waldir Maranhão anular a votação da impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, o melhor posicionamento, o encaixe mais proporcional e coerente de ideias ficou para o crítico de cinema Pablo Villaça. Portanto, faço questão de compartilhar o seu texto como representação do meu olhar.

    As instituições políticas brasileiras quebraram.

    Não há como tirar outra conclusão: quando as instituições passam a depender mais da personalidade e das motivações daqueles que as dirigem do que das leis e de seus regimentos internos, é porque algo está muito errado.
    Quando o STF suspendeu o mandato de Eduardo Cunha, há alguns dias, ponderou que ele estava usando seu posto de forma indevida para influenciar os deputados, as votações e seus resultados. Ora, se isto é verdade (e todos sabemos que é), por que o pedido para afastá-lo, que se encontrava nas mãos dos ministros do Supremo desde dezembro, só foi julgado depois que Cunha havia promovido aquela que certamente é a mais importante votação do plenário dos últimos 20 anos?
    Se outro deputado fosse presidente da Câmara nos últimos meses, o processo de impeachment teria avançado como avançou? E se a presidente do Senado fosse, digamos, Vanessa Grazziotin?
    Pois é: quando a mudança de apenas uma pessoa pode provocar alterações tão gigantescas, isto significa que as instituições se tornaram menores do que as personalidades que abrigam. Uma democracia não deveria funcionar assim.
    Pablo Villaça. Fonte: Facebook
    Quando soube que Waldir Maranhão havia anulado a infame sessão de votação do impeachment na Câmara (bem como as duas anteriores), celebrei, claro. Em resposta a um tweet do "jornalista"/porta-voz do golpe Ricardo Noblat, que protestou por "um homem anular os votos de 367 deputados", respondi que não via nada de absurdo, já que estes 367 haviam anulado os votos de 54 milhões de brasileiros.
    Por outro lado, que nossa democracia dependa de alguém como Waldir Maranhão para salvá-la é uma tragédia em si mesma - e perceber que chegamos a este ponto é desesperador. Não à toa, boa parte daqueles que haviam se calado depois da votação e procurado se distanciar de Cunha voltaram hoje ao ataque condenando seu vice - e é irônico como acusaram a ação deste último de "golpismo" e de "falta de legitimidade" quando foram eles quem jogaram a Constituição no lixo e passaram a defender uma presidência ilegítima como a de Temer.
    (Pois como é possível que um vice conspire contra a chefe do Executivo e planeje colocar em prática todo o projeto daqueles que foram derrotados na eleição, chegando a convidar vários da oposição derrotada para seu "governo"?)
    O fato é que hoje o Brasil é um estado tomado pelo caos. Na tentativa de destituir Dilma, a oposição mantém o país parado há um ano e meio - e depois protesta contra a crise. A Câmara passou a ser liderada por um bandido que desfazia todas as votações cujos resultados lhe desagradavam, o STF se fez de cego para o que ocorria, o judiciário se tornou arma de intimidação política, a mídia incentivou e aplaudiu todos os absurdos cometidos em prol do golpismo e o Executivo se fez de morto, esperando sei-lá-o-quê para tomar controle da situação e recolocar o país no eixo.
    Todos agindo como crianças birrentas, despreparadas e inconsequentes.
    E agora somos uma piada de mau gosto para o resto do mundo graças ao espetáculo da votação embaraçosa do impeachment por deputados obviamente despreparados para o cargo e, agora, pelo braço-de-ferro inacreditável entre as casas do Legislativo e a inação do Supremo.
    Mas é isso que acontece quando as regras democráticas são ignoradas: o vale-tudo passa a imperar e o poder é tomado não necessariamente por quem tem a legitimidade para fazê-lo, mas por quem joga melhor o jogo, mesmo apelando para trapaças.
    E só não digo que a única saída são eleições gerais imediatas porque temo que os vencedores não teriam uma qualidade melhor do que a que vemos hoje.
    Ou seja: estamos do jeitinho que a direita gosta. O impeachment é só o sintoma mais visível da doença.



  3. Por Deus e pela minha família, eu voto sim

    quarta-feira, 20 de abril de 2016

    Uma dificuldade que tenho enfrentado (e que comentei vagamente na minha última publicação): até o momento tenho me manifestado contra o impeachment de Dilma. Dá trabalho explicar aos "cidadãos de bem que querem o país livre da corrupção" que isso não tem a ver com ser petista ou defender criminosos políticos. É trabalhoso, desgastante e ainda assim poucos conseguem entender.
    Enquanto Dilma não for ré em nenhum processo, não ficar comprovado por A + B seu envolvimento em algum esquema de corrupção ou que, de fato, cometeu algum delito que a impeça de governar como presidente, o impeachment continua sendo, a meu ver, um plano arquitetado por um grupo específico de políticos com objetivos muito bem traçados.
    Foram muitas as decepções no último domingo, dia 17. A quantidade de pessoas que afirmaram que agora o Brasil vai pra frente é estarrecedora. O mais curioso é saber que uma maioria esmagadora que se sentiu vitoriosa com a decisão da Câmara dos Deputados sequer tem algum interesse pela política. São pessoas que não buscam conhecimento do que se passa nas esferas governamentais, a não ser, claro, quando o assunto é a corrupção do PT. E não estou julgando, estou dizendo com propriedade tomando a minha rede social e aqueles que conheço bem como objeto de observação.
    O fato de ver o presidente da Câmara Eduardo Cunha conduzindo o processo de impeachment é vergonhoso demais frente à opinião pública e o posicionamento de muitos parlamentares favoráveis ao impeachment alegando a corrupção como chave-mestra da péssima situação do país. Não podemos nos esquecer de que muitos que estão no poder foram mencionados em delações, roubaram descaradamente e nunca negaram, vivem à base de troca de favores e ainda tiveram a pachorra de falar em corrupção. 
    Fato chocante da votação: Jair Bolsonaro, que ousou parabenizar Eduardo Cunha (ué, bandido bom não é bandido morto?) e dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, "o pavor de Dilma Rousseff", em suas próprias palavras. Sim, o coronel-mor da ditadura militar, responsável por várias torturas e brutalidades tanto físicas quanto psicológicas, inclusive de Dilma. Bolsonaro ainda votou "pela liberdade" (ditadura e liberdade combinam?) e "contra o comunismo" (já ficou claro que o PT fez a boa negociata com grandes empresários neoliberais faz tempo). Bolsonaro não está sozinho e a grande contradição é que hoje, que se vive numa democracia, mesmo que imatura, é possível lutar por uma ditadura, ao passo que a nossa história mostrou claramente o preço a ser pago por lutar pela democracia num regime ditatorial.
    A minha esperança é a de que tenhamos aprendido uma lição: quase todos os deputados favoráveis ao impeachment sequer mencionaram o motivo do mesmo: crime de responsabilidade fiscal. Mencionaram suas famílias e Deus (a Constituição é bem direta: o Estado deve ser laico, apesar de nunca ter sido). O "Brasil melhor"  que os ditos representantes do povo desejam exclui a grande massa de trabalhadores, pobres, com outras crenças religiosas e opções sexuais.
    Sendo assim, resolvi publicar no blog os memes e imagens do Facebook que mais chamaram minha atenção e que resumem bem o que a votação do impeachment representou. 

    Deputados fizeram uma grande análise política

    Minha bandeira só é verde e amarela para daltônicos

    Podemos voltar para o jogo contra a Alemanha?

    Meu neto querido, esta foi a única opção da minha geração contra o comunismo.

    Alguém entendeu?

    A bancada cristã muito estudiosa acerca de quem foi Jesus.

    O que muitos quiseram dizer, mas não tiveram coragem.

    E porque vocês são trouxas.

    Foi atendida prontamente.

    Saco de lixo: poxa, aí vocês estão me ofendendo, hein!

