Dois acontecimentos que mostram claramente que esta é uma semana que pode ser jogada na lata de lixo da história brasileira. 1 – Tivemos que engolir Alexandre Frota (um cara ignorante, insolente, cretino e estuprador confesso aplaudido por uma plateia ridícula em um programa ridículo) ser recebido para falar sobre educação. Sim, o homem que fracassou como lutador, ator pornô e cantor de funk certamente tem muito a nos oferecer na área mais desafiadora do país. O Brasil é ou não uma piada? 2 – A menina estuprada por 30 homens. E que terá que conviver com esse pesadelo para o resto de sua vida. Justamente pelo fato de ocorrer com mais frequência do que as estatísticas apontam, a cultura do estupro existe, é aceita por muitos homens e mulheres e está nas propagandas de carros, cervejas, filmes e músicas. É um crime que tem amparo da sociedade civil! É o reflexo de uma sociedade que olha para o meu corpo já procurando “algo a mais”, que aponta o dedo para o tamanho das minhas roupas, que decide os lugares que devo frequentar e os horários que posso estar sozinha “sem correr risco”, que me diz que se eu bebi, fumei ou usei drogas sou merecedora da violência.
Estou crente da incapacidade de olharmos um palmo à nossa frente e para os lados. Estou crente do cinismo e do machismo, como sempre estive. Estou crente de que estamos longe de ser uma nação que vai dar certo enquanto ainda precisarmos falar sobre isso.
Os atentados em Bruxelas ocorridos na semana passada somam quase 40 mortes e deixou mais de 300 feridos. Foram considerados os piores atentados da história da Bélgica, cometidos por jihadistas do grupo Estado Islâmico, que há tempos vem proclamando sua campanha de terror no Ocidente.
Os jovens que foram responsabilizados pelo ataque. Fonte: Expreso.
Semana passada, por coincidência de horário e lugar, assisti ao inútil diálogo entre os apresentadores da Rede Globo Rodrigo Bocardi (do Bom Dia SP) e Chico Pinheiro (do Bom Dia Brasil). Este dizia mais ou menos o seguinte: "eu chego na redação cinco e pouco da manhã e me deparo com notícias sobre os atentatos na Bélgica na pauta". Chico Pinheiro afirmou que seu dia já começava mal e ficava desanimado com essa onda de violência. Não satisfeito, lançou a cartada final: "a pessoa tem que ser muito ignorante para se explodir. O que uma pessoa tem na cabeça para fazer isso?". Este último comentário provavelmente foi a representação máxima do senso comum e não duvido que a maior parte do telespectador tenha a mesma linha de raciocínio. Acontece que Chico comprovou toda a sua falta de conhecimento sobre o assunto, ou usando a mesma palavra: mostrou-se ignorante. O olhar puramente ocidental e preconceituoso sobre esses indivíduos não faz a população entender o que se passa no universo dos jovens que optam pela adesão ao Estado Islâmico. Nesse aspecto, vale ressaltar a explicação dada pela professora de História Árabe da USP Arlene Clemesha no Jornal da Cultura terça-feira passada. Não precisamos de opiniões, mas de debates mais amplos que a Rede Globo está longe de nos oferecer.
Deixo também uma recomendação de leitura muito pertinente. Robert Fisk é um correspondente de guerra britânico residente no Líbano. Há 40 anos no front no Oriente Médio, deu uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo intitulada Nascidos para morrer. Selecionei trechos que merecem atenção:
- "O que o EI quer é destruir a generosidade do Ocidente de dar abrigo aos refugiados. O grupo tenta nos fazer acreditar que seus recrutas fanáticos existem dentro da comunidade de refugiados. [...] Com atentados como esse, o objetivo do EI é nos fazer odiar os milhões de refugiados que vão à Europa e culpá-los pelos massacres do grupo."
- "Os EUA têm tratado o EI em termos apocalípticos desde que o grupo se expandiu em 2014. Não têm estratégia para lidar com o EI, exceto bombardeá-lo e fazê-lo parecer muito maior do que é. De fato, o EI é perigoso. Mas a reação dos EUA tem sido do tipo Hollywood, em vez de por meio de conceitos."
- "A melhor forma de destruir o grupo - e ele se autodestruirá - é promover justiça e educação no Oriente Médio."
- "Na Segunda Guerra, em 1941, Churchill convocou um gabinete para organizar a Alemanha do pós-guerra quatro anos antes do fim do conflito. No passado planejávamos as coisas, hoje não. Veja a crise de refugiados: não estamos nem perto de saber como lidar."
- "Sempre fizemos ações militares no Oriente Médio, mas tudo foram mortes, sangue e injustiças. [...] E ainda achamos que vai dar certo. É uma catástrofe! Não temos estratégia para o Oriente Médio."
- "Os mapas que mostram vastos territórios de carnificina do EI não refletem seu poder real. O EI é uma terra de almas perdidas."
O professor e historiador Leandro Karnal sempre consegue despertar em nós a capacidade da reflexão profunda e minuciosa, ainda que seja para discordar de suas colocações. No Youtube há vários vídeos que perpassam pelos mais diversos temas.
Hoje foi publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, seu artigo intitulado O espelho do horror. É uma leitura mais que fundamental para pensarmos a ligação historicamente determinada entre violência e religião, sobretudo num momento em que o grupo Estado Islâmico tem aparecido como protagonista de uma série de notícias. Será que os vínculos entre uma coisa e outra são tão fortes assim? Será que as pessoas realmente matam em nome de "algo maior"?
Uma pequena provocação:
"A marcha da História é um espetáculo terrível de atrocidades. A humanidade queima, empala, tortura, executa, cria câmaras de gás, mata de fome, bombardeia, enforca, esquarteja, leva à cadeira elétrica, perfura de balas, atropela e esmaga. Sempre foi assim, mas variam nossos mecanismos de crueldade e de violência. O que limita nossa crueldade é nossa tecnologia. Se alguém cair em tentação de atribuir à religião essa violência, deve aumentar a lista com dois tiranos campeões de genocídio, Stalin e Mao, ambos ateus. Não é Deus nem a raça; não é o momento nem as riquezas - somos nós mesmos. A semente do mal germina em nós, nós somos o mal. Se a água que rega é piedosa ou científica, ateia ou mística, tanto faz para as vítimas".
O brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, de 53 anos, foi
fuzilado na Indonésia na manhã de domingo deste fim de semana (no Brasil, a
execução deu-se por volta das 13h30min do sábado). O carioca foi condenado à
pena de morte por tráfico de drogas. A Indonésia possui uma das leis mais
rígidas de todo o mundo contra o tráfico. O indivíduo que for pego portando
mais de 5g de droga pode ser condenado à morte e a lei tem apoio da maioria da
população. Mesmo tendo ciência das regras, Marco tentou entrar no país em 2003 com
13,4kg de cocaína escondidos nos tubos de uma asa-delta. Embora a mídia
brasileira o tenha apresentado como instrutor de asa-delta, Marco jamais
exerceu este ofício, tendo em vista que sua vida pode ser resumida da seguinte
forma:
- 17 anos vivendo em Ipanema;
- 25 anos traficando drogas pelo mundo;
- 11 anos em presídios da Indonésia.
