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  1. Quando cursei o Ensino Fundamental e o Ensino Médio pouco ou quase nada se falou sobre a África. Apesar de terem ocorrido mudanças nas matrizes curriculares, como a tentativa de incluir aspectos históricos, sociais, econômicos, políticos e culturais do continente africano, ainda existe uma certa resistência e preconceito por parte de escolas e professores em fazer uma abordagem mais profunda. Muitas vezes, inclusive, pela falta de preparo. Entretanto, os vestibulares mais disputados do estado de São Paulo estão apostando na literatura africana e, consequentemente, estimulando as reflexões. É o caso da Unicamp, que colocou em sua lista de livros Terra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto, e da Fuvest que inseriu Mayombe, do angolano Pepetela. 
    Nesta publicação, analisaremos Mayombe. Comprei muito despretensiosamente o livro e afirmo com convicção que foi um dos melhores que li este ano. Não havia tido contato com a literatura africana até então, e justamente por isso posso dizer que comecei muito bem, foi um tiro certeiro!

    Aspecto histórico
    Fonte: Reticência Jornalística
    Pepetela é o nome de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que passou muitos anos de sua vida dedicando-se à luta pela independência de Angola. Foram treze anos de guerra sangrenta para livrar-se do domínio de Portugal, que só veio a ocorrer em 1975. Pepetela filiou-se ao Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA, uma organização totalmente anticolonialista e com tendência marxista. O objetivo do MPLA não era apenas o de libertar Angola, mas também promover uma revolução socialista no país - importante ressaltar que tanto a elaboração da obra quanto a independência de Angola tiveram como cenário a Guerra Fria com sua ordem bipolar. Mayombe foi escrito em 1970, durante o período de guerrilha do MPLA, e publicado em 1980, quando o movimento assumiu o governo do país. O título é uma referência à floresta tropical angolana, localizada na província de Cabinda.
    Embora a história comece com um grupo de combatentes numa operação de guerra, o enredo do livro não está focado no conflito armado, e sim na vida dos guerrilheiros do MPLA, evidenciando suas origens, convicções, fraquezas e dramas pessoais. Todos os nomes dos personagens que aparecem em Mayombe (bem sugestivos, por sinal) são, na verdade, nomes de guerra escolhidos pelos membros do movimento e que representam a condição de cada combatente, como Sem Medo, Teoria, Lutamos, Verdade, Milagre, Mundo Novo, Ingratidão e, claro, Pepetela.
    Um dos aspectos mais interessantes da obra é a associação das questões individuais de cada personagem às questões históricas de Angola. A famosa "Partilha da África" foi um episódio horroroso da nossa História, cuja finalidade era disciplinar a repartição amigável do continente africano e evitar uma guerra entre as potências imperialistas no final do século XIX. Apesar de toda a resistência africana, da intervenção militar e territorial e dos conflitos marcados fortemente pela violência desmedida, a divisão das fronteiras do continente estabelecidas pelos países desenvolvidos ignoraram as diferenças étnicas e culturais entre os povos nativos. Pepetela destaca essas diferenças e as rivalidades tribais dentro do MPLA, que é um grupo muito heterogêneo, o que nos faz concluir que além de combater os portugueses, o MPLA também precisava derrubar as fronteiras tribais em nome da unidade nacional. E qual foi o resultado? Logo após o processo de descolonização, quando Angola tornou-se independente, grupos de luta armada se envolveram numa longa guerra civil que durou, com algumas tréguas, até 2002 e que acarretou na morte de 500 mil pessoas. Ou seja, uma vez que o inimigo comum e externo foi eliminado, o conflito tornou-se puramente interno e étnico, tornando-se mais um capítulo trágico da história da África.

    A construção dos personagens
    O processo de humanização dos personagens que Pepetela constrói ao longo da obra é notável! Falo em humanização por conta do modo como a complexidade de cada personagem é explorada, como as personalidades vão se revelando e, sobretudo, porque o autor não apresenta os combatentes como "heróis do povo"; são indivíduos que carregam conflitos subjetivos específicos e fardos existenciais. Como dito anteriormente, os guerrilheiros do MPLA constituem um grupo bem diverso, formado tanto por camponeses quanto por letrados na Europa com as mais diversas correntes de pensamento da esquerda. Convém destacar a língua portuguesa como elemento de unificação do grupo, tendo em vista as origens distintas de cada um.
    Elenquei os personagens mais marcantes, aqueles que merecem um olhar bem atento e cuidadoso:
    Teoria é um combatente que, como o próprio nome diz, é o professor da turma. Sente-se inferior a todo momento por ser mestiço. O peso que carrega pela cor da pele está ligado à autoaceitação, uma vez que seus próprios amigos não dão importância para este fato. A forma como se apresenta não deixa dúvidas: "Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta".
    Sem Medo é, a meu ver, o personagem mais apaixonante do livro e que deve ter exigido muito estudo para a sua construção. Um comandante extremamente ético, líder, inspirador e pé no chão. Sua visão política não é a de um revolucionário ingênuo. Tem consciência dos percalços para a consolidação da independência e da revolução socialista e as dúvidas acerca desta concretização não o impedem de lutar mesmo sabendo que, caso a revolução ocorra em sua totalidade, não estará vivo para presenciá-la. É uma espécie de pai para o Comissário, que está em processo de amadurecimento afetivo e sofre com esta metamorfose. A frase que considero mais profunda na obra é dita por Sem Medo: "Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir nossos desejos. É o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou do tempo em que temíamos a Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las conosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus".
    Ondina, por sua vez, é a única personagem mulher em Mayombe. É instruída, livre afetiva e sexualmente e não ignora seus desejos. Daí resultam seus problemas com o Comissário, com o MPLA e seus envolvimentos com outros personagens. Ondina é autêntica e representa a liberdade feminina, sem idealizações.
    Em certa medida, a própria floresta Mayombe é personificada e vista como mãe dos combatentes. Reflete o que eles vivem e se apresenta como um espaço de luta e solidão, mas que acolhe a todos. Ela é um elemento importante no enredo, que ganha vida própria e se torna protagonista. Pepetela idealiza o Mayombe como a grande referência e símbolo de Angola e seu povo. Talvez seja por isso que são os elementos naturais que marcam a ação e a passagem do tempo, e não o tic-tac mecânico.