    Dormir é terapêutico.

    Ainda não inventaram o elixir do bom senso. Então...

    Recomendada para entender como os votos se sucederam


    O voto que me marcou
    Difícil escolher o mais marcante, mas as palavras de Chico Alencar, do PSOL, foram as que mais chamaram a minha atenção: 
    "Contra a hipocrisia que faz corruptos se tornarem arautos da moralidade pública. Contra o condutor ilegítimo dessa farsa que está ali, sentado à presidência da Câmara. Por uma reforma política radical, com participação popular, que tire o poder da grana do sistema degenerado. Pelos direitos da população, do povo que luta por terra, trabalho e dignidade. Contra esse processo de farsa. Não à demagogia e à escalada reacionária. O nosso voto é não."
    O voto de Chico Alencar pode ser conferido na íntegra aqui.

    Repercussão

    mídia internacional impeachment dilma domingo
    Fonte: Pragmatismo Político
    O impeachment de Dilma tem sido assunto nos jornais da Europa e dos Estados Unidos. 
    Eles apontam a falta de argumentos e o festival de agressões verbais ocorridos durante a votação. O El País chegou a publicar uma reportagem com o título "Deus derruba a presidente do Brasil" e o The Guardian falou em um congresso hostil e contaminado pela corrupção.
    Um artigo do The New York Times foi mais direto: "o motivo real do impeachment é que o sistema político do Brasil está em ruínas. O impeachment vai oferecer uma distração muito conveniente enquanto outros políticos tentam deixar suas casas em ordem. [...] Derrubar Dilma Roussef seria um ótimo capítulo final para a Operação Lava Jato: uma catarse de proporções épicas. E também concederia aos políticos de direita, a maior bancada no Congresso, um alívio do escrutínio público". O artigo ainda cita Eduardo Cunha e sua estratégia de concentrar as atenções no impeachment para ofuscar todas as denúncias legais que o envolvem.

    O que estão dizendo e o que realmente é
    Muitos pró-impeachment afirmam que agora o foco é Michel Temer e Eduardo Cunha, que possuem maioria na Câmara, muito embora Temer, como vice-presidente do Brasil, não possui nem a capacidade de unificar seu partido (o PMDB é ou não a escória da política brasileira?). Parece difícil perceber, mas aqueles que querem "todos na cadeia, seja PT, PSDB ou a PQP" - esta frase teve grande repercussão no Facebook - não estão pedindo impeachment; estão clamando por uma reforma política. O termo impeachment, no entanto, soa mais impactante, o início de um possível efeito dominó (que não vai acontecer, diga-se de passagem), ao passo que reforma política "é coisa de esquerda", como alguns já me disseram. 
    A decisão corre agora no Senado. Longe de ser o advento de uma nova era, o impeachment representa, acima de tudo, o poder de uma classe política desinteressada pelo povo. Afinal de contas, governam em nome de Deus e de seus familiares. E nada mais.



  4. Quando o debate deve ser pela Porta da Frente

    terça-feira, 12 de abril de 2016

    Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nos últimos dias envolve dois vídeos do canal Porta dos Fundos, que há tempos faz sucesso no Youtube e possui milhares de seguidores.
    O vídeo Delação causou uma grande polêmica ao expor as análises e julgamentos nada imparciais da Polícia Federal e do juiz Sério Moro na Operação Lava Jato, sobretudo no que diz respeito às delações premiadas.
    Há um ponto importante nessa história: o vazamento das informações, isto é, aquilo que chega ao nosso conhecimento através da mídia, é imperdoável quando os envolvidos pertencem ao Partido dos Trabalhadores. Justíssimo, por sinal. A parte mal contada -  e que a maioria ignora - é a seletividade na divulgação dos dados e no próprio modo como a justiça lida com isso. Aécio Neves, por exemplo, foi mencionado "apenas" oito vezes nas delações e não houve qualquer barulho notável a esse respeito (daí a necessidade do humor negro: prova de que é um eterno derrotado, já que nem com tantas citações foi merecedor de atenção da Polícia Federal, do Ministério Público e das grandes mídias). E o que dizer da já esquecida lista da Odebrecht que apontou mais de 300 políticos de 24 partidos que se envolveram com a empresa e foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal com todo o cuidado do mundo?
    A palavra-chave da Lava Jato é corrupção. Entretanto, seus procedimentos são puramente tendenciosos. Costumo dizer que o mínimo para que o julgamento tenha alguma credibilidade é que todos sejam igualmente mencionados pelos meios de comunicação e investigados, sem deixar poeira embaixo do tapete, sem acobertar pessoas e partidos. É justamente isso que vem acontecendo e que o vídeo Delação apresenta.


    Em terra de delator, quem tem boca fala o que sabe. Mas quem escuta faz o que quer.


    O vídeo foi duramente criticado por milhares de pessoas: os atores do Porta dos Fundos foram chamados de petistas, comunistas, esquerda caviar; foram acusados de denegrirem a imagem e o trabalho da PF e de serem beneficiários da Lei Rouanet (é bom ler o link, traz muitos esclarecimentos para os "juízes" das redes sociais), além de serem ofendidos moralmente. Muitos também recomendaram que os inscritos no canal deixassem de seguir os vídeos no Youtube.
    Devo confessar que não sou uma expectadora assídua do Porta dos Fundos, mas particularmente achei Delação tão bem bolado que talvez este tenha sido o maior incômodo provocado pelo vídeo. Se formos mais além, podemos, inclusive, associá-lo à omissão da imprensa diante de tantos outros escândalos de corrupção que merecem tanto destaque quanto a Lava Jato.

    O Porta dos Fundos soube dar uma resposta à altura aos seus críticos. Elaboraram o vídeo Reunião de Emergência 3, a Delação 2, no qual fazem uma sátira com todas as acusações que receberam, até mesmo à campanha de boicote. Neste vídeo, os atores discutem desesperadamente as possibilidades e os caminhos do grupo, que foi "desmascarado" pelos internautas. Todos vestem camisetas do PT e da CUT, há um boné do MST e uma bandeira de Cuba. Afinal, já não há mais o que esconder.


    São muitos dinheiros!


    Tal qual o primeiro vídeo, este também causou polêmica. Não faltaram comentários insinuando que toda brincadeira tem um fundo de verdade, que finalmente eles se revelaram, etc., etc. Ora, sejam defensores ou não de algum partido e posicionamento ideológico, não lhes é um direito? A reação do Porta dos Fundos foi interessante ao contornar com bom humor todas as críticas que receberam. Aqui vale uma ideia de difícil aceitação: ser contra o impeachment ou querer as investigações de outros partidos não o faz petista e tampouco quer dizer que Dilma esteja fazendo um governo eficiente. Mas há uma insistência muito grande na polarização política.