O caso em questão reacendeu o debate sobre a pena de morte
entre os brasileiros. Nas redes sociais, a Indonésia virou exemplo a ser
seguido: muitos glorificaram em pé a justiça deste país até então esquecido
pela maioria. Fiquei pensando por que as pessoas ficaram tão contentes com a
morte deste homem. Será que foi o sentimento de que a justiça se realizou? Foi
uma espécie de prazer psicológico ao ver alguém sendo eliminado? Foi a (falsa) sensação de que é um a menos para espalhar terror e violência às pessoas de
bem? Ou, como o jornalista Leonardo Sakamoto afirmou em seu blog, foi uma
projeção do nosso sentimento pessoal sobre o tráfico de drogas no Brasil e o
desejo de vingança? Pode ter sido tudo isso e até mais um pouco. Porém, o que
entendemos por “justiça” é uma longa e interminável discussão que perpassa pelo
Direito, pela Sociologia, pela política e por valores individuais que não podem
ser mensurados ou catalogados.
Nadando contra a correnteza da sessão-louvor ao governo
indonésio, soube de um fato intrigante que me fez questionar o suposto senso de
justiça. Umar Patek é um terrorista, considerado extremista islâmico, que
reconheceu e assumiu a autoria de um atentado em Bali, no ano de 2002. Patek
fabricou as próprias bombas que mataram mais de 200 pessoas. Sua condenação: 20 anos de cadeia.
Umar Patek. Fonte: Time
Não estou fazendo uma simples comparação. Marco desrespeitou
uma lei importantíssima e, evidentemente, deveria ser punido. É claro que o
tráfico de drogas desenvolve uma complexa estrutura de violência no mundo todo.
Entretanto, está claro também que Marco não atentou contra a vida de ninguém
(ao menos diretamente, já que o tráfico faz milhares de vítimas), ao contrário
de Patek. Daí resulta o quanto precisamos conversar mais profundamente acerca
do que é a justiça e – por que não? – relacioná-la com a pena de morte.
Tenho o costume de dizer que a pena de morte já existe, em
partes, no Brasil. Se pensarmos na nossa violência social, será possível perceber que tanto a polícia quanto grupos de extermínio matam sistematicamente. Matar
sistematicamente significa escolher quem deve morrer e “quem dessa vez passa”. Ou
seja, apesar de não ser institucionalizada, há tempos a pena de morte já está
em vigor. Lembrando que ela também é feita pelas próprias mãos, como quando a
população “sentencia alguém” (tendo ou não cometido algum delito) e adota o
linchamento como modalidade de pena de morte.
Pelo título desta publicação, o leitor pode concluir o óbvio:
sou contra a pena de morte e a favor da pena de vida. Este título é inspirado
em uma música do grupo Pedro Luís & a Parede que tem o mesmo nome, cuja
primeira estrofe define bem a minha linha de pensamento:
“Eu assinei a pena de vida,
Sou a favor da pena de vida.
Se o sujeito cagou, pisou na bola,
Tem que resolver aqui,
Não pode sair fora.”
O meu objetivo principal, porém, não é a reflexão sobre a
pena de morte. Considerei importante me posicionar, mas quando decidi escrever
sobre o caso de Marco Archer, a minha intenção primordial era associar os
orgasmos múltiplos sentidos pelas pessoas diante de sua execução com o que a
filósofa Hannah Arendt chamou de banalidade do mal. Este conceito refere-se ao
mal praticado no cotidiano como uma ação qualquer feita por mim, por você, por
qualquer um.
Arendt afirmava que o mal estava banalizado na sociedade e
que nós todos éramos responsáveis por isto, e não apenas uma classe econômica
ou grupo específicos, por exemplo. Isso quer dizer que simplesmente nos
acostumamos com o mal em todas as suas dimensões (afinal, ele sempre existiu, né?), mas ao mesmo tempo recusamos
que ele esteja ao nosso alcance ou que faça parte de cada um. Nas palavras de
Márcia Tiburi: "A tese da malignidade radical, do mal exercido com fins
perversos, não nos atinge, pois nos entendemos como simples pessoas 'não
malignas'; já a tese do mal banal nos atinge porque somos confrontados com ela
enquanto pessoas que vivem o mundo do cotidiano como lugar banal. Nós que nos
pensamos como 'pessoas de bem' seríamos intocáveis do ponto de vista ético; se
fazemos o mal é porque 'errar é humano'."
Grande parte das pessoas que conheço parece sentir um tipo de prazer diante da tragédia de outrem. Um exemplo simples para
ilustrar: por que o imenso destaque da mídia sobre todas as naturezas do
mal (físico, simbólico e psicológico)? E não me refiro somente aos fatos que
tendem a causar mais impacto por serem “maiores”; a questão é que muita gente
gosta mesmo de ver os outros “se dando mal” (a expressão não casa com comunhão universal
de bens?) sem perceberem que, agindo desta maneira, estão potencializando o mal
e o praticando direta ou indiretamente, dia após dia, e pode ser no trabalho,
nos conflitos familiares, nos ambientes públicos.
A banalidade do mal é o reflexo de uma cultura em que o
pensamento crítico é mais ausente do que presente, onde a anulação, a negação
do outro é sempre uma constante e as supostas “pessoas de bem” são sempre
vítimas, uma vez que seus pré-conceitos já as tornam naturalmente incapazes de
agir com qualquer maldade.
O ano de 2015 mal começou e já vem
dando sinais de que promete deixar as mentes pensantes inquietas.
O mundo todo dirigiu os olhares à
França semana passada num misto de revolta, indignação, tristeza e vingança
diante do impacto causado pelo pior atentado das últimas cinco décadas no país.
Os irmãos Said e Chérif Kouachi, supostamente responsáveis pelo ataque ao
jornal Charlie Hebdo que culminou em 12 mortes (sendo dez jornalistas e dois
policiais, um destes, inclusive, muçulmano) e 11 feridos, teriam cometido
tamanha atrocidade a fim de vingar o Profeta Maomé. De acordo com informações
policiais, os autores do crime chegaram até a gritar “Vingamos o Profeta”.
Para o professor Reginaldo Nasser,
cujas pesquisas estão concentradas na área de conflitos e segurança
internacionais e terrorismo, o atentado foi planejado e os alvos eram
específicos, a contar pela escolha das armas. “Outro aspecto é que o ataque foi
muito bem organizado, por algum grupo que tem força e estratégia pra isso.
[...] Os terroristas agiram com muita tranquilidade e isso expõe falhas
gravíssimas no sistema de segurança francês”. Correm notícias de que a Al Qaeda no Iêmen assumiu a autoria do atentado.