    Concluindo
    Mayombe é um romance político, uma história de guerra que mescla acontecimentos e personagens reais com elementos ficcionais. Com uma estrutura narrativa em terceira pessoa e relatos em primeira pessoa, esta obra de influência marxista e socialista (porém longe de ser uma cartilha de doutrinação) envolve a luta pela independência de Angola e a pluralidade de ideias sobre a vida com grande profundidade filosófica. O mérito de Pepetela é que, através de uma escrita poética maravilhosa, ele parte de um contexto histórico local e atinge questões universais, independentemente das épocas e das culturas, explorando as consciências individuais e coletivas simultaneamente.

  2. Stoner: simplicidade, sensibilidade e impassibilidade

    terça-feira, 19 de julho de 2016

    Recentemente, o canal Ler Antes de Morrer (que eu super recomendo) fez um sorteio de kits de livros e fui uma das ganhadoras. Confesso que não via a hora que os meus livros chegassem para começar a leitura de Stoner, de John Williams. Já tinha lido muitos comentários sobre a profundidade da obra, e eu precisava saber o que Stoner tinha de especial.
    Fonte: Martins Fontes Paulista

    ** Atenção: contém spoiler **
    O livro foi publicado pela primeira vez em 1965 sem grande sucesso. Foi editado novamente em 2003 e se tornou um fenômeno literário nos Estados Unidos. Dez anos depois, Stoner já era um livro consagrado na Europa.
    Um aspecto muito interessante da obra é que logo no primeiro parágrafo quase toda a vida de William Stoner nos é revelada, da entrada na universidade até o seu leito de morte. Filho único de fazendeiros humildes de um pequeno povoado rural no Missouri, Stoner passa a infância e a adolescência ajudando os pais nas atividades campestres até o momento em que eles decidem mandar o filho para a faculdade de Ciências Agrárias a fim de melhorar as condições de vida da família. Na universidade, porém, Stoner descobre sua paixão pela literatura, troca de curso, conclui seus estudos como doutor em Literatura Medieval e passa a trabalhar como professor assistente, exercendo este único cargo até os seus últimos dias.
    A história de Stoner se passa entre as décadas de 1910 e 1950 e sua vida é ligada por três grandes eventos históricos: a Primeira Guerra Mundial, na qual perde um de seus únicos amigos; a Crise de 1929, que leva o pai de Edith, sua esposa, a cometer suicídio; e a Segunda Guerra Mundial, que abala psicologicamente Stoner e proporciona o sentimento agonizante de desperdício, de mortes em vão - a grande estupidez da humanidade.

    A obra e minha análise
    É difícil explicar por que o livro tem sido muito aclamado. Stoner não é uma obra épica, cheia de grandes acontecimentos. Durante toda a leitura, procurei aquele "algo especial" que falei no começo da publicação e não encontrei. Até a última frase esperei por alguma reviravolta, algo grandioso, e simplesmente nada acontece. Penso que a magia de John Williams foi esta: o autor não enfeitou seu protagonista e sua história de vida. Entretanto, não se nega a qualidade, a elegância e a sensibilidade da escrita. Este é, de longe, o maior mérito de Williams, pois quem lê Stoner logo é capaz de notar a realidade complexa a qual somos inseridos, um contexto denso descrito com simplicidade.
    A impassibilidade e o silêncio de Stoner são muito frustrantes. Ele tem consciência de sua insatisfação e de tudo o que lhe ocorre e, ainda assim, nada faz para mudar. É triste e, até certo ponto, revoltante ler os desdobramentos de seu casamento com Edith condenado ao fracasso. Edith é uma mulher desprezível, que destrói o "coração" de Stoner - seu escritório - e os laços que ele tinha com a filha quando pequena. Ela o ataca de todas as formas possíveis e a inércia de Stoner chega a ser irritante. Entretanto, a obra não deixa claro qual é o elemento trágico de Edith; ao leitor é óbvio que há algum acontecimento marcante em sua vida que faz com que ela aja de modo horrível, mas não se sabe exatamente o que é. E é justamente isso que me deixou intrigada quanto ao final, em que conseguimos perceber a pequena sintonia que o casal encontra nos últimos momentos de vida Stoner.
    Aos poucos nos damos conta de como a relação com Grace, sua filha, vai se tornando cada vez mais distante, mas este afastamento parece intencional por parte de Grace, já amadurecida. Ela mesma procura se desvincular do pesado ambiente familiar. E como faz isso? Engravidando de um colega qualquer da faculdade, casando-se e, tal como os pais, condenando-se a uma relação fracassada e infeliz. A insensatez de Grace, no entanto, é inútil: o marido morre em conflito durante a Segunda Guerra, ela distancia-se do próprio filho e se torna alcoólatra.
    O que dizer dos conflitos profissionais que encontramos neste livro? O professor Lomax se utiliza de todos os meios possíveis para destruir a carreira de Stoner por ter reprovado Charles Walker, um estudante nitidamente incompetente e fantoche de Lomax. John Williams não nos revela os motivos da postura inflexível e da incessante proteção de Lomax para com seu aluno.
    E claro que não podemos deixar de mencionar a peça mais fundamental do romance e da vida de Stoner: Katherine Driscoll, a jovem professora que entra sutilmente na história e acaba tomando conta de alguns capítulos. Stoner "rejeitara o amor como o paraíso de uma religião falsa". Na relação extraconjugal com Katherine, descobre-o como uma "parte do devir humano, uma condição inventada e modificada momento a momento e dia após dia, pela vontade, pela inteligência e pelo coração". É um envolvimento apaixonante: a sincronia sexual, emocional e intelectual dos dois é perfeita, encontram-se um no outro e realmente é o momento de maior felicidade da vida de Stoner. Sentem-se plenos e transbordam. Contudo, não podemos nos esquecer da passividade do protagonista, que tem a chance de ser feliz com Katherine, mas ambos se recusam a ultrapassar os limites estabelecidos pelo amor clandestino.
    Confesso que a leitura de Stoner é muito cativante e a escrita sensível faz toda a diferença. Porém, pelos comentários que tinha lido sobre o livro eu realmente esperava algo mais tocante. Quando terminei a leitura, pensei: "Acabou? Não vai acontecer mais nada?", talvez porque o meu desejo de querer ver Stoner lutando contra as forças que o destruíram fosse maior que tudo. No entanto, o modo como John Williams narra a morte de Stoner é realmente memorável.
    Stoner traz algumas questões fundamentais: primeiramente, nenhum personagem é, de fato, feliz. Essa fuga de um padrão de felicidade me atraiu bastante. Depois, há o aspecto mais filosófico: Stoner foi um homem que viveu na mais completa indiferença, sempre "mais ou menos". Até que ponto vale a pena viver "mais ou menos", resignado, sempre sendo empurrado pela força da correnteza? Que sentido atribuímos à vida? O que o amor, ou a falta dele, pode fazer conosco?