    Por falar nisso...
    É fato que o brasileiro está desacreditado na política. Mas o momento pede cautela. Recentemente publiquei um texto no Facebook que merece ser compartilhado aqui também:

    Os olhares sobre os acontecimentos na política brasileira estão cada vez mais polarizados. É uma coisa ou outra, a favor ou contra. Puro reducionismo.
    As forças da polarização política estão concentradas na comunicação. Não é de hoje que a mídia tem alimentado e propagado cínica e veementemente este fenômeno com muita intensidade - as ruas, as manchetes, notícias de jornais escritos e televisivos e o feed de notícias do Facebook comprovam o que estou dizendo.
    "Ler" e olhar atentamente o nosso país, que vive um momento tão delicado (mas enganam-se aqueles que afirmam ser este o ápice da tragédias de nossa história), não é tarefa das mais fáceis. Tentar, vejam bem, tentar desvendar este cenário caótico é complexo demais e não pode ser meramente simplificado em postagens nas quais só se trocam acusações o tempo todo. Em nada contribui, nem para o aprofundamento crítico, nem para deixarmos de sermos tão ridículos e imaturos politicamente.
    O anseio por respostas e atitudes é grande, sabemos disso. O que nos custa entender é que este teatro ao qual assistimos, e que também somos atores, está falando por linhas tortas sobre novas lideranças e movimentos em curso. O debate e a maturidade política é o que há de mais subversivo hoje, os grandes atos de rebeldia contra uma sociedade que busca se identificar com figuras políticas ou "intelectuais" de todas as áreas que provoquem comoção social; uma sociedade que carece de representação e que sequer é capaz de oferecer propostas contundentes.
    Não tenho um olhar neutro sobre os fatos, porém me recuso a fazer parte desta polarização que vive num campo minado e que os que estão nesse terreno não conseguem perceber que a única e grande vitoriosa é a irracionalidade. Tenho, inclusive, lido muitos comentários, de ambos os polos, que me remetem ao período do Terror na França revolucionária. Os conflitos se fazem presentes tanto na micro quanto na macroesfera social.
    É uma pena, pois estamos construindo o caminho inverso: estamos criando oportunidades para novos oportunistas e demagogos se beneficiarem desta fragilidade. É só uma questão de tempo.

  5. Sisu, Enem e Pátria Educadora

    domingo, 17 de janeiro de 2016

    As inscrições para o Sisu (Sistema de Seleção Unificada) encerraram-se na última quinta-feira, dia 14. Na próxima segunda-feira, dia 18, o MEC divulgará os aprovados para preencherem as 228 mil vagas oferecidas pelo sistema em 131 instituições públicas. O critério de seleção baseia-se nas notas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).
    Das quatro áreas avaliadas, o ENEM de 2015 registrou queda em três, comparadas ao ano de 2014. Seguem os gráficos:

    Em Ciências da Natureza, a média caiu de 482,2 em 2014 para 478,8 em 2015.
    Fonte: MEC

    Na área Linguagens e Códigos, a média de 507,9 registrada em 2014 caiu para
    505,3 em 2015. Fonte: MEC

    Desempenho em Matemática caiu de 473,5 para 467,9. Fonte: MEC

    A única área que registrou aumento na média foi a de Ciências Humanas:

    Aumento em Ciências Humanas: média subiu de 546,5 para 558,1.
    Fonte: MEC

    Na redação do ENEM, cujo tema foi a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira, 104 candidatos tiraram nota mil, ao passo que 53 mil candidatos zeraram a redação. Não dá pra sentir orgulho deste índice.
    O que considero importante pensarmos ao estabelecer uma relação entre o ENEM e o Sisu é que, sem dúvida, o exame ganhou uma importância e motivou os alunos a se dedicarem mais. Hoje ele é uma das possíveis portas de entrada para o Ensino Superior (quando eu fiz o ENEM, há praticamente dez anos, ele apenas ajudava na nota de alguns vestibulares com pontos, além da prova ocorrer apenas em um dia, com 60 questões e a redação). Claro, podemos pensar se a forma como o Sisu está implementado é justa e devidamente estruturada. Alguns acreditam que, devido ao fato de ainda existir uma interferência do quadro socioeconômico nos ensinos básico, fundamental e médio, e, por conta disso, os alunos das regiões Sul e Sudeste continuarem a tirar as melhores notas, a demanda de vestibulandos dessas regiões aumentou significativamente no Norte e no Nordeste desde a implementação do Sisu. Em contrapartida, os estudantes nortistas e nordestinos estariam encontrando dificuldades para entrar nas universidades de seus estados. O Sisu é relativamente recente e esses questionamentos são necessários, porém ainda levará mais um tempo para sentirmos os seus desdobramentos.
    Fato é que há a falta de compromisso com a base da educação. Para se ter uma ideia, o governo gasta cinco vezes mais com o aluno do curso superior do que com a educação básica. É uma diferença que produz impactos gritantes em toda a sociedade. Não quero dizer que o governo precisa investir menos no Ensino Superior, e sim que há certa urgência em aumentar os investimentos com a base. Não por uma questão de números em gráficos e dados estatísticos, mas porque uma educação básica sólida tem o potencial de transformar o país.
    Uma última observação é que, se prestarmos atenção, as notas dos cursos de licenciatura são as mais baixas. A área docente, infelizmente, é uma das menos atrativas no Brasil por conta da desvalorização dos professores e de uma série de fatores estruturais. Não temos atraído os melhores alunos para serem professores, e é justamente isso que acontece com os países que estão no ranking do PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes). Não seria natural imaginarmos que os melhores alunos do Ensino Médio deveriam ser os futuros mestres? Transformar este quadro em todas as suas esferas (valorização-reestruturação-incentivos à carreira) seria o ponto de partida para um Brasil e uma população melhores. Por enquanto, esta ideia fica no plano das utopias.



  6. Velho discurso

    domingo, 4 de janeiro de 2015

    Em discurso de posse para o segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff anunciou o lema de seu segundo governo: "Brasil: Pátria Educadora". É evidente que a educação deve ser tratada com prioridade em qualquer país cujo ideal seja o desenvolvimento de todos os cidadãos, porém, o lema ficou vago e abstrato demais.
    Em nossas atuais circunstâncias históricas, já não cabe mais declarações e lemas aparentemente inspiradores como este; todos podem desejar uma boa educação, não é mesmo? Importante é questionar o conteúdo e o tipo de educação que se quer. Afinal, a educação pode ser libertadora, crítica e emancipadora ou apenas mercadológica e ortodoxa, e suas consequências para toda a nação são completamente distintas.
    O problema é que Dilma não tem um programa governamental efetivo ou um plano concreto de ação que direcione a educação como prioridade. Em sua campanha eleitoral, falou-se muito em verbas, encaminhamentos e promessas de novas verbas. Porém, até o momento não está claro o modo como a presidente e seus aliados enxergam e concebem a educação. Até porque soa contraditório o discurso da   educação como eixo central e nada ser dito a respeito da valorização dos profissionais da esfera educacional, da diretora à merendeira.
    Para que o lema escolhido seja, no mínimo, justo e adequado, é preciso desenvolver um plano concreto de ação, um documento que registre este plano e que possa ser colocado em prática. E falar de educação de qualidade no que concerne ao governo federal está além de números e verbas. Inclui a estrutura dos currículos, os os programas de educação integral, ampliar o acesso e a permanência na escola, a composição do quadro de professores e suas formações, o estímulo à prática docente, o piso salarial, os procedimentos adequados de avaliação dos níveis educacionais. Um plano que comporte todos esses aspectos com clareza e sua execução seria uma chance dos 10% do PIB (Produto Interno Bruto), que devem ser destinados à educação, não serem desperdiçados, utilizados de modo indevido e até mesmo terem o seu destino alterado, ou seja, cair nas garras da corrupção. Também é importante lembrar da responsabilidade atribuída ao estados e municípios porque também estão inseridos neste processo. Os governos estadual e municipal têm seus desafios lançados e muitas vezes nos esquecemos e culpamos apenas a esfera máxima.
    Infelizmente, o ensino brasileiro, sob algumas perspectivas, continua a legitimar a reprodução da desigualdade e não oferece igualdade de oportunidades. Tão grave quanto este fato é a constatação e a atualidade da música Another brick in the wall do grupo inglês Pink Floyd, gravada nos anos 80: a escola é vista como formadora de indivíduos serializados, cada um sendo apenas mais um tijolo no muro. Foi, inclusive, o que fez a prefeitura do Rio de Janeiro em uma de suas propagandas.
    Qualquer semelhança com a imagem e o clipe não é mera coincidência.