O grupo Estado Islâmico atribuiu aos
irmãos o título de heróis. Neste mesmo dia, 150 mil pessoas foram às ruas de
Paris em nome da democracia e da liberdade de expressão. Em outros países,
inclusive no Brasil, aconteceram manifestações. Por outro lado, na Alemanha,
houve manifestação pela expulsão dos muçulmanos da Europa. Na sexta-feira, a
polícia francesa matou os dois suspeitos, que estavam próximos de Paris. Simultaneamente, ocorria na capital um ataque a um mercado judaico, realizado por
um homem que estava ligado aos irmãos Kouachi.
O Charlie Hebdo é internacionalmente
conhecido por sua ironia e tom provocativo. É, ao mesmo tempo, desafiador
porque nunca hesitou em retratar líderes políticos ou religiosos (sejam eles
pertencentes às fés católica e judaica ou ao Islã), e o fez de forma satírica e
corajosa, mas também constrangedora e discriminatória. Há oito anos o jornal
vinha sofrendo ameaças e duas questões centrais devem fazer parte da nossa
reflexão: a liberdade de pensamento e de expressão e os possíveis
desdobramentos deste acontecimento.
Como se sabe, a França tem um notável
histórico de tensões em relação aos imigrantes, sobretudo aos muçulmanos. De
seus 66 milhões de habitantes, de 5 a 6 milhões são muçulmanos, cuja maioria
vive à margem da sociedade e está desempregada. Lamentavelmente, vários ataques
às instituições muçulmanas foram registrados depois do ocorrido ao Charlie Hebdo
e a tendência é que o preconceito com os imigrantes aumente em toda a Europa
(como aconteceu nos Estados Unidos em 2001). Infelizmente, a maioria das
pessoas está propensa a generalizar ocorrências individuais e projetá-las para
o plano coletivo.
Outra tendência é que a extrema direita
se fortaleça, como já vem acontecendo, com seu discurso ultranacionalista e
xenofóbico. Marine Le Pen, da Frente
Nacional, é a principal representante deste movimento e, por enquanto, é
favorita nas eleições de 2017. Em contrapartida, é importante lembrar que o
Charlie Hebdo se configura na ala da esquerda; Charb, o diretor do semanário assassinado,
tinha forte ligação com os partidos progressistas franceses, o que nos leva a
concluir que o episódio da semana passada está além da esfera religiosa. É
também uma questão política: foi um baque para a esquerda e “aquela mãozinha”
para a direita.
Ainda é cabível a comparação de como a
mídia trata o islamismo e os movimentos de direita. Em 2011, um fundamentalista
cristão de extrema direita executou 76 pessoas na Noruega. A justificativa? Ele
era louco, foi um caso isolado, não associado à crença religiosa. No caso da
França e em outros eventos, a sensação que ficou foi a que todos os
muçulmanos são perigosos e não merecem confiança.
Diante do ocorrido, cabem também algumas
perguntas: “Onde a liberdade de expressão começa e onde termina?”, “Devemos
defender as publicações de Charlie Hebdo a partir do pressuposto da liberdade
de expressão?”, “Até que ponto uma charge é uma crítica e quando passa a ser
uma ofensa?”, “O que a liberdade nos permite fazer ou dizer?”. Conhecer o teor,
o conteúdo do jornal, são fundamentais para direcionarmos nossas respostas. É bem verdade que o Charlie Hebdo tem ótimas charges e carictaruas do mundo do entretenimento. Porém, nosso foco são as de caráter religioso. Abaixo, algumas imagens:
"Enfim livre" - referente à renúncia de Bento XVI
A verdadeira história do menino Jesus
Maomé beijando um cartunista com a frase: Amor, mais forte que o ódio
Muçulmano recebe tiros. "O Corão é uma merda". O aviso em amarelo diz: Ele não pára balas.
Ironia à Santíssima Trindade: O Pai, o Filho, o Espírito Santo. Referência ao casamento gay
Intocáveis. Rabino empurra muçulmano com o aviso: Não se deve zombar.
Judeu, católico e muçulmano: Censurem Charlie Hebdo!
Vaticano: Outra eleição fraudada. Jesus Cristo: Soltem-me, eu quero voltar!
Se Maomé voltasse...
- Eu sou o Profeta, estúpido!
- Cale a boca, infiel!
Maomé: nasce uma estrela!
Primeiramente, independentemente do que
pensemos sobre as ilustrações acima, o ataque terrorista ao Charlie foi
horrível e injustificável; a intolerância religiosa foi levada às últimas
consequências. Porém, penso ser importante a diferença entre criticar ou
questionar o caráter político-ideológico do islamismo, do judaísmo e do catolicismo e de
atacar a fé dos adeptos dessas religiões. É uma linha tênue. As charges
de Maomé, por exemplo, não têm apenas caráter questionador.
Nos jornais, nas redes sociais e nas
manifestações, a frase “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie) se propagou em
velocidade indescritível. O que significa ser Charlie? Pode ser em prol de uma
imprensa livre de autocensura e do politicamente correto, mas também
irresponsável ao ridicularizar as fés professadas mundo afora.
Talvez o Charlie Hebdo nunca tenha se
preocupado de forma real com o contexto político-social dos muçulmanos na
França e em toda a Europa; o humor “laico” e independente estaria acima de tudo. Entretanto,
apesar de nos referirmos ao islamismo apenas como uma religião, ele está
historicamente ligado à identidade cultural e política de um povo. A partir dos
preceitos do Islã, qualquer representação do profeta Maomé é considerada
ofensiva. Mas o semanário sempre foi além da pura representação, e mesmo
aqueles que não são adeptos do Islã não deveriam ver apenas como uma sátira, uma vez que legitima a invisibilidade dessa população e não abre espaço para os
diálogos de combate ao preconceito.
Isso não torna, evidentemente, a
comunidade muçulmana privilegiada. Acredito muito numa liberdade responsável e
tolerante em relação a todas às religiões ou fatos que merecem ser
caracterizados por cartunistas. Este humor livre, responsável e tolerante é
possível. Inclusive, se pensarmos no que os humoristas brasileiros (alguns, infelizmente,
de muita credibilidade) têm feito apenas “em nome do humor”, numa espécie de
vale-tudo, também encontraremos discursos preconceituosos em relação a grupos
sociais específicos.
Sem humor nós todos estamos mortos. Mas... que tipo de humor?
O Brasil conheceu Fabiane de Jesus da pior forma: foi linchada pela população enfurecida do Guarujá por causa de um equívoco. O país está, infelizmente, entre os que mais lincham no mundo.
O linchamento não é uma modalidade de crime no Código Penal Brasileiro. Os que mais se aproximam são o homicídio e outras formas de violência física. O linchamento é um tipo de crime difícil de precisar e quantificar, tanto que não configura nos dados estatísticos ou em mapas da violência. Ele está, geralmente, associado à ausência de valores sólidos e estruturados, envolvendo indivíduos mais vulneráveis de contextos econômicos e sociais fragilizados - ou seja, são muitos no Brasil. Porém, vale lembrar que o número de linchamentos ou suas tentativas tem aumentado significativamente entre a classe média.