  3. A geração de leituras fragmentadas

    terça-feira, 21 de junho de 2016

    Recentemente, a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, uma iniciativa do Instituto Pró-Livro, divulgou alguns dados sobre os leitores brasileiros. Eles somam 56% da população e leem em média 4,96 livros por ano. Quantas pessoas você conhece que possuem uma paixão enorme pela leitura? Quando falamos de paixão, precisamos levar em conta a subjetividade de cada um. Muitos preferem utilizar o tempo vago empenhando-se em outras atividades que lhe dão prazer e não podemos lutar contra este fato, porém também não se pode negar que os índices da pesquisa são de causar entristecimento se considerarmos o poder enriquecedor de visão de mundo, de conhecimento, de articulação escrita e oral que os livros proporcionam a qualquer leitor disposto a mergulhar nesse universo de múltiplas possibilidades.
    Entretanto, a minha publicação possui um objetivo mais específico: o de questionar o quanto estamos lendo. Pode ser mais do que esperamos se excluirmos os livros e quero deixar claro que absolutamente nada os substitui, mas vale a pena refletirmos um pouco.
    Tal ideia me ocorreu após ler um artigo no qual o autor relata sua dificuldade e desespero por não conseguir mais ler livros, embora sempre tenha sido um leitor assíduo. Ele argumenta que o uso excessivo da internet tem provocado algumas mudanças, dentre elas o rápido cansaço ao pegar um livro e iniciar sua leitura. O mesmo acontece com os livros digitais, prova de que se há um problema, este é mais sério do que estava supondo. A grande questão – eu diria o xeque-mate de toda a história – é a afirmação do autor de que, na verdade, nunca leu tanto como agora. Foi a brecha para eu começar a escrever este texto: o poder normativo da leitura em fragmentos, em doses homeopáticas, está impedindo muita gente de ler livros e grandes artigos, tira a capacidade de concentração rapidamente e gerou um vício em boa parte da população.
    Sai o livro, entra a leitura fragmentada.
    Fonte: ShutterStock.
    O dinamismo virtual nos tornou mais factuais e esta é uma mudança que requer atenção. Por exemplo, no Facebook é comum vermos imagens que trazem alguma frase e posts curtos, o que significa que existe contato com a leitura, porém fragmentada, até visualizarmos outra publicação e repetirmos o processo. Textos como este nem pensar. Esses dias cheguei a ver a publicação de um amigo que não ultrapassava 10 linhas e um comentário: “preguiça de ler tudo isso”. Como é que um livro, nessas circunstâncias, pode ser capaz de prender alguém por muito tempo, e como este alguém pode ser capaz de se envolver com a trama, com os personagens e esperar pacientemente pelo desfecho da história? Difícil, pois parece enrolação. Ou às vezes apenas uma parte específica nos interessa e não temos paciência para o conjunto todo.
    Nós nos tornamos tão factuais e ansiosos que até aquela música que nos dá prazer é afetada por um comportamento pontual. Li um artigo cuja autora menciona um estudo que diz que 25% das músicas do Spotify recebem aquela “skipada”, isto é, são puladas após 5 segundos e que metade dos usuários avança a música antes do seu final. Agora eu pergunto: se não conseguimos ser pacientes nos momentos em que estamos focados naquilo que gostamos de ouvir durante o tempo livre, o que dizer do resto? Já não nos aprofundamos nem naquilo que era para ser fonte de prazer.
    Este é um problema de ordem social e generalizado. É como se nosso cérebro se viciasse na carga pesada de informações e precisasse ser constantemente alimentado por elas. Voltando ao começo, enquanto os livros são dotados de especificidades (enredo fixo, personagens, estilo narrativo), a internet parece mais um parque de diversões com a quantidade imensa de estímulos sonoros e visuais. É bom lembrar que ela é o nosso reflexo, seja bonito ou não de se ver. Talvez o momento seja de mudança e recondicionamento de hábitos. Será que conseguimos?