  7. Resultado das eleições: eleitores mostrando a sua cara

    segunda-feira, 27 de outubro de 2014

    Ao contrário do que os petistas fervorosos têm dito, o Brasil não votou em Dilma. Não votou porque neste segundo turno a candidata não obteve uma vitória fácil e vantajosa. Primeiramente, o resultado final:

    Fonte: Eleições 2014

    Agora, o resultado por Estados:

    Fonte: The Economist

    Ainda escreverei sobre as expectativas para o segundo mandato de Dilma Rousseff. Porém, tendo em vista um resultado com uma baixíssima diferença, convém falar primeiro do que aconteceu durante as apurações. Todos nós sabemos: o Brasil se dividiu. E dividiu de verdade a ponto do meu Facebook virar campo de batalha, como durante o primeiro turno, mas com uma intolerância ainda maior. Melhor: o Brasil não se dividiu; explicitou sua divisão e suas fronteiras simbólicas. Infelizmente (e como sempre!), sobrou para o Nordeste. Como bem se vê no mapa, Dilma venceu em todos os estados do Nordeste e na maioria do Norte. O curioso são os números. Vejamos a tabela com o desempenho de Dilma e Aécio:

    Fonte: G1
    Por que esses números são curiosos? Qual é a relação entre os dados apresentados e as ofensas aos nordestinos por parte do eleitorado de Aécio Neves? Fazendo as contas, as regiões Norte e Nordeste somaram 24.569.880 votos para Dilma. Por sua vez, o Sul e o Sudeste apresentaram 26.627.802 votos para a candidata. Ou seja, parece haver algo errado. Longe de querer atacar os eleitores, mas é para pensarmos: se a questão fosse somente a da "inteligência" em votar ou não para Dilma, quem deveria sofrer o preconceito? Mas a questão não é (só) esta. 
    Colocarei alguns comentários relativamente leves que selecionei do meu Facebook:

    1º) "O dia em que o Brasil abrigar pessoas cultas e trabalhadoras haverá mudanças!"
    2º) "Daqui a pouco teremos o número exato de pessoas coniventes com o crime."
    3º)"Pra que serve o Nordeste?
    Comentários: a) Pra nós sustentá-los.
    b) Prostituição infantil, cabide de emprego, jogar bosta no mar, viver nas costas do governo.
    c) Para ferrar os paulistas.
    d) Só para fazer festas o ano inteiro (graças aos bolsas tudo)."

    E vou parar por aqui porque já é o suficiente. E também porque todo mundo sabe os comentários mais pesados que surgiram. Isso para nem se falar na quantidade de pessoas equivocadas que relacionaram as Jornadas de Junho com o resultado de ontem. Sim, a ala conservadora que foi às ruas e que se julgou organizada votou em Aécio Neves. A revolta do vintém elaborada pelo Movimento Passe Livre pouco tem a ver com a proporção política que os protestos alcançaram. Lembremo-nos: eles só saíram pelos vinte centavos sim! Depois é que outros grupos foram às ruas.
    Para o segundo comentário que coloquei acima, está claro que a memória está (intencionalmente) curta. É muita ingenuidade afirmar que, mais uma vez, o Brasil estará nas mãos dos curruPTos. Este tipo de comentário foi unânime na minha rede social. Mas onde essas pessoas estiveram antes da gestão do PT? Na Suécia? Tratar o PT como o único partido corrupto do Brasil é, no mínimo, uma aberração cognitiva. 
    Como também tive a oportunidade de ler boas publicações, deixarei duas, especialmente para os eleitores que tanto discriminaram os nordestinos e em resposta a todos os comentários maldosos, inclusive os que foram citados nesta publicação.

    "Comentários irracionais e preconceituosos. Ao que parece, a ignorância política, econômica e social impregnou e não sai mais. Gente, vocês estão se vendo? Se ouvindo? É desse tipo de atitude que nasce a fome, a violência, a desigualdade, a corrupção, etc. Todos com pedras e paus. É essa a base da sociedade que vocês querem construir? São esses os valores 'nobres' que vocês defendem? Com que moral você vai cobrar dos políticos honestidade, responsabilidade e respeito?"

    E para finalizar:

    "Peço desculpas aos amigos nordestinos pelo disparate de meus conterrâneos paulistas. Só temos que agradecer e esse povo tão sofrido, que há tempos tentou fugir de uma vida miserável - causada em grande parte pelos mandos e desmandos de políticos oligarcas. Um povo que ajudou a construir nossas casas, escolas, hospitais, etc. Que se sujeitou às atividades mais exploradas e menos remuneradas para que nós 'sudestianos' pudéssemos nos preocupar com 'coisas mais importantes'. Fico feliz que esse governo (que tanta merda fez, porque concordo que fez) tenha olhado mais para vocês nesses últimos anos do que todos os outros governos juntos. [...] Uma lição que tirei dessa eleição: ainda temos muito o que aprender em termos de democracia. Agora é continuar de olho. E fazer valer nossa cidadania."

  8. Ser criança

    quarta-feira, 8 de outubro de 2014

    Eu me lembro de quando era criança. Mal podia pensar que o dia 12 de outubro estava chegando e ficava ansiosa para receber o meu presente ou a minha grana. Felizmente, tive muitas oportunidades ao longo da vida, inclusive aproveitar o período da infância. Aliás, foi exatamente na minha época de criança que a publicidade massiva começou a decolar e que a erotização precoce entrou no script.
    Pensando nisso, decidi fazer três indicações que discutem o significado de infância e de ser criança e o que está presente no universo desses jovens.

    A invenção da infância
    Clássico. Mostra as disparidades que compõem a realidade das crianças brasileiras. Enquanto aquelas que possuem uma agenda lotada de atividades (escola, natação, balé, vôlei, inglês) se percebem como adultas desde cedo por conta da vida cronometrada, as que trabalham duro a fim de obter abaixo do básico para a sobrevivência e que quase não têm tempo para estudar ou brincar não se veem como adultas.



    Criança, a alma do negócio
    Muitos não têm ideia do quanto a publicidade é perigosa para as crianças e afeta toda a sua trajetória. Neste documentário, diversos profissionais procuram explicar o que se passa psicologicamente com a criança diante dos anúncios e como ela pode se desenvolver desde cedo com o consumismo fazendo parte de sua vida. 



    Muito além do peso
    Mais recente que os anteriores, este documentário retrata a realidade de crianças do Oiapoque ao Chuí e seus hábitos alimentares, considerando que muitos dos nossos jovens estão acima do peso ou obesos. Discute a alimentação e a saúde das crianças e os possíveis problemas que estão enfrentando muito novas (de coração, diabetes, respiração). Isso para não falar no preconceito que provoca depressão. Um assunto sério que envolve política, escola, família e publicidade.



    Este ano foi inaugurado o documentário Tarja Branca. Não pude assisti-lo ainda, mas o tema central é o lúdico: a importância do brincar, tanto na infância quanto na vida adulta.