Fabiane está entre a minoria: de acordo com o sociólogo José de Souza Martins, que estudou mais de dois mil casos de linchamentos, dificilmente mulheres são vítimas, embora colaborem muito nos linchamentos, ao lado de crianças. Tudo lhe foi tomado cruelmente: a dignidade e a vida.
As pessoas que tomam a atitude de punir coletivamente alguém o fazem sistematicamente e, ao mesmo tempo, de forma irracional. Elas não estão abertas a negociações e sequer reconhecem a condição de ser humano no outro. Quando a justiça com as próprias mãos é exercida, não é porque os indivíduos são naturalmente ruins: na maior parte dos casos isso ocorre devido à sensação de ausência de Justiça nesses lugares e à falta de confiança e lentidão num Estado falho e omisso que não protege os cidadãos. Sendo assim, é lamentável que os linchamentos sejam vistos como um meio legítimo de justiça a favor da sociedade. Pior: que ele seja defendido com unhas e dentes por muitos.
Quando alguém comete um crime, o indivíduo deve ser punido devidamente, e nada justifica o comportamento dos linchadores que, ao praticarem o ato, tornam-se criminosos também. No caso de Fabiane, que recebeu falsas acusações, a atitude da população se torna ainda mais injustificável.
O que ainda é difícil de compreender é que a ideia de justiça com as próprias mãos sem direito a juiz e apelação é uma forma eficiente de desestruturar ainda mais a sociedade. No começo do ano, jornais mostraram um jovem de 15 anos espancado e amarrado nu em um poste no Flamengo, supostamente por "justiceiros". A intensão é sempre a de agredir moral, física e simbolicamente o outro, a ponto de anular sua existência, o que revela uma sociedade em descontrole. A impressão é a de que as pessoas têm o direito de agir com violência gratuita. Ou estamos confundindo nossa liberdade de cidadãos com direito e vontade de vingança?
Gostaria de finalizar com uma observação: as pessoas que aprovam os linchamentos e outras formas de justiça popular às vezes ficam horrorizadas, por exemplo, com a rigidez das penas nos países árabes, como o apedrejamento, sobretudo de mulheres, que é uma forma de linchamento. Esta é uma contradição que não pode ser resolvida facilmente.
A mais recente publicação do Blog da Boitempo é o texto Terrorismo Oficial, do professor de História Contemporânea da USP Lincoln Secco. Um texto polêmico e, ao mesmo tempo, muito fundamentado, referente ao protesto realizado no dia 2 de fevereiro em São Paulo e à conduta da polícia militar.
Não é de hoje, e nem das Jornadas de Junho, que se discute o comportamento dos agentes da corporação. As manifestações que vêm ocorrendo desde o ano passado impulsionam o debate, que ganha visibilidade na mídia, mas nem por isso se aprofunda nos problemas reais e estruturais que fazem parte da nossa vida social. Além disso, mais importante que ficar avaliando as ações dos policiais é pensar na existência desse grupo intitulado polícia militar. Por que a militarização se o regime da ditadura, na teoria, já se encerrou? O problema não é a existência da polícia; ela é absolutamente necessária. O aspecto que se discute aqui é o da militarização. Como informação nunca é demais, sugiro a leitura do artigo Jabuticaba Policial, do Túlio Vianna, altamente esclarecedor sobre o significado da desmilitarização: "Desmilitarizar não é desarmar a polícia, [...] é afastar o ranço autoritário da nossa polícia e democratizá-la, garantindo os direitos dos próprios policiais, que hoje lhes são negados pelo militarismo, e exigindo deles em contrapartida o respeito inexorável às leis e a todo e qualquer cidadão".
Outro aspecto importantíssimo é a reflexão sobre alguns elementos presentes nos dias de hoje que são resquícios da nossa ditadura militar, dentre eles a herança policial. Um bom exemplo que deixo é o relato do jornalista Marcelo Rubens Paiva no programa Metrópolis da TV Cultura (dos 7 aos 8 minutos), que associou a morte de seu pai à morte de Amarildo no Rio de Janeiro.
Todas essas leituras da sociedade são necessárias: as tensões e contradições estão cada vez mais insustentáveis, e temos ciência do que pode vir a ocorrer em breve.
Por que os rolezinhos estão causando tanto impacto nas mídias e redes sociais? Porque dividem o público e, sobretudo, revelam algumas das contradições sociais existentes.
Embora os rolês estejam ganhando visibilidade nos últimos dias, eles tiveram início em dezembro. Só para se ter uma ideia, no sábado, 14 de dezembro, houve um encontro num shopping da região de Guarulhos. Não foi registrada uma ocorrência sequer. Sem roubos, sem "arrastão", sem algo considerado ilícito. Mesmo assim, 23 jovens foram encaminhados à delegacia. Este já era um indicativo do que aguardava esses jovens nos rolês que se sucederam.
O estopim se deu no Shopping Itaquera no último final de semana. Houve repressão por parte da polícia que, por sinal, há tempos vem utilizando a "legitimidade do uso da força" em favor dos interesses das elites e colaborando demasiadamente para a discriminação social dos grupos que se encontram à margem da sociedade. Houve sensação de terror: lojas foram fechadas, pessoas correndo por todos os lados.
Após o tumulto, jornais se encarregaram de pautas e coberturas sobre os rolês. Enquanto isso, diversos shoppings foram atrás de liminares na justiça para impedir que os rolezinhos acontecessem dentro de seus estabelecimentos, como o JK Iguatemi. E foi aí que o problema começou. Ou melhor, uma nova faceta de um problema antigo surgiu.
Histórico
Fonte: Portal Ctb
Em fevereiro de 2012, aproximadamente 300 manifestantes da Marcha contra o Racismo realizaram uma manifestação partindo do Largo Santa Cecília em direção ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Lojas fecharam e seguranças tentaram impedir a entrada. Em novembro de 2013, o Shopping Parangaba, em Fortaleza (CE), foi o palco de repressão e humilhação de jovens negros. Em dezembro, o mesmo ocorreu em Vitória (ES). Os rolês em São Paulo representam uma variação. Mas, no fundo, estão querendo passar a mesma mensagem, que abordaremos adiante.
Está claro o preconceito
Muita gente procurou mostrar que, na verdade, o que existe é preconceito. Enquanto os rolês dos jovens das regiões periféricas, em sua maioria negros, estão no auge da repercussão midiática, cercados de comentários preconceituosos, pouco se ouve falar do famoso "rolê" dos estudantes/calouros da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) no shopping Eldorado que ocorre anualmente, e há pelo menos 7 anos. Assim como o rolezinho, os alunos, em sua maioria brancos, entram num grande grupo, gritando palavras de ordem e seguem cantando para comemorar o ingresso na universidade. Não há repressão e as lojas não são fechadas. Os clientes não temem por um arrastão. A ordem parece não ser perturbada. Se levarmos em conta as reações das pessoas em cada caso, está ou não está clara a existência do preconceito, inclusive por parte da mídia? Será que este ano o PIG (Partido da Imprensa Golpista) se lembrará de mostrar a festa dos "bixos" da USP?