  4. A máquina do tempo e a essência da humanidade

    terça-feira, 26 de abril de 2016

    A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, é a obra que dá início aos demais livros com o tema "viagem no tempo". Wells é fruto da mentalidade do século XIX (o livro foi publicado em 1895): a industrialização que produziu avanços técnicos e científicos e que afirmou o domínio do homem sobre o espaço e a natureza.
    Inicialmente, a narrativa é feita por um personagem secundário e que sequer sabemos seu nome. A história começa em meio a um jantar na casa do protagonista, um cientista intitulado apenas como Viajante do Tempo, e com uma discussão matemática entre os convidados - o tempo como uma quarta dimensão. O Viajante é descrito como "um desses indivíduos que são inteligentes demais para poderem contar com nossa credulidade". Disposto a provar sua teoria, ele tem a ideia de construir uma máquina para viajar no tempo e faz um teste com um protótipo diante de todos. Já em outro jantar, algo inusitado acontece: os homens que aguardavam o Viajante para o banquete se surpreendem ao vê-lo em farrapos e machucado. Nosso protagonista decide contar a experiência incrível que viveu utilizando sua Máquina do Tempo. Daí em diante ele assume a narrativa do livro para nos apresentar tudo o que viu.
    Fonte: Submarino
    O ano é de 802.701 e o mundo parece estar abandonado, com claros sinais de decadência. Não existem governos ou instituições. O Viajante questiona o que teria acontecido aos homens daquele tempo, até se deparar com seres que possuem características humanas. São os Elóis, criaturas de aparência muito bonita, porém frágeis, pequenas e emocionalmente deficientes. O Viajante nota que eles não trabalham, gostam de brincadeiras e de agrados, são rigidamente vegetarianos (não há sinais de animais) e são desprovidos de qualquer preocupação, a não ser a escuridão.
    Ao se dar conta do sumiço da Máquina do Tempo, o cientista resolve procurá-la desesperadamente e tenta se acostumar com a ideia de adaptação à nova realidade. Nesta busca, ele descobre um outro grupo de herdeiros da espécie humana, uma espécie que tinha vida subterrânea contrapondo-se aos seres do "mundo superior". São os Morlocks, de pele muito branca e olhos avermelhados. O Viajante, convicto de que sua invenção está com os Morlocks, resolve adentrar no universo sombrio dessas criaturas e se depara com dois fatos: tudo o que ainda é produzido no mundo está a encargo dos Morlocks. O segundo é que estes saem do subsolo durante a noite para capturar Elóis, servidos de alimento. Eis a explicação para o enorme medo da escuridão que os habitantes da superfície possuem. Mais que isso: o Viajante percebe rapidamente que pode ser presa dos Morlocks. A história do Viajante é de como conseguiu lidar com tantas adversidades e de como conseguiu regressar à sua casa para poder contar esta aventura aos seus convidados.
    A proposta de Wells nesta obra é mostrar sua visão de futuro nada muito otimista. É a ideia do capitalismo levado até às últimas consequências. Por ser um livro pequeno, não prosseguirei com os acontecimentos da narrativa, mas apresentarei algumas informações e o turbilhão de ideias contidas em tão poucas páginas para que possamos compreender a riqueza desta produção.
    Primeiramente, A Máquina do Tempo não é um livro rico em detalhes e as descrições estão em boa medida. Justamente por isso, deixa aberta a lacuna da criação do poderoso invento capaz de se deslocar para o futuro ou para o passado. Wells não se  preocupou em argumentar cientificamente o funcionamento da máquina e chegou a ser criticado por Julio Verne, autor de clássicos como Vinte mil léguas submarinas e A volta ao mundo em 80 dias.
    Umas das primeiras reflexões apresentadas no futuro imaginado por Wells é o declínio da humanidade como uma consequência de todos os esforços empreendidos pelo homem, tendo como eixo o problema da segurança - uma ambição completamente presente tanto no século XIX (quando a obra foi escrita) quanto nos dias de hoje. Na visão do autor, o processo civilizatório, que tornaria a vida mais segura, conduziria ao enfraquecimento humano. Ao mesmo tempo, Wells nos proporciona um cenário no qual parece haver um equilíbrio natural da vida animal e vegetal, justificando a ausência da força física e da violência.
    Não é à toa que a espécie humana encontra-se dividida entre Elóis e Morlocks. A influência marxista que fervilhava no século XIX de uma sociedade dividida em burgueses e proletários é refletida na obra. Uma observação é que na época de H. G. Wells existiam muitas fábricas subterrâneas em Londres, reforçando a semelhança entre a classe operária e os Morlocks. O mais interessante, contudo, é que os Elóis e Morlocks naturalizaram suas condutas e estilos de vida. Nesse sentido, não há "luta classes". Os Elóis, considerados superiores, não exploram os Morlocks e estes não têm a menor pretensão de se revoltarem contra os primeiros. É como se ambos não conhecessem outra forma de viver, porque "sempre foi assim". 
    Outra similaridade que pode ser encontrada reside no fato dos Morlocks não terem o desejo de "crescer na vida". Muitos trabalhadores, como sabemos, exercem o labor apenas para suprirem suas necessidades e pagarem as contas. O modo como os Elóis se portam pode ser comparado às classes mais favorecidas economicamente, que não olham para as camadas inferiores da sociedade, porém se intimidam com atos que podem abalar ou desequilibrar o padrão de vida dos abastados. Como percebemos, resumir Elóis e Morlocks à teoria marxista soa bem simplista. 
    A ideia mais marcante, na minha opinião, é a do suicídio do intelecto no futuro. Os Elóis cientes de seu poder e conforto, os Morlocks com a certeza de suas condições de vida: a sociedade perfeita. E Wells conseguiu exprimir seu pensamento de uma forma tocante: "É uma lei da natureza, de que tantas vezes descuidamos: que a versatilidade intelectual é a nossa compensação por enfrentar as mudanças, os perigos, os problemas. Um animal em perfeita harmonia com seu ambiente é um mecanismo perfeito. A natureza nunca apela para a inteligência senão quando o hábito e o instinto são incapazes de resolver um problema. Não existe inteligência onde não existe mudança. Os únicos animais que demonstram inteligência são aqueles que tiveram de enfrentar uma grande variedade de necessidades e perigos".
    Wells afirmou, quatro décadas mais tarde, o quanto achou tosca a divisão entre Elóis e Morlocks em sua primeira obra. Talvez não tivesse se dado conta da quantidade de elementos e analogias que muitos fariam posteriormente. Recomendo este clássico da literatura mundial pelas questões que são abordadas, mas para os que gostam de leituras mais densas e aprofundadas, A Máquina do Tempo pode deixar a desejar.