  9. O que sobrou do gramado

    terça-feira, 8 de julho de 2014

    "Olha, se o Brasil jogar do jeito que vem jogando, levará um banho da Alemanha. Ou melhor, uma cervejada, e bem amarga". Disse esta frase após a vitória da Alemanha sobre a França e do Brasil sobre a Colômbia, na última sexta. Nem cogitei o placar de hoje, que veio com juros e correção monetária desde a Copa de 2002, onde o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0 e esta sediou a Copa.
    O assunto do momento, claro, é a derrota da seleção brasileira para a Alemanha. Mas não pretendo falar apenas sobre isso, e sim de observações que fiz ao longo dos jogos do Brasil.
    Primeiramente, todo torcedor - e até os brasileiros que estavam torcendo contra a seleção - resolveu dar uma de técnico. Duzentos milhões de "técnicos" que diziam quem Felipão deveria convocar e quem deveria ficar de fora, quem seria titular e quem seria reserva, quais as estratégias que poderiam vingar e as que certamente levariam a seleção ao fracasso total. Não é tão fácil ser o verdadeiro e único técnico a comandar um time cujo esporte é o mais aclamado do país e, sobretudo, sediando o evento futebolístico mais importante do mundo.
    Quantos não acreditaram que esta Copa teria supostamente sido comprada? Este discurso foi repetido "n" vezes, até o jogo de hoje revelar totalmente o contrário. É curioso porque, avaliando as publicações dos meus contatos no Facebook, mesmo aqueles que sustentaram a ideia de Copa comprada torceram - e muito! - pelo Brasil.
    O que me fez sentir vergonha até então foi única e exclusivamente a torcida brasileira. A goleada de hoje foi  bem aceitável perto do comportamento do torcedor brasileiro. Eis a minha pequena lista:
    - As vaias para Dilma, na abertura da Copa. É vergonhoso, pois elas vieram, como se sabe, daqueles que pagaram mais caro pelo ingresso, dos artistas que fizeram vários selfies com camiseta da seleção e maquiagem nas cores verde e amarelo. Não deveriam ser gratos à presidente por lhes proporcionar uma Copa no padrão a que estão acostumados viverem e que a maioria da população sequer passa perto?
    - Ao contrário do que o hino cantado todas as vezes em a capella mostrou, a maioria da população brasileira não sabe cantar o hino ou não o conhece por inteiro, e vale para todas as camadas da sociedade. Esta constatação é tanto das observações em jogos da seleção (que venho notando há anos) quanto das minhas experiências cotidianas. Inclusive, no jogo contra a Colômbia fiz a leitura labial de um torcedor que, ao invés de cantar "e o teu futuro espelha essa grandeza", cantou com fervor "e o teu futuro espelha essa bandeira". Sortudos mesmo são os espanhóis, que não precisam conhecer a letra do hino, simplesmente porque ela não existe...
    - No jogo contra o Chile, o torcedor brasileiro se mostrou extremamente desrespeitoso com a torcida e a equipe chilena, que foi vaiada durante a execução de seu hino. Precisava mesmo ou é a velha história de que "faz parte do jogo"?
    - O jogador colombiano Juan Zúñiga foi muito criticado pela atitude que tirou Neymar da Copa e que resultou na fratura de uma vértebra do atacante brasileiro. Para o torcedor, ficar bravo e indignado por conta disso é normal, mas a coisa não acabou aí. Zúñiga sofreu ofensas racistas (e o racismo nunca é justificável), ameaças e até sua família teve o dissabor de ser humilhada nas redes sociais. É o ápice da vergonha.

    Ademais, a Alemanha mostrou um futebol classudo, bonito de ver e, acima de tudo, um time entrosado como ainda não se viu nas partidas da Copa. A eles, o meu elogio e respeito. Aos jogadores do Brasil, paciência. Lutaram nos outros jogos. Não nos esqueçamos que foram prejudicados várias vezes pelas arbitragens e mesmo assim conseguiram vencer.

    A velha crítica
    Esta semifinal ficará marcada para os torcedores brasileiros apaixonados por futebol. Provavelmente não houve um apostador brasileiro que tenha ganho um bolão. Desconfio até que algum alemão tenha ganho se a prática de apostas for comum na Alemanha. Ninguém esperava. A derrota por 7 a 1 soou como humilhação, mas e daí? Quantos trabalhadores não são humilhados a vida toda, em condições subhumanas de labor? É interessante ouvir o zagueiro David Luiz dizer que gostaria de dar alegria e fazer o brasileiro sorrir. Afinal, o futebol parece estar na carga genética, no DNA da maioria de nós (e, novamente, sem distinção de camada social). Mas penso que o sorriso mais digno não é aquele que esbanjamos ao ver a seleção ganhar. Este deveria ser o complemento de um sorriso e alegria de um povo que merece a satisfação de uma vida decente, mas não a conhece. São vidas severinas...

    O que sobrou do gramado
    É simples: a Copa será utilizada em discursos políticos, e de todos os lados, o que me faz lamentar tanta aberração cognitiva dos políticos e dos eleitores. Só hoje há várias publicações no Facebook sobre o dinheiro gasto para a Copa, que muitos haviam se esquecido com as vitórias da seleção brasileira. Até a Dilma apareceu como culpada pelo fiasco brasileiro. Não estou desmerecendo os bilhões de reais, mas qualquer pessoa em sã consciência sabe que o dinheiro investido para o evento não é suficiente para mudar os pilares básicos saúde-educação e até mesmo é o que o país investe em pouquíssimo tempo. Além disso, quem lucrou, de fato, foram as empreiteiras. Para romper um pouco com esta ideia, deixo como reflexão o posicionamento do Juca Kifouri no Roda Viva, para o qual tiro o chapéu. O vídeo pode ser visto no Facebook. As responsabilidades devem ser divididas.

    Velho desejo
    Sempre gostei de esportes e lamento que o brasileiro não torça tanto quanto no futebol nas mais diversas modalidades. Existem outras equipes que merecem apoio e incentivo. O Brasil não é feito só de futebol. Se a população se mobilizasse na política tanto quanto faz no futebol, seria possível acreditar mais firmemente numa mudança de rumo para o país. Mas o brasileiro tem aversão à palavra política e ainda prefere acreditar que o protesto tem que ser nas urnas e que a medida é suficiente.

    Em tempo, segundo o site do Globo Esporte, houve um ganhador que participou de um bolão.

  10. Desafio à brasileira

    domingo, 18 de maio de 2014

    Falta menos de um mês para a Copa do Mundo. Diante de tantos protestos contra o evento, temos que ser honestos: vai ter Copa sim! Embora as manifestações sejam válidas (e é um direito dos cidadãos), o momento certo de protestar e ir às ruas deveria ter sido há oito anos, quando o Brasil foi escolhido para sediar a competição, e não faltando um ano, como aconteceu em junho de 2013 (misturando-se com os protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa do transporte coletivo) e se estendeu até hoje. Embora não tenhamos certeza do que vai se suceder durante os 30 dias de evento, é certo que novamente as placas tectônicas da vida social do brasileiro vão entrar em choque.
    Esta não é a primeira vez que somos escolhidos como país sede da Copa, mas as circunstâncias histórias são outras e podemos afirmar, com muita convicção, que estamos diante de dois desafios sem possibilidade de desvio. Primeiramente, existe uma pressão muito grande para que o Brasil faça jus à fama internacional de país do futebol e conquiste o hexacampeonato. Em segundo lugar, e mais importante, está claro que não temos estrutura o suficiente para comportar este evento, e isso inclui todas as cidades selecionadas para os jogos.
    Em pleno ano de 2014, sediar a Copa - e em 2016 as Olimpíadas - representa a superação histórica e o rompimento definitivo da condição de ex-colônia, significa abandonar a ideia de país subdesenvolvido para revelar uma sociedade moderna tecnológica e economicamente, capaz de realizar mudanças efetivas na esfera cultural, política e social. Significa desconstruir a imagem de um povo que vive somente de futebol e carnaval. Enfim, trata-se de um desafio porque exige a recriação da identidade nacional.
    Um erro que nossos governantes deveriam evitar (mas parece que tem sido a "saída de emergência" às vésperas da Copa) é a aprovação de projetos que prometem soluções rápidas ou imediatas para os problemas estruturais que estão há décadas largados ao deus-dará e sem resultados notavelmente prósperos. Diante desta constatação, deveríamos estar inquietos não com a Copa em si, mas com o que virá depois dela. Continuaremos a depender de transportes públicos, os aeroportos continuarão lotados, a saúde pública continuará desestruturada, nossos jovens continuarão sendo alvos do turismo sexual no exterior, os índices de criminalidade não serão reduzidos, a educação não apresentará melhoras significativas mesmo que a seleção levante a taça de campeã. Nada há de moderno nisso.
    Queremos um Brasil preocupado com títulos e honrarias para se orgulhar ou um Brasil que poderia se orgulhar de um desenvolvimento justo e digno para todos?