Rolês e Rolos: como são vistos
Como nem só de comparações se criam argumentos, deixemos os calouros da USP pra lá. Para desenvolver minha análise sobre os rolezinhos, começarei publicando o comentário da jornalista Rachel Sheherazade, que considero uma das grandes manipuladoras da massa televisiva.
E o que o público que condena os rolezinhos diz de tudo isso? Bem, esta semana encontrei uma notícia da Folha de São Paulo no Facebook com a seguinte manchete: "Em apoio a jovens de São Paulo, cariocas marcam rolezinho em shopping no Leblon". Os comentários são taxativos: "Rolezinho na biblioteca esses vagabundos não querem fazer"; "Por que não fazem um rolezinho na cadeia?"; "Em apoio à PM de São Paulo, a PM do Rio vai descer o cassetete no pessoal do rolezinho. Com toda razão!"; "Trabalhar que é bom essa cambada de desocupado não quer né?". E assim por diante. Outros comentários que li ou ouvi algum entrevistado dizer: "maloqueiros", "vândalos", "bandidos".
Poucos sabem, contudo, que grande parte desses jovens já trabalham, muitos na informalidade, e que realizam atividades mal remuneradas. Quer dizer que todos que participam do rolezinho merecem cadeia, sem estarem fazendo nada que seja considerado um crime? Os shoppings só correm o risco de serem assaltados nessas ocasiões ou a memória está curta e há muita falta de informação? Porque um jovem se atreveu a fazer parte do rolezinho ele tem que apanhar da polícia e ser hostilizado? Tem algo errado aí. Os comentários revelam uma discriminação de "cara lavada" porque a maioria dos indivíduos acredita que esses jovens não sabem qual é o seu lugar e alguém tem que lhes mostrar.
Agora, vamos responder ao primeiro comentário. Por que não fazem o rolê na biblioteca? Ora, parece óbvio. Dou a resposta nas palavras de Juninho Jr, um dos organizadores do rolezinho: "A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com este sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupados pelo andar de cima, aí gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela opressão" (entrevista ao Brasil de Fato). Os jovens da periferia são obrigados a engolir o tempo todo o discurso do consumo e do status, e os shoppings acabam constituindo o local ideal de lazer.
Qual é a dos shoppings?
Os espaços públicos estão desaparecendo. As atividades consideradas culturais (teatros, cinemas, livrarias, jogos) têm sido absorvidas pelos shoppings centers. São locais privados, mas abertos a todos os indivíduos. Acontece que a ideia que se tem de um shopping normalmente é a de um templo, não religioso, mas onde consumir é praticamente um ritual, e dos mais fiéis. Sendo assim, shoppings reúnem amigos, familiares e desconhecidos no mundo do comércio. Se, por um lado, constituem um lugar onde algumas pessoas passam muitas horas de lazer e vivem boa parte de sua vida social, por outro, esses ambientes sustentam um meio artificial de cultura, porque possuem como finalidade a compra de bens e entretenimento - sem contar que também são locais que procuram adestrar o comportamento dos indivíduos.
De uma forma ou de outra, os jovens dos rolezinhos também querem ter acesso e usufruir dos bens materiais que funcionam como signos: são representações de poder, reconhecimento e status.
Questionaram o famoso direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, independente de raça, classe econômica e social, etc. Com as liminares que foram concedidas, questionou-se a discriminação por parte da própria justiça, uma justiça que atua em favor da manutenção da desigualdade, como se os shoppings fossem locais exclusivos de um grupo. Para o jornalista Rodrigo Vianna, "o 'rolezinho' demonstra o paradoxo da elite brasileira, que por um lado quer crescimento econômico, mas por outro quer manter os de pele marrom confinados na senzala".
Os defensores do rolezinho começaram a falar em apartheid racial e social e foram imediatamente taxados de burros, tamanha aberração falar em apartheid. A minha pergunta é: as fronteiras, visíveis e invisíveis, de uma cidade como São Paulo, são tão imperceptíveis assim? Se analisarmos a cidade, e não precisa ser especialista para isso, veremos que os bairros estão claramente divididos; podemos distinguir o que é periférico e o que não é, podemos distinguir os níveis econômicos sem grande esforço: sabemos muito bem quais são os bairros nobres, os da dita classe média, os de baixa renda. É inegável que existe uma segregação e que esta afeta as possibilidades de acesso a determinadas áreas e o usufruto de bens materiais e culturais.
Muitos chegaram a comentar que não era necessário ir em "bando" para o shopping; a ideia é mais ou menos assim: "todo mundo tem direito de ir ao shopping, mas ninguém vai com a galera toda da rua. Qualquer um pode ir com sua turminha de amigos, mas ir aos montes já é pra chamar a atenção e perturbar". Não tenho grandes experiências em shoppings, mas nas vezes que já frequentei pude notar cenas desanimadoras. Ok, bando não pode. Então o jovem decide ir com seus quatro amigos para o templo de consumo. E o que acontece? Vemos a expressão repugnante e o olhar taxativo de alguns frequentadores para o grupinho que foi lá pra se divertir e dar o seu rolê. Moral da história: normalmente, não importa se estão em três ou em cem: mesmo que nada ocorra, o olhar denuncia. E uma verdade que custa para ser admitida: uma grande parcela de negros e/ou pobres no shopping assusta a maioria das pessoas. E se o fenômeno se tornasse comum? Certamente a elite inventaria outro lugar para frequentar, e a patética classe média pegaria o mesmo bonde, pois procura se afastar das classes populares.
Muito seriamente, os rolezinhos evidenciaram a falta de opções de lazer para a maioria dos jovens pobres. O prefeito Haddad reconheceu que na cidade de São Paulo os espaços para se usufruir variam de região para região, e que na periférica são escassos. Se o reconhecimento foi feito, é necessário agora repensar a dinâmica do lazer na cidade. Não no sentido de oferecer opções para que os jovens não frequentem os shoppings, mas para que tenham possibilidades similares.
Jovens, consumo e shoppings
Como afirmei, os shoppings são considerados templos de consumo. Dão a falsa sensação de segurança que o espaço público não oferece. Como se não bastasse, vivemos constantemente com o discurso do consumo e da felicidade interligados para o sagrado fim: a realização pessoal. Ocorre nesse processo a reprodução e propagação de um estilo de vida consumista que forma a identidade e a individualidade de todos (sim, não só dos jovens). Na busca pela realização e segurança, o consumo ganha importância e funciona como um véu para cobrir necessidades e anseios.