  5. Eu sou o mensageiro

    terça-feira, 6 de janeiro de 2015

    Fonte: Submarino
    Eu sou o mensageiro foi o primeiro livro que li este ano e recomendo àqueles que procuram uma leitura leve com uma linguagem mais informal.
    Este livro é de Markus Zusak, cuja obra mais famosa é o best-seller A menina que roubava livros. Não é possível comparar as duas produções; são histórias completamente diferentes e, para quem já leu A menina que roubava livros, Eu sou o mensageiro pode parecer um tanto estranho porque o texto está estruturado de forma coloquial, com diálogos rápidos, sucintos e não muito detalhados.
    O livro é narrado em primeira pessoa, pelo próprio protagonista da trama: Ed Kennedy, 19 anos, taxista (para conseguir o emprego, teve que mentir a idade), jogador de cartas (Porre) com seus três melhores amigos (Ritchie, Marv e Audrey), um fiasco no amor e sua principal companhia é Porteiro, seu cachorro fedorento viciado em café.
    Logo no início da leitura, já podemos notar que Ed se vê como um perdedor em tudo e sabe da mediocridade de sua vida: não tem grandes ambições, trabalha, joga cartas e é apaixonado por Audrey, sua melhor amiga que dorme e faz sexo com qualquer um, menos com ele.
    Sua vida se transforma radicalmente quando um dia impede um assalto a um banco. Após este acontecimento, Ed recebe uma carta de baralho. É um Ás de ouro com três endereços anotados. Ele sabe que não tem escolha a não ser a de cumprir sua missão, isto é, tem que estar nesses lugares e, mesmo sem saber o que precisa ser feito, tem consciência de que será preciso descobrir por conta própria. Para deixar a trama mais envolvente, e para a angústia de Ed, o rapaz não tem a menor ideia de quem está por trás disso.
    Ao longo da história, Ed recebe os quatro ases do baralho, cada um contendo três situações. As 12 tarefas são distintas umas das outras (algumas bem simples e outras muito desafiadoras e perigosas) e o mais curioso é que, no decorrer da leitura, comecei a me perguntar o que eu faria se estivesse no lugar de Ed. Cada uma das missões exige um pouco do protagonista, escolhido para ser o mensageiro e mudar uma determinada situação.
    Apesar de não ter gostado do final, que o autor poderia ter trabalhado de forma mais rica e detalhada, o livro transmite uma mensagem clichê, mas justamente por ser clichê é que nos escapa com tanta facilidade: precisamos prestar mais atenção aos pequenos acontecimentos, às coisas sutis que rodeiam nosso cotidiano, que podem nos tornar pessoas melhores para os outros e, sobretudo, para nós mesmos. No fundo, esta história nada mais é que um mergulho dentro de Ed e a tentativa de lidar com seus medos, sua humildade, sua coragem e sua persistência.