    Esclarecimento: o brasileiro tem a mania de valorizar tudo o que vem de fora; parece que o Brasil é o único país que "não vai pra frente". É uma reclamação sem fim e nenhuma proposta de mudança. Não estou afirmando isso nesse pequeno texto, é apenas um olhar sobre o que significa ser país sede da Copa em nosso contexto atual. A propósito, muitos dos que protestaram ou estão protestando contra a Copa vão assistir aos jogos fielmente, podem apostar.


  11. Para encerrar nossas leituras sobre o carnaval, nada melhor que o olhar antropológico de Roberto DaMatta. Este texto faz parte de uma obra maravilhosa intitulada "O que é o Brasil?", na tentativa de compreender melhor nosso país, nosso povo e nossa cultura.

    O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer

    Todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festas, os rituais, as comemorações.
    [...] No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva.
    [...] Na festa, comemos, rimos e vivemos o mito da ausência de hierarquia, poder, dinheiro e esforço físico. Nela, todos se harmonizam por meio de roupas especiais, comidas singulares e, muito especialmente, pela música que congrega e iguala no seu ritmo e na sua melodia.
    No caso do Brasil, a maior e mais importante, a mais livre, criativa, irreverente e popular é, sem dúvida, o carnaval. Aliás, nessa festa, a própria definição já perturba, pois que dispensa os elementos da ordem, da esfera política e moral, básicos das outras festas. O carnaval não pode ser sério, senão não seria um carnaval...
    Mas qual a receita para o carnaval brasileiro?
    Sabemos que o carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo excesso - mas como excesso de prazer, de riqueza (ou de "luxo"), de alegria e de riso; de prazer sensual que finalmente fica ao alcance de todos. [...] Com isso, o carnaval inventa um universo social onde a regra é praticar todos os excessos.
    Por isso, o carnaval é percebido como algo que vem de fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistível que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. [...] Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que extraordinário é esse que ele tão criativamente inventa?
    O carnaval é um ritual de inversão do mundo. [...] No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo pelo uso do corpo como instrumento de beleza e prazer. No trabalho, estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No carnaval isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o corpo é gasto pelo prazer e pela "brincadeira".
    [...] O carnaval também promove a troca dos uniformes pelas fantasias. Se o uniforme é uma vestimenta que cria ordem e hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posições. E a fantasia é tanto o sonho acordado quanto aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos e o que poderíamos ter sido ou o que merecíamos ser. A  fantasia liberta, "desconstrói", abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo. Ademais, ela torna possível passar de "ninguém" a "alguém"; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica.
    É precisamente por estar vivendo uma situação na qual as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores, dos "elementos" que entram na fila e das "pessoas" que jamais são vistas em público como comuns.
    [...] No carnaval, nós, brasileiros, cantamos e, geralmente, podemos fazer o que cantamos. [...] Ali, todos podem exercer o direito de interpretar o mundo do seu jeito e a seu modo. Do mesmo modo, a crítica social mais ácida e a crítica política mais acesa, que pode dar em prisão e censura, são realizadas abertamente, tanto quanto a competição, que todos temem como algo monstruoso, mas que é também aceita em todos os carnavais brasileiros, construídos por meio de inúmeros concursos.
    De fato, no carnaval, há competição para tudo: músicas, fantasias, maior capacidade de exibir-se e, naturalmente, a disputa dos blocos e escolas de samba.
    [...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de "quem conhece o seu lugar" - algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política.
    [...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto...

  12. Nesta segunda publicação sobre o carnaval, o Sociologia e Opinião traz trechos de uma entrevista com o cantor e compositor Martinho da Vila, em fevereiro de 2011, mesmo ano em que um incêndio atingiu os barracões das escolas de samba Portela, Grande Rio e União da Ilha, do Rio de Janeiro. Uma real interpretação dos eventos carnavalescos e uma entrevista que ajuda a compreender melhor o que se passa por trás de todo o luxo e glamour da Marquês de Sapucaí (de acordo com o próprio Martinho da Vila, para uma escola ser competitiva, tem que gastar uns R$ 5 milhões).

    Pobres e ricos se misturavam no carnaval?
    Os ricos brincavam em outro local, nos clubes, nos corsos, nos ranchos. Isso foi caindo e a escola de samba absorveu tudo. [...] E, aí sim, com as escolas de samba, é que começou a haver a mistura entre pobres e ricos. Só que perdeu a interação com a cidade. Noutros tempos, o rádio só estaria tocando música de carnaval neste mês. O carnaval não é mais vivido por muito tempo. Passa logo. Hoje o dinheiro está mais presente e tudo ficou muito ligeiro. A velocidade do cotidiano influencia o carnaval de maneira marcante. Ninguém tinha muita pressa quando não havia organização oficial. Os blocos saíam na hora que quisessem, ficavam na rua o tempo que quisessem.

    A organização deixou o carnaval chato?
    A organização fez a escola de samba ganhar uma importância enorme. Era uma coisa inicialmente só de sambista do morro, hoje é de toda a sociedade. Então, até a TV resolveu entrar nesse lance, porque viu uma oportunidade de lucrar. O carnaval não era uma atividade lucrativa e nem era esse o objetivo. Mas assim vai ficar, porque as coisas não voltam para trás.

    Quanto do carnaval é dinheiro e quanto é paixão hoje em dia?
    Tudo é comercial, precisa gerar receita. Ninguém faz nada mais por prazer. O carnaval está completamente fora de sua origem. Virou indústria. O cara que é da escola de samba, que participa efetivamente, não precisa de dinheiro para sair no carnaval. Ele não paga fantasia. Os que vêm de fora e pagam ajudam a bancar o sambista. Em contrapartida, para você desfilar numa escola de samba, se for da comunidade, tem que participar obrigatoriamente dos ensaios. Ensaio de escola de samba só falta ter cartão de ponto. Quem não aparece perde a fantasia. Mas o sujeito gosta, aquilo é importante para ele. Não por causa da televisão, porque ele quer ser visto, nada disso. O cara do morro gosta da escola porque ela continua sendo a única opção de lazer dele. Ele não tem clube com piscina. Tá longe da praia. Então a escola vira a vida do cara. Como alegria de pobre é pouca, a escola tem essa função: de alegrar, divertir, distrair.

    Os ditos moradores do asfalto têm ligação, têm proximidade com o dia a dia da escola?
    A maioria não tem ligação. Mas, como a escola de samba não é mais só do sambista, ela é de todos agora, e é uma coisa apaixonante, o cara do asfalto vai a um ensaio e é imediatamente contaminado, fica louco. É uma magia difícil de explicar. Inclusive, esse pessoal da sociedade também se submete às regras. A top model que vira madrinha da bateria tem que ir ao ensaio. Se não for, trocam ela.

    Quem ganha mais com as celebridades no carnaval: elas mesmas, a escola, a TV?
    Há uma troca. O cara que sai na bateria não tem condição de ver uma estrela fora da TV ou da revista. Então, quando ela vai à quadra, o cara se sente honrado. Já o artista vive de cartaz, então celebridade desfila para aparecer, não por desfilar. Eu acho bom, porque mistura as classes sociais.

    No sambódromo essa mistura é menor, não é? Tem camarote pra uns, arquibancadas na chuva pra outros...
    Ah, mas isso é o Brasil. A seleção em nosso país se dá pelo dinheiro. Para socializar o camarote  só quando a sociedade brasileira estiver mais equilibrada. Por enquanto é o lucro que manda. Por isso o carnavalesco é profissional, os mestres-salas, as porta-bandeiras... Todos eles são funcionários contratados pelas escolas.