O consumo também funciona como uma forma de distinção das classes sociais, e isso os rolezinhos deixaram bem claro. Para fechar este posicionamento, cito um trecho de um trabalho do sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes que dá o tom da questão:
"Os jovens são mergulhados em espaços estéticos gerados pela imagem televisiva e pela visibilidade anônima da vida urbana. A valorização de espaços de consumo de classe média, como os shopping centers, apontados como área de lazer de fim de semana, indica que, mesmo em desvantagem em relação aos grupos dominantes, há uma permanente tentativa de diferenciação do lugar de origem, do próprio grupo, prevalecendo a individualização. A tentativa de se adaptar à moda vestimentária ditada pelos canais de comunicação é um exemplo desse fenômeno. [...] Assim, o que consumimos é nossa marca visível e determina inclusive nosso lugar social. O consumo, que passa a ser vivenciado como mecanismo de inserção e de status, traz a ideia de acesso a um mundo social existente em nossa volta."¹
Os rolezinhos podem ser associados, em partes, ao que o documentário Hiato nos mostra. Em 2000, manifestantes ocuparam um shopping da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como os rolezinhos, este acontecimento também gerou uma repercussão muito grande na mídia. O que há de mais interessante em Hiato são as vozes dos que nunca são ouvidos. Também temos comentários de professores universitários que tentam elucidar o episódio e o que ele representou.
No fundo, Hiato e os rolezinhos perpassam por uma questão séria, que é a do direito de acessibilidade que parece ser dado a alguns e negado a outros, como se uns fossem mais cidadãos que outros. Hiato foi dirigido por Vladimir Seixas. Tempo de duração: 20 minutos.
Nota:
1 - Consumo e identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular no Distrito Federal.
Nos últimos dias, tivemos a sensação de que nunca se falou tanto do Estado mais pobre do Brasil: o Maranhão. E não foram notícias boas, como já sabemos. O presídio de Pedrinhas abalou as placas tectônicas da vida social maranhense e nos fez repensar a dinâmica da violência, que não se restringe somente ao presídio. A maioria das pessoas sempre acreditou que os problemas do presídio são dos detentos, dos guardas, da administração, do governo e o resto da sociedade nada tem a ver com isso. Os últimos acontecimentos mostraram o contrário: a violência das organizações criminosas perpassam os muros do presídio e atingem o cotidiano de forma brutal, além de penetrarem e tocarem no ponto fraco de um Estado cuja população é predominante jovem: o abandono, a exclusão, a falta de políticas públicas que contribuam para o desenvolvimento digno de jovens e crianças.
O Aliás, do Estadão, trouxe uma entrevista imperdível e necessária com Luis Antonio Pedrosa, advogado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB no Maranhão. Para ter acesso à entrevista, clique aqui.
Aqui no blog, deixo registrados os trechos que envolvem alguns dos pontos cruciais dessa onda de violência que se assolou no Maranhão, embora não seja recente.
"A verdade é que não há gestão política preocupada com o sistema prisional. Primeiro porque prisão não dá voto. Segundo porque ali estão os mais pobres. Terceiro porque há uma cultura que acha que os presos têm é que se matar dentro da cadeia, não é problema da sociedade. Mas hoje a sociedade está aterrorizada porque percebeu que essa violência pode fugir do controle."
"A perspectiva mais promissora na cabeça de um adolescente de periferia é integrar uma organização criminosa ou um grupo criminoso, porque pelo menos ali ele consegue impor o respeito que a sociedade não lhe dá. Isso é um fator que agravou sobremaneira a violência no Estado."
"A nossa [polícia] é um fracasso em termos de atuação tendo como referencial a dignidade das pessoas. O referencial é a pressuposição de que o cara é bandido. E, sendo um bandido, tem que ser tratado como tal."
A partir deste ano, o blog terá um espaço voltado exclusivamente para indicações de livros. A ideia não é disponibilizar resenhas profundas - são, mais uma vez, indicações. Os livros, que podem ou não ser da área sociológica, serão divulgados com a finalidade de despertar o interesse por temas relevantes.
A primeira indicação será de um livro que talvez tenha sido um dos mais inquietantes do ano de 2012, bem como as motivações que levaram à publicação da obra: Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.
Imagem: Outras Palavras
No calor dos protestos e manifestações que invadiram as ruas, as manchetes de jornais, programas televisivos e, claro, as redes sociais, vários artigos foram divulgados; pensadores foram contratados exclusivamente para dar uma resposta "satisfatória" à população, que se indagava a todo momento - num misto de confusão, rebeldia, inconformismo, revolta e indiferença também - "o que está acontecendo?". Naturalmente, todos nós tentamos compreender o que essas duas semanas de rebelião urbana representaram para o país e os possíveis desdobramentos.
Cidades Rebeldes, da Boitempo Editorial em parceria com a Carta Maior, é, sem sombra de dúvidas, a melhor produção sobre as jornadas de junho até o momento. Se quisermos uma reflexão mais profunda sobre os acontecimentos que atingiram proporções inimagináveis, esta é uma leitura obrigatória e, portanto, imprescindível.
O livro é resultado de uma coletânea de ensaios cujos autores são de alto renome no pensamento crítico em escala (inter)nacional. Além disso, a obra reúne charges e imagens que não foram veiculadas pelos grandes meios de comunicação, ou melhor, pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista).
No âmbito internacional, temos os ensaios de David Harvey, Mike Davis e Slavoj Zizek. Entre os autores brasileiros, temos Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Felipe Brito, João Peschanski, Jorge Luiz Souto Maior, Leonardo Sakamoto, Lincoln Secco, Mauro Luis Iasi, Pedro Rocha de Oliveira, Raquel Rolnik, Ruy Braga, Silvia Viana e Venício Lima, além das colaborações da Mídia NINJA e do Movimento Passe Livre de São Paulo.
Cidades Rebeldes apresenta os elementos que não apenas tornam as cidades mais complexas, contraditórias ou caóticas, mas como sentimos tais efeitos e de que forma se relacionam com as lutas e reivindicações. Um ponto interessante é que, ao contrário do que vimos ano passado, os ensaios não procuram atacar ferozmente ou idealizar as manifestações; eles abordam justamente o que está por trás desses atos.
Mencionarei alguns aspectos do livro que contribuem para uma análise que atinja as expectativas do leitor. Em primeiro lugar, está claro que as vozes que se fizeram ouvir nas ruas não formam um conjunto homogêneo; os interesses não eram os mesmos. Apesar da diversidade ideológica nítida, na pauta das manifestações estavam as mais diversas agendas mal (ou ainda não) resolvidas. Outras abordagens presentes:
- O transporte coletivo vinculado a um sistema completamente entregue à lógica da mercadoria.
- Repensar o sentido da cidade, uma vez que ela é o principal local onde se dá a reprodução da força de trabalho, representa a expressão das relações sociais e prioriza o transporte individual.
- Reformas: urbana, política e fundiária.
- O direito à cidade, que não pode ser concebido como um direito (ou poder?) individual. Acredito que esta seja a discussão mais marcante do livro. Vale a pena uma citação da Raquel Rolnik:
"Não se compra o direito à cidade em concessionárias de automóveis ou no Feirão da Caixa: o aumento de renda, que possibilita o crescimento do consumo, não "resolve" nem o problema da falta de urbanidade nem a precariedade dos serviços públicos de educação e saúde, muito menos a inexistência total de sistemas integrados eficientes e acessíveis de transporte ou a enorme fragmentação representada pela dualidade da nossa condição urbana (favela versus asfalto, legal versus ilegal, permanente versus provisório)".