  6. Receitas que não se devem seguir

    domingo, 16 de novembro de 2014

    Quando era criança, vivia fuçando uma caixa bem grande cheia de livros de receitas que minha mãe tinha. Ficava horas e horas vendo, principalmente, bolos infantis decorados. Algumas vezes pedia para que ela fizesse alguma coisa, e ela me respondia dizendo que era um pouco difícil. Eu contra-argumentava alegando que era só seguir a receita. Ingenuidade de criança.
    Passados muitos anos, descobri que muita gente é fã de recitas, além das tradicionais de comes e bebes. Hoje em dia há receita para tudo nessa vida: como se dar bem nos negócios e ser bem sucedido, como influenciar aqueles que estão ao seu redor, como poupar e lucrar, como conquistar a pessoa que você ama ou apimentar seu relacionamento, como atingir o corpo ideal com a melhor dieta do mundo, como vencer desafios, como ser feliz... Há muitas outras receitas à disposição.
    Nas livrarias, todas essas receitas estão na sessão de Autoajuda, a mais vendida em todo lugar. O panfleto vagabundo, popularmente conhecido como Veja, publica toda semana as listas com os livros mais vendidos divididos por categorias. Na de "receitas", ou Autoajuda, como o leitor preferir, temos esta semana:
    1º lugar: Ansiedade - Augusto Cury
    2º lugar: Não se apega, não - Isabela Freitas
    3º lugar: De volta ao mosteiro: o monge e o executivo falam de liderança e trabalho em equipe - James Hunter
    4º lugar: Sonhos não têm limites - Ignácio Loyola Brandão
    5º lugar: Resolva! - Marcos Vinicius Freire
    Para confirmar a minha tese sobre as receitas, aqui estão todos os livros da lista (são 20).
    Não faltam também livros que trazem os pilares da felicidade.
    A minha crítica sobre esses livros é a de que uma obra de autoajuda só ajuda o próprio autor (auto), isto é, aquele que escreve. Na verdade, nem deve ajudar tanto porque senão um mesmo autor não escreveria dezenas de livros sobre o mesmo assunto. Se fosse tão simples como está apontado nos livros, um resolveria tranquilamente o problema de todo mundo. 
    Aprendi também que, por mais que se siga certinho uma receita de bolo, por exemplo, alguma coisa pode dar errada no meio do caminho. Este é detalhe do qual alguns se esquecem. 
    Em todas as épocas históricas e em todas as sociedades cogitou-se a possibilidade de descobrir o segredo de uma vida feliz, e o que ficou claro é que, quanto mais se fala em felicidade, mais distante ela parece estar. Ao mesmo tempo, por que existem tantas receitas sobre a felicidade? Não somente porque aos poucos se constata que elas nem sempre dão certo, mas também porque ser feliz se tornou um imperativo, como se não houvesse lugar para os medos, as frustrações e os sofrimentos da vida. Querer ser feliz o tempo todo, além de ser uma chatice, é prova do quanto ainda não conseguimos amadurecer o suficiente para vivermos dispostos em lidar com os fatos e sentimentos inevitáveis.
    As receitas da felicidade não podem dar certo para todos porque não partem do pressuposto da enorme gama de significados contidos na expressão "ser feliz" e descarta a realidade de cada pessoa. O que me faz feliz pode não fazer para o outro, é a lei básica das diferenças e pluralidades humanas. É insensato acreditar que exista uma receita da felicidade capaz de atingir a todas as realidades e contextos de vida. 
    No fundo, existe uma ideia simples, que jamais poderá se tornar uma receita: a da alquimia, o fermento da própria vida. Se a felicidade depende da combinação de inteligência, razão, emoção e sensibilidade, nada mais óbvio e natural que cada um seja alquimista e autor de sua própria receita.
    O que os milhares de livros de autoajuda e, especialmente, sobre a felicidade já fizeram, ou seja, o que já está pronto, pode até servir de inspiração. Porém, imitar é apenas o primeiro passo para uma tentativa malsucedida, o fracasso.

  7. Criança e literatura: tudo a ver!

    sexta-feira, 10 de outubro de 2014

    Comecei a ler com uns 5 anos e desde então não parei mais. Foi o melhor presente que recebi do mundão! Porque a verdade é que, quando começamos a ler, descobrimos que existem muitos mundos. Minha família nunca teve muito o hábito da leitura. Em minha casa não tinha estante de livros para que eu pudesse ler quando quisesse, apenas um ou outro. Por isso eu adorava ficar na biblioteca da escola e era sempre a campeã da sala em pegar livros (e lê-los!). Minha mãe começou a perceber que a coisa era séria e comprou alguns livros, mas o meu projeto de biblioteca só veio à tona quando comecei a trabalhar para poder adquirir cada obra que hoje faz parte da minha coleção. Ela é muito pequena perto do que pretendo. Porém, dentre todos os meus sonhos, o de formar a minha biblioteca é um dos mais fáceis de se realizar!
    Eu me lembro da primeira vez que li O Pequeno Príncipe. Era da minha tia e nele constava uma dedicatória; a mulher que havia presenteado dizia que o livro não era para crianças. Tinha mais ou menos 13 anos. Não faz muito tempo que descobri que existem livros infantis para adultos, além deste clássico. Pensando no dia das crianças, deixarei quatro indicações, livros infantis que li e que despertaram "algo a mais" em mim, isto é, um livro tanto para crianças quanto para adultos.

    Fonchito e a Lua

    Fonte: Leituras que não esqueço
    Não tem como não achar uma graça esta história. Ela se passa em Lima, no Peru. Fonchito é um rapazinho que quer muito dar um beijo no rosto da menina mais bonita da escola, Nereida. A esperta garota diz que aceitará apenas com uma condição: que Fonchito traga-lhe a lua! Sim, ele consegue de uma forma inusitada!

    Os meninos da Rua Paulo

    Fonte: Livre-se
    Um livro que me marcou muito, muito mesmo. E que despertou o significado de ser criança quando eu já estava velha para ser considerada criança. A história se passa em Budapeste, onde dois grupos de meninos disputam um terreno baldio para que possam brincar e fazer suas reuniões. A batalha (que promete ser a do século!) inclui até "táticas de guerra" infantis. É um livro que enfoca muito na amizade, na lealdade e na união. O autor, Ferenc Molnar, diz, inclusive, ter feito parte do grupo protagonista, a Sociedade do Betume. Este livro eu li quando tinha uns 20 anos e me emocionei bastante com a leitura. O Ira! gravou um disco em 1991 com o mesmo nome da obra, e tem duas faixas que também remetem ao título.

    O casaco de Pupa

    Fonte: Saraiva
    Pupa guarda todos os seus medos junto ao casaco que está sempre em seu corpo. O casaco pesa, como quando a lagarta percebe que já é hora de se encasular para passar por uma verdadeira transformação. Pupa sabe o que deve fazer também. As imagens do livro são maravilhosas!

    A grande fábrica de palavras

    Fonte: Porta-Livros
    Maravilhoso! Um livro simples de tudo, mas genial. Philéas precisa se declarar para Cybelle. Eles vivem em um país onde seus habitantes praticamente não falam e, para que possam falar, é necessário comprar as palavras. Elas custam uma fortuna e Philéas não tem dinheiro para comprá-las. Digno de se emocionar com esta história, que conheci no ano passado e me apaixonei. Recomendadíssimo!