    E você gosta que seja assim?
    Não gosto. Eu preferia no passado, quando todos se sentiam donos da escola e se esforçavam para fazer a coisa acontecer. Os moradores iam varrer a quadra, vender cerveja nos ensaios... Hoje, não. Todo mundo ali está trabalhando. A Vila Isabel tem uns 400 empregados. Por um lado é bom, porque dá emprego, mas mata a paixão. Até no carnaval o capitalismo venceu. Antigamente, a glória de um sambista era ter seu samba cantado na avenida. Hoje tem resultados financeiros no jogo. Para seu samba ser escolhido, você tem que contratar um puxador que vá defendê-lo na quadra em todos os ensaios. Um puxador, dois ritmistas e um cavaquinho. Isso custa dinheiro. De graça ninguém faz mais. E o puxador pode ser nascido na Portela, por exemplo, mas é contratado pelo compositor para defender o samba da Vila Isabel. E ele vai, claro, pra ganhar um dinheiro.

    Isso soa tão anti-carnaval...
    As escolas estão quase como os clubes de futebol. Eles não têm mais jogador, que pertence a empresários, patrocinadores, a todo mundo menos ao clube. As escolas também não têm mais o seu mestre-sala, o seu diretor de bateria. Terminou o carnaval, começam as contratações. As escolas disputam o diretor de harmonia que foi bem naquele ano, o mestre de bateria mais premiado... Neste ano, quando der abril já vai estar todo mundo contratado, e possivelmente por uma escola diferente da que desfilou.

    A entrevista pode ser lida na íntegra aqui.

  13. O carnaval também faz parte do debate sociológico. Publicarei no blog três leituras e interpretações a respeito da maior festa no Brasil. A primeira é um artigo do sociólogo José de Souza Martins.


    A apoteose dos corpos insubmissos

    Sempre houve uma certa expectativa quanto a quem será desancado ou quem será bajulado na relativa surpresa dos nossos desfiles carnavalescos e na ordem invertida que representam. O carnaval nos chegou de Portugal, como entrudo. Trouxe-nos a medieval cultura das inversões simbólicas das identidades e dos poderes nos três dias de festa. Na cultura do avesso, assimilou manifestações centradas na tensão do corpo com sua dominação social e política, vindas de grupos negros e indígenas.
    O carnaval tornou-se o momento da pública exposição dos acontecimentos do ano e de suas figuras à mordacidade da crítica popular ou à sua bajulação. É o momento da manifestação do corpo insubmisso, como instrumento de um discurso gestual da contrariedade. Momento em que os grandes pagam pelos desaforos feitos aos pequenos. Mas, também, hora em que o puxa-saquismo se torna monumental, na visibilidade de uma gratidão material ou política carregada de malícia. É a hora do troco, em que a força subversiva do imaginário do povo se dá a ver nos enredos dos sambas, nas cores e nas alegorias de carros e fantasias, nos desfiles de cordões e escolas de samba, no Rei Momo, monarca do faz-de-conta, o anti-poder de três dias. É o momento dos fracos contra os fortes, da sociedade contra o Estado, da rua contra as instituições. O carnaval é um acerto de contas anual, o intervalo de um corrosivo tempo de deboche.
    Não é só o presente que cai na pancadaria simbólica dos carnavalescos. O passado inteiro está sujeito a apreciações sem cerimônia, em que nunca se sabe se a narrativa dos sambas-enredo são irônicas por intenção ou por desinformação. De qualquer modo, é sempre prudente recomendar aos estudantes que a melhor fonte do conhecimento histórico ainda é o livro.
    Mas é também o momento do corpo contra o espírito, do desejo contra a continência e a repressão, do proibido contra o permitido. Não é apenas feliz acaso que o nome da primeira escola de samba do Rio de Janeiro tenha sido Deixa Falar, uma insurgência contra a língua comprida e a dominante sociedade dos linguarudos, da polícia e dos comentadores da vida alheia, da "decadência" oficial contra a "indecência" popular, da repartição pública contra a rua e o povo. Não é à toa que, em carnavais de outros tempos, e hoje menos, as pessoas se fantasiassem, ou se fantasiem, de seus contrários, homem vestido de mulher, mulher vestida de homem, adultos vestidos de bebês, de "mamãe-eu-quero-mamar", mascarados vestidos de demônio nesse tempo de ritual e anjos decaídos. É o embaralhamento das identidades, no vestuário e nas máscaras carnavalescas em que traços do antagônico são ressaltados para expor as fisionomias reais, do perverso, do sovina, do corrupto, do oportunista, que se ocultam nas dissimuladas fisionomias cotidianas. É a personificação crítica das alteridades que demarcam repressivamente nossa nem sempre fácil vida de todo dia. É a máscara que permite transgredir sem ser reconhecido nem ser punido. A transfiguração de cada um naquele que não é. É, sobretudo, o duplo sentido do dizer oculto.
    O carnaval é o momento mais forte e significativo de exposição da centralidade do corpo na nossa cultura, como referência problemática da realidade social. O corpo nu e natural é apenas adjetivo, apenas ponto de reparo e referência da construção do corpo imaginário e social, o corpo que pode ser "lido", situado e compreendido. Desde o nascimento, as crianças são trajadas de maneira a adquirirem a identidade que as situará no mundo, a cor da roupa, o brinco da menina, os brinquedos. Os ritos de casamento são, basicamente, ritos de fecundidade, sacralização da troca biológica de sangue entre os esposos, modo de assegurar a antecipação cultural e social dos corpos que serão gerados, simbolicamente concebidos desde antes de existirem. Nesses processos, o corpo é situado nas tensões da vida e da morte, do transitório e do eterno, do mortal e do imortal. O carnaval desveste o que os poderes vestiram.
    Ele é bem mais do que crítica social e política. Nele se expressam essas tensões constitutivas do humano, no pouco caso das fantasias de caveira e de demônio, na exorcização do medo e da morte, na negação do sobrenatural no corpo liberto, até mesmo nos extremos da nudez em desfiles de escolas de samba. No fundo, o carnaval é um contra-rito religioso. Inscrito na véspera da Quaresma e do tempo do luto e da dor, é o tempo do desejo e da euforia, que precede um tempo de jejum e de punição ritual do corpo, um tempo de purgação da pecaminosa carnalidade do homem. Antes desse recolhimento litúrgico, a licença do carnal, não só o da sexualidade, mas também o do apetite, sujeitos às interdições rituais e à fria temperança da Quaresma. O carnaval é um intervalo cíclico de transgressão consentida, que no temporário da festa liberta o corpo desordenador e da desordem consentida que dele resulta. Não por acaso, o carnaval é o tempo da folia, da loucura e da multidão.
    Embora seja um intervalo no tempo herdado da liturgia religiosa, da qual muitos estão cada vez mais distantes, é no carnaval que a crise social e as mudanças de longa duração, quase imperceptíveis, se manifestam no curto tempo do desabafo. Na perspectiva desse tempo longo é possível notar que, na sua substância, o carnaval está acabando lentamente. Não só porque se torna progressivamente um empreendimento comercial sujeito a regras empresariais, que em tudo negam a insurreição livre do corpo e do desejo. Mas, também, porque no cotidiano elementos de identificação carnavalesca do corpo estão agora presentes e não só entre jovens. É muito significativo quando tatuagens e piercings, adornos corporais permanentes, se tornam cada vez mais complementos de uma nudez semi-oculta, mas proclamada. Uma negação explícita da transitoriedade ritual do carnaval e uma desconstrução do corpo submisso, uma forma de dizer que a insurreição de três dias se torna a insurreição visual de um ano inteiro - e se esvazia.

    Publicado em 07 de fevereiro de 2008 no caderno Aliás, do Estadão.