- A repressão brutal que os movimentos sofreram, física e ideologicamente.
- A legitimidade das manifestações e uma das palavras mais utilizadas: vandalismo.
- Compreender melhor a bandeira do transporte público.
- Refletir a respeito de um movimento que começou Apartidário e se tornou ANTIpartidário.
- A crítica da expansão (ou não) dos direitos sociais e a discussão acerca da qualidade dos serviços públicos.
- Problematização da crise de representação política e os discursos dos grandes meios de comunicação que investem na desqualificação dos políticos e da própria política, através do discurso insistente da corrupção como principal responsável por tudo que acontece ou deixa de acontecer no Brasil.
Todas essas reflexões estão em apenas 110 páginas, incluindo o item "Sobre os autores". Mais um bom motivo para ter Cidades Rebeldes: a obra custa aproximadamente R$ 10,00.
Não tolero preconceito e palavras abusivas na tentativa de rebaixar vítimas. Guarde bem o rosto deste homem que aparece nesta publicação. Felizmente, ele é o EX-secretário (isso mesmo, com ênfase no "ex") de Defesa Social de Pernambuco. Wilson Damázio foi demitido por gerar muita polêmica e revolta a partir de declarações extremamente preconceituosas e ofensivas, mais especificamente: homofóbicas e machistas. Citarei os dois casos.
O problema teve início quando Damázio, em entrevista ao Jornal do Commercio de Recife, foi questionado sobre supostos estupros que jovens negras e pobres sofreram e que teriam sido cometidos por policiais militares. De acordo com O Globo, "a corregedoria de sua secretaria estava apurando o caso de dois policiais que teriam obrigado uma mulher a fazer sexo com eles, com a arma apontada na cabeça da vítima". Damázio falou sobre desvio de conduta que existe em todos os lugares, mesmo na polícia, afirmando ser uma linha tênue. Ao resolver insistir na ideia de desvio de conduta presente em todo lugar, disse que "tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu?".
Depois tentou consertar, muito embora não tenha conseguido: "Lógico que a homossexualidade não quer dizer bandidagem, mas foge ao padrão do comportamento da família brasileira tradicional".
Para piorar, além de considerar homossexualidade desvio de conduta, a confusão não parou aí. Sobre este assunto dos policiais envolvidos nas práticas de estupro, o ex-secretário culpou as mulheres por tais atos, declarando que as mesmas têm fetiche por homens fardados. Nas palavras de Damázio:
"Policial exerce um fascínio no sexo... no dito sexo frágil. Eu não sei por que mulher gosta tanto de farda. Todo policial militar mais antigo tem duas famílias, tem uma amante, duas. É um negócio. Quando chega lá, que coloca aquele colete, as meninas ficam tudo "sassaricadas". E às vezes com namorado, às vezes casadas. Dentro da viatura, então, o fetiche delas vai lá em cima".
Precisa dizer mais alguma coisa? Sim!
Primeiramente, ainda não entendo por qual razão o governo pernambucano não exonerou com prontidão Wilson Damázio. É imperdoável e teria representado as desculpas do governo de Eduardo Campos com a sociedade pernambucana (e com a brasileira também).
A função do secretário de defesa social é defender e zelar a integridade física e moral da população, inclusive das mulheres e sobretudo num Estado com forte histórico de violência doméstica. Ao fazer tais declarações, ele corrobora com uma ideia que está em curso no Brasil, que é a de culpabilizar a vítima pelo que lhe ocorreu. Ou seja, se nós, mulheres, usarmos roupas curtas, decotadas ou sensuais estamos pedindo para sermos estupradas, a culpa é nossa e não do agressor. Precisamos, com certa urgência, romper com este pensamento que tem se fortalecido e pode ser uma nova faceta cultural ligada à violência no Brasil.
Vale dizer que, ao entregar o cargo na última quinta-feira, dia 19, Damázio teve a ousadia (ou cara de pau?) de afirmar que foi mal interpretado, que aquelas palavras constrangedoras não condizem e não refletem seu pensamento, nem da SDS, nem do governo Eduardo Campos. Tudo bem, podem não ser condizentes com os valores da SDS e do governo, mas dizer que interpretamos mal é inaceitável. Ou as frases estão ambíguas com várias possibilidades de interpretação?
É importante não esquecermos de que, com as declarações de Damázio (sobre policial ter duas famílias e amantes) e as denúncias de abusos registradas, a imagem da corporação militar ficou muito comprometida. É necessário verificar todos os casos e levá-los até o fim, e a polícia também deve um pedido de desculpas a essas mulheres, inclusive para limpar sua imagem. Até porque já sabemos que a ouvidoria militar pernambucana não prosseguiu com as investigações.
Em tempo: agora o novo secretário de Defesa Social é Alessandro Carvalho Mattos, de acordo com o Diário de Pernambuco.
Hoje o caderno Aliás, do Estadão, trouxe uma entrevista digna de ser lida, comentada e, sobretudo, divulgada.
No domingo anterior, dia 08, não se falou em outra coisa a não ser o confronto entre os torcedores do Vasco, que corria risco de rebaixamento, e Atlético Paranaense na Arena Joinville. O que presenciamos? Selvageria. Barbárie. Terror. Violência extrema. Parecia cenário de guerra. Há um bom tempo não víamos uma briga de torcidas como esta, a desordem civil por excelência.
Este confronto foi assunto de todos os programas esportivos e rodas de amigos e familiares. As imagens rodaram o mundo. O pai que tentava evitar que torcedores completamente descontrolados e enfurecidos se aproximassem do filho; o homem desacordado que continuou sofrendo agressões; os que tiveram camisas rasgadas; os que foram nocauteados. Para ver mais imagens do confronto, clique aqui.
Todas as imagens são do extra.globo
O sociólogo Mauricio Murad, especialista em violência no futebol, tocou em pontos imprescindíveis, como a segurança escalada para o jogo, a repercussão do país que sediará a Copa do Mundo em 2014, a existência de torcidas organizadas, as punições e impunidades. Resumindo, comentários que dificilmente são alimentados e discutidos nos canais esportivos que promovem a reflexão vulgar e a mera reprodução do senso comum.
Vale muito a pena! Para ler a entrevista, clique aqui.
Nos últimos dias, uma nova onda de fascismo inundou as redes sociais e promoveu discussões calorosas. Citarei apenas dois casos. Primeiro, o motociclista que filmou a tentativa de roubo da sua moto porque tinha uma câmera instalada no capacete e naquele momento um policial que voltava para casa atirou no assaltante. A notícia pode ser (re)vista clicando aqui. Sugiro também a leitura de alguns comentários. O segundo caso é referente ao assassinato do garoto Douglas, de 17 anos, neste último domingo, 27 de outubro, por um policial. O desdobramento pode ser conferido no site do Terra. Mais uma vez, não nos esqueçamos de ler os comentários.