  8. Para encerrar nossas leituras sobre o carnaval, nada melhor que o olhar antropológico de Roberto DaMatta. Este texto faz parte de uma obra maravilhosa intitulada "O que é o Brasil?", na tentativa de compreender melhor nosso país, nosso povo e nossa cultura.

    O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer

    Todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festas, os rituais, as comemorações.
    [...] No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva.
    [...] Na festa, comemos, rimos e vivemos o mito da ausência de hierarquia, poder, dinheiro e esforço físico. Nela, todos se harmonizam por meio de roupas especiais, comidas singulares e, muito especialmente, pela música que congrega e iguala no seu ritmo e na sua melodia.
    No caso do Brasil, a maior e mais importante, a mais livre, criativa, irreverente e popular é, sem dúvida, o carnaval. Aliás, nessa festa, a própria definição já perturba, pois que dispensa os elementos da ordem, da esfera política e moral, básicos das outras festas. O carnaval não pode ser sério, senão não seria um carnaval...
    Mas qual a receita para o carnaval brasileiro?
    Sabemos que o carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo excesso - mas como excesso de prazer, de riqueza (ou de "luxo"), de alegria e de riso; de prazer sensual que finalmente fica ao alcance de todos. [...] Com isso, o carnaval inventa um universo social onde a regra é praticar todos os excessos.
    Por isso, o carnaval é percebido como algo que vem de fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistível que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. [...] Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que extraordinário é esse que ele tão criativamente inventa?
    O carnaval é um ritual de inversão do mundo. [...] No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo pelo uso do corpo como instrumento de beleza e prazer. No trabalho, estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No carnaval isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o corpo é gasto pelo prazer e pela "brincadeira".
    [...] O carnaval também promove a troca dos uniformes pelas fantasias. Se o uniforme é uma vestimenta que cria ordem e hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posições. E a fantasia é tanto o sonho acordado quanto aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos e o que poderíamos ter sido ou o que merecíamos ser. A  fantasia liberta, "desconstrói", abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo. Ademais, ela torna possível passar de "ninguém" a "alguém"; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica.
    É precisamente por estar vivendo uma situação na qual as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores, dos "elementos" que entram na fila e das "pessoas" que jamais são vistas em público como comuns.
    [...] No carnaval, nós, brasileiros, cantamos e, geralmente, podemos fazer o que cantamos. [...] Ali, todos podem exercer o direito de interpretar o mundo do seu jeito e a seu modo. Do mesmo modo, a crítica social mais ácida e a crítica política mais acesa, que pode dar em prisão e censura, são realizadas abertamente, tanto quanto a competição, que todos temem como algo monstruoso, mas que é também aceita em todos os carnavais brasileiros, construídos por meio de inúmeros concursos.
    De fato, no carnaval, há competição para tudo: músicas, fantasias, maior capacidade de exibir-se e, naturalmente, a disputa dos blocos e escolas de samba.
    [...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de "quem conhece o seu lugar" - algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política.
    [...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto...

  9. 50 anos com muita história pra contar

    quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

    Mafalda está completando 50 anos de tirinhas iconoclastas e irreverentes. Seu criador, o cartunista Quino, lançou as tirinhas no período de 1964 a 1973, período que coincide, vale lembrar, com algumas ditaduras da América Latina e conflitos internacionais, como a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria, e que são exploradas por Quino e representadas pela pequena notável.  É interessante o fato de algumas tirinhas, feitas há décadas, ainda permanecerem atuais ou apresentarem questões que não foram resolvidas, sobretudo as que dizem respeito à política, aos homens, às ideologias. Sua fama é tanta que praticamente virou elemento obrigatório de vestibulares e concursos.
    Claro que nem por isso Mafalda é ícone de um movimento contestador que, tendo consciência da complexidade da vida, da política e das armadilhas ideológicas, revolta-se contra tudo e todos. A maioria de suas tirinhas são inquietantes, mas é importante deixar claro que Mafalda apresenta elementos típicos da classe média argentina vinculada aos progressistas da década de 1960. 
    Outra observação é o fato da garota ter apenas seis anos de idade, e muito nos surpreenderia se encontrássemos crianças com toda sinceridade, eloquência e interesse por assuntos públicos como Mafalda; é praticamente inimaginável.
    Por outro lado, assim como muitas crianças observam, o mundo dos adultos é algo estranho para Mafalda, que vive questionando os próprios pais e até desconhecidos sobre atitudes e valores para obter respostas e explicações em situações inusitadas. Ao lermos o livro Toda Mafalda, obra que reúne as todas as tirinhas da personagem apaixonada pelos Beatles e de seus amigos, poderemos perceber que ela permanece sem as respostas que tanto procura. Porém, deixa-nos uma ideia muito interessante e educativa: para o mundo ser melhor, as pessoas é que precisam ser melhores.






  10. Nunca dois sem três

    sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

    "Tu me disseste: Eu te amo. Eu te disse: Espera. Eu ia dizer: Leva-me comigo. Tu me disseste: Vai embora."