  14. Em busca do urbanismo perdido

    segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

    As cidades brasileiras vivem o seu pior momento. Pelo menos esta é a opinião do antropólogo, historiador e poeta Antonio Risério. Diante de tanto caos e problemas típicos da vida urbana - moradia, trânsito, violência, entre outros - a situação se apresenta como irreversível. "Atravessamos a maior crise urbana da história brasileira", afirma Risério. Mas isso não quer dizer que tudo está necessariamente perdido; os governantes tem consciência da complexidade dos problemas. Acontece que, para o antropólogo, "o Brasil é um país que, por flexibilidade ou por hipocrisia, chega muito fácil a certos consensos, mas não realiza as coisas".
    Em entrevista ao Aliás do jornal O Estado de São Paulo, Risério discute as questões urbanas com maestria e acredita ser possível reverter a situação. Comenta sobre a Copa do Mundo e as Olimpíadas ("o Brasil tende a ser o paraíso do autoengano"), os rolezinhos, a poluição dos rios, as enchentes crônicas, o transporte público versus o individual e as segregações sociespacial e socioterritorial.

  15. Bonde Errado

    segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

    Nos últimos dias, tivemos a sensação de que nunca se falou tanto do Estado mais pobre do Brasil: o Maranhão. E não foram notícias boas, como já sabemos. O presídio de Pedrinhas abalou as placas tectônicas da vida social maranhense e nos fez repensar a dinâmica da violência, que não se restringe somente ao presídio. A maioria das pessoas sempre acreditou que os problemas do presídio são dos detentos, dos guardas, da administração, do governo e o resto da sociedade nada tem a ver com isso. Os últimos acontecimentos mostraram o contrário: a violência das organizações criminosas perpassam os muros do presídio e atingem o cotidiano de forma brutal, além de penetrarem e tocarem no ponto fraco de um Estado cuja população é predominante jovem: o abandono, a exclusão, a falta de políticas públicas que contribuam para o desenvolvimento digno de jovens e crianças.
    O Aliás, do Estadão, trouxe uma entrevista imperdível e necessária com Luis Antonio Pedrosa, advogado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB no Maranhão. Para ter acesso à entrevista, clique aqui.
    Aqui no blog, deixo registrados os trechos que envolvem alguns dos pontos cruciais dessa onda de violência que se assolou no Maranhão, embora não seja recente.

    "A verdade é que não há gestão política preocupada com o sistema prisional. Primeiro porque prisão não dá voto. Segundo porque ali estão os mais pobres. Terceiro porque há uma cultura que acha que os presos têm é que se matar dentro da cadeia, não é problema da sociedade. Mas hoje a sociedade está aterrorizada porque percebeu que essa violência pode fugir do controle."

    "A perspectiva mais promissora na cabeça de um adolescente de periferia é integrar uma organização criminosa ou um grupo criminoso, porque pelo menos ali ele consegue impor o respeito que a sociedade não lhe dá. Isso é um fator que agravou sobremaneira a violência no Estado."

    "A nossa [polícia] é um fracasso em termos de atuação tendo como referencial a dignidade das pessoas. O referencial é a pressuposição de que o cara é bandido. E, sendo um bandido, tem que ser tratado como tal."



  16. Livro: Cidades Rebeldes

    terça-feira, 7 de janeiro de 2014

    A partir deste ano, o blog terá um espaço voltado exclusivamente para indicações de livros. A ideia não é disponibilizar resenhas profundas - são, mais uma vez, indicações. Os livros, que podem ou não ser da área sociológica, serão divulgados com a finalidade de despertar o interesse por temas relevantes.
    A primeira indicação será de um livro que talvez tenha sido um dos mais inquietantes do ano de 2012, bem como as motivações que levaram à publicação da obra: Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.

    Imagem: Outras Palavras

    No calor dos protestos e manifestações que invadiram as ruas, as manchetes de jornais, programas televisivos e, claro, as redes sociais, vários artigos foram divulgados; pensadores foram contratados exclusivamente para dar uma resposta "satisfatória" à população, que se indagava a todo momento - num misto de confusão, rebeldia, inconformismo, revolta e indiferença também - "o que está acontecendo?". Naturalmente, todos nós tentamos compreender o que essas duas semanas de rebelião urbana representaram para o país e os possíveis desdobramentos.
    Cidades Rebeldes, da Boitempo Editorial em parceria com a Carta Maior, é, sem sombra de dúvidas, a melhor produção sobre as jornadas de junho até o momento. Se quisermos uma reflexão mais profunda sobre os acontecimentos que atingiram proporções inimagináveis, esta é uma leitura obrigatória e, portanto, imprescindível.
    O livro é resultado de uma coletânea de ensaios cujos autores são de alto renome no pensamento crítico em escala (inter)nacional. Além disso, a obra reúne charges e imagens que não foram veiculadas pelos grandes meios de comunicação, ou melhor, pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista).
    No âmbito internacional, temos os ensaios de David Harvey, Mike Davis e Slavoj Zizek. Entre os autores brasileiros, temos Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Felipe Brito, João Peschanski, Jorge Luiz Souto Maior, Leonardo Sakamoto, Lincoln Secco, Mauro Luis Iasi, Pedro Rocha de Oliveira, Raquel Rolnik, Ruy Braga, Silvia Viana e Venício Lima, além das colaborações da Mídia NINJA e do Movimento Passe Livre de São Paulo.
    Cidades Rebeldes apresenta os elementos que não apenas tornam as cidades mais complexas, contraditórias ou caóticas, mas como sentimos tais efeitos e de que forma se relacionam com as lutas e reivindicações. Um ponto interessante é que, ao contrário do que vimos ano passado, os ensaios não procuram atacar ferozmente ou idealizar as manifestações; eles abordam justamente o que está por trás desses atos.
    Mencionarei alguns aspectos do livro que contribuem para uma análise que atinja as expectativas do leitor. Em primeiro lugar, está claro que as vozes que se fizeram ouvir nas ruas não formam um conjunto homogêneo; os interesses não eram os mesmos. Apesar da diversidade ideológica nítida, na pauta das manifestações estavam as mais diversas agendas mal (ou ainda não) resolvidas. Outras abordagens presentes:
    - O transporte coletivo vinculado a um sistema completamente entregue à lógica da mercadoria.
    - Repensar o sentido da cidade, uma vez que ela é o principal local onde se dá a reprodução da força de trabalho, representa a expressão das relações sociais e prioriza o transporte individual.
    - Reformas: urbana, política e fundiária.
    - O direito à cidade, que não pode ser concebido como um direito (ou poder?) individual. Acredito que esta seja a discussão mais marcante do livro. Vale a pena uma citação da Raquel Rolnik:
    "Não se compra o direito à cidade em concessionárias de automóveis ou no Feirão da Caixa: o aumento de renda, que possibilita o crescimento do consumo, não "resolve" nem o problema da falta de urbanidade nem a precariedade dos serviços públicos de educação e saúde, muito menos a inexistência total de sistemas integrados eficientes e acessíveis de transporte ou a enorme fragmentação representada pela dualidade da nossa condição urbana (favela versus asfalto, legal versus ilegal, permanente versus provisório)".
    - A repressão brutal que os movimentos sofreram, física e ideologicamente.
    - A legitimidade das manifestações e uma das palavras mais utilizadas: vandalismo.
    - Compreender melhor a bandeira do transporte público.
    - Refletir a respeito de um movimento que começou Apartidário e se tornou ANTIpartidário.
    - A crítica da expansão (ou não) dos direitos sociais e a discussão acerca da qualidade dos serviços públicos.
    - Problematização da crise de representação política e os discursos dos grandes meios de comunicação que investem na desqualificação dos políticos e da própria política, através do discurso insistente da corrupção como principal responsável por tudo que acontece ou deixa de acontecer no Brasil.

    Todas essas reflexões estão em apenas 110 páginas, incluindo o item "Sobre os autores". Mais um bom motivo para ter Cidades Rebeldes: a obra custa aproximadamente R$ 10,00.