Junte-se a esses fatos as notícias diárias sobre grupos distintos que vão às ruas e a insurreição dos Black Blocs, numa mescla de vandalismo e o grito de "Chega! Quantos ainda terão que morrer?".
Como explicar tudo? É possível? São relações e tensões com um alto grau de complexidade e nós, que vivemos no que eu chamo de "efeito matrix", não seremos capazes de compreender os eventos em sua totalidade, inclusive por estarem vinculados diretamente com a nossa realidade. Sim, temos muito a ver com tudo que se passa e diz respeito ao que estamos construindo dia após dia: nossos pensamentos, discursos, ações.
O que mais tem chamado minha atenção nesses acontecimentos é a presença do ódio se intensificando constantemente. As pessoas estão sentindo ódio o tempo todo. São discursos claramente fascistas que estão ganhando corpo nesta sociedade em que se tem a impressão de que o caos permanente já foi anunciado. Não importa o que aconteça, os "justiceiros" estão prontos para proclamarem a sentença: bandido bom é bandido morto. E o papel da polícia é exatamente este: eliminar as ameaças porque podemos cruzar com elas a qualquer momento. E o papel de cada cidadão, da política, das instituições, todas formadas por "indivíduos de bem"? Será que não temos mesmo nenhuma responsabilidade nessa história? É desta forma que não apenas se cria, mas se legitima o autoritarismo e o poder de poucos e a eles transferimos nossa confiança esperando que façam um bom trabalho. E todos sabem qual é o trabalho que deve ser feito.
Pois bem. Vejamos a natureza fascista desta mentalidade. A violência da polícia é legítima. A violência pela suposta "legítima defesa" é válida e confere ao indivíduo o direito de se defender como bem quiser ou achar conveniente. Como bandido bom é bandido morto, todo bandido deve, preferencialmente, perder a vida porque, afinal, estamos falando da realização de objetivos e interesses específicos.
Lamentavelmente, o assaltante que tentou roubar a moto no primeiro caso não morreu. Veja bem: as pessoas não se conformaram com o fato de o criminoso ter sobrevivido.
No caso do garoto Douglas, li várias declarações no Facebook de pessoas indignadas por ter ocorrido uma manifestação após a morte do estudante. Os indivíduos se sentiram incomodados porque a rodovia Fernão Dias foi bloqueada pelos manifestantes. Não se sabe se os agentes que incendiaram veículos neste protesto estavam ali, de fato, pela morte de Douglas. É certo que não se tratava de black blocs. O que havia explicitamente era indignação, revolta e, ao mesmo tempo, medo. Era a explosão da periferia alimentada por sofrimento, falta de esperança e sede de vingança. Se, por um lado, as atitudes radicais de violência não são justificadas, por outro, o sentimento de quem estava lá é perfeitamente compreensível. E, no entanto, o que ficou deste protesto que evidenciou as contradições sociais? O sentimento de ódio por manifestação "em nome de bandido". Douglas era mesmo bandido? O jovem entrou na pior estatística. Segundo a Fundação Abrinq, em 2010, mais de 8600 crianças e adolescentes brasileiros foram assassinados. Quantos já se foram este ano?
Novamente, considera-se a violência da polícia legítima. Uma pergunta: o atentado à vida ao qual o jovem Douglas foi submetido covardemente é válido? E a desculpa é sempre a mesma: o disparo no peito foi acidental. Quais são as reais possibilidades de um tiro acidental atingir exatamente o peito? Quanta hipocrisia. Douglas não perdeu somente a vida. Pois foram-lhe arrancadas todas as possibilidades de ter uma vida melhor, de "ser alguém", de "crescer e aparecer". Assim como provavelmente o jovem não teve grandes oportunidades enquanto estava vivo, ele simplesmente foi destinado a não ter mais nenhuma. E este destino não foi resultado de suas escolhas e condições, mas da onda de fascismo que está assolando cada vez mais os indivíduos. Ele podia ser mais.
Excelente artigo do sociólogo José de Souza Martins publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo.
Foco do artigo: as investigações do Ministério Público sobre o crime organizado.
Para ler, clique aqui.
O pedreiro Amarildo de Souza "desapareceu" no dia 14 de julho e foi visto pela última vez sendo levado por agentes da Unidade Pacificadora de Polícia da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro. Desde o seu sumiço, tanto no Rio quanto em outras cidades, vários manifestantes foram às ruas exigindo explicações e respostas plausíveis das autoridades. Depois de quase três meses, o inquérito da polícia civil apontou que os policiais levaram Amarildo a fim de obter informações a respeito de traficantes e localização de armas.
Amarildo teria sido torturado
pelos policiais na Rocinha
Ele teria sido submetido a práticas de tortura - choques elétricos e asfixia - e não teria resistido. Os policiais envolvidos, obviamente, negam e alegam que liberaram o pedreiro no mesmo dia. Eles foram indiciados pelos crimes de tortura seguida de morte e ocultação de cadáver (o corpo de Amarildo ainda não foi encontrado).
Embora o resultado da investigação não deve ser considerado inesperado, o caso de Amarildo é intrigante e emblemático. Por que tanta visibilidade? Afinal, ele não seria apenas mais um entre os milhares que estão desaparecidos? Pois, de acordo com dados da OAB do Rio, entre os anos de 2001 e 2011 seriam mais de dez mil "Amarildos". Uma possível hipótese que justifique a proporção que o caso ganhou se encontra nas manifestações que tomaram conta do país; o desaparecimento entrou na pauta dos que permaneceram nas ruas.
Um aspecto que também não pode ser ignorado é o funcionamento das UPPs. Como elas devem atuar? Em que contexto se inserem? A quem servem? Não há dúvidas de que elas representam uma forma de intervenção do Estado. Portanto, uma mudança na conjuntura política no que diz respeito à segurança pública do Rio de Janeiro. Na teoria, a ideia de uma UPP é estabelecer "paz e tranquilidade" onde ela é instalada, mas de que forma? Como combater e reprimir o crime? Exercendo e alimentando a tortura, é isso?
Este é o segundo aspecto relevante: abrir a caixa-preta da polícia. No caso em questão, os métodos utilizados pelos policiais em Amarildo não são mera reprodução de métodos do crime? É paradoxal: para tentar reduzir a criminalidade, a polícia faz uso de práticas criminosas que, além de significarem total violação de direitos humanos, demonstra autoritarismo, incoerência e um resultado que está longe de ser satisfatório e esclarecedor. É necessário exigir transparência nas questões relacionadas à atuação da polícia e das UPPs. Nesse sentido, a repercussão do caso Amarildo foi de suma importância. E vale a pena insistir: onde estão os outros "Amarildos", aqueles que tiveram sua cidadania negada em nome da coerção e repressão estatal?
Socióloga que adora escrever para criar um ritual em que o homem é a própria magia. Prioriza os debates, as reflexões e as intermitências do cotidiano.