    Jules e Jim é um clássico na literatura (1953) e no cinema (1962). Nesta publicação, pretendo enfatizar as semelhanças entre os trabalhos de Henri-Pierre Roché, autor do romance, e François Truffaut¹, diretor da película.
    Nossa história começa na Paris do início do século XX, no ano de 1907, com o surgimento da bela amizade entre o alemão Jules e o francês Jim. O primeiro, com uma personalidade muito marcante, que tende sempre a expor suas emoções, a se exaltar e, por vezes, ter crises por conta de seus exageros. O segundo, mais introvertido e acanhado. Amantes da arte, especialmente da literatura, compartilhavam e traduziam seus poemas juntos. Apaixonados pela vida, conheciam muitas mulheres. Resumindo: trata-se de um romance, e o mérito é que foge das convenções tradicionais de relacionamento.
    O filme pula a primeira parte do livro, na qual Jules pretende se casar com Lucie, uma "beldade gótica" e estudante de pintura. Também acaba não tendo sucesso com outras mulheres que são suas conhecidas ou que são apresentadas por intermédio de Jim. O ponto em comum das duas obras é uma viagem que os amigos fazem para a Grécia com o compatriota Albert, que lhes mostra uma coleção de fotos e, numa delas, notam um sorriso de uma estátua que os deixa fascinados. Os três decidem ir à ilha para "ver de perto" a estátua recentemente exumada.
    Eles a contemplam por uma hora em silêncio diante daquele sorriso poderoso, e prometem que se o encontrassem algum dia em alguma mulher, iriam atrás dele.
    Quando Jules e Jim retornam a Paris, conhecem a personagem mais intensa e complexa: Kathe (no filme, o nome é Catherine, mas vou manter o original), a mulher que tinha o sorriso da estátua.
    Os três logo se tornam grandes e inseparáveis amigos e fazem tudo juntos ao estilo "carpe diem". A imagem mais clássica do filme - que se tornou capa do livro - é os três apostando uma corrida, na qual Kathe está com um traje masculino e ganha trapaceando.


    Jules se apaixona demasiadamente por Kathe e pede a Jim para não interferir neste relacionamento, pois quer se casar com ela. Numa noite, após apreciarem uma peça de teatro², o trio passeia pelas margens do Sena e o mergulho de Kathe surpreende ambos, mais a Jules, que se mostra desesperado.


    Jules e Kathe se casam, mas logo vem a Primeira Guerra Mundial e a horrível experiência das trincheiras. Jules combate pela Alemanha na Tríplice Aliança e Jim pela França na Tríplice Entente. Ambos temem matar o outro, pois nem a rivalidade dos países é capaz de pôr fim à amizade e propriamente ao amor existente entre os dois.
    Com o fim dos conflitos, Jules e Jim se reencontram e o francês conhece o lar de Kathe, Jules e da pequena Sabine, filha do casal.³ 


    A crise do casamento é perceptível para Jim e os amigos têm uma conversa franca. Jules revela que tem conhecimento dos amantes de Kathe, inclusive Albert, o mesmo que lhes mostrou a estátua. Ela também conta sua versão para Jim num outro momento.
    Por fim, Jules se convence de que já não é possível manter o matrimônio e pede para que Jim se case com ela, pois não quer perdê-la definitivamente. Em nome da amizade, Jim aceita e passa a viver na mesma casa. Mas logo começam as crises, além de Kathe não conseguir engravidar. A relação entre Jim e Kathe também se torna insustentável. Paralelamente, desde o início do filme, sabemos que Jim se envolve com a francesa Gilberte. Num reencontro em Paris, Jim decide que quer se casar com Gilberte e viver ao lado da bela mulher. Fora de cogitação para Kathe; ela não consegue aceitar e o desfecho da história também é inesperado: Jim e Kathe estão no carro desta enquanto Jules os assiste. Repentinamente, Kathe vai com o veículo em direção a um rio ali próximo. Jules presencia o último mergulho no Sena.

    Breve análise
    Para a surpresa de muitos, inclusive do então crítico de cinema Truffaut, Jules et Jim, título original, é a primeira obra publicada de Roché, aos 76 anos! E mais: trata-se de um romance autobiográfico, com seus relatos e memórias.
    Só é possível analisar a dimensão e a importância deste clássico levando em consideração a época em que foi produzido e como ainda continua tão marcante e presente. Como pudemos perceber, trata-se de um romance libertário em plena década de 1960 (que já dava seus indícios do surgimento da contra-cultura) e que, ainda nos dias de hoje, é cativante e impactante. A obra trabalha muito bem o aspecto emocional e "le tourbillon de la vie" propriamente dito, a grande canção do filme que, por sinal, apresenta uma trilha sonora lindíssima e comovente. 
    O que percebemos nos personagens (cada um a seu modo) é que eles, com suas contradições, defendem a intensidade das emoções: do amor, da paixão, da amizade e do companheirismo. Toda e qualquer forma de afeto revelada na trama causa a sensação de que os atores estão realmente entregues à história e estão vivendo-a de verdade. Isso faz com que as cenas se tornem puras, belas e limpas, sem recorrer a exageros ou superficialidades.
    Kathe é uma personagem que merece destaque. A princípio, o diretor trabalha com a ideia de mulher ideal quando Jules e Jim encontram nela o sorriso da estátua. No entanto, a jovem apresenta uma personalidade forte e ao mesmo tempo contraditória. É temperamental e vive oscilando emocionalmente. É alguém que busca o tempo todo a atenção dos outros e, em alguns momentos, sua felicidade parece depender da infelicidade dos amigos. Kathe não mede esforços para atingir o que procura - na verdade, parece que não sabe ao certo o que busca, o que revela sua forma de se sobressair em quaisquer ocasiões utilizando-se de todos os meios possíveis, mostrando-nos seu caráter de mulher imprevisível. O modo de vida escolhido por Kathe também não soa como protesto. Truffaut afirmou: "Entretanto, e a despeito de sua aparência "moderna", o filme não tem caráter polêmico. Provavelmente, a jovem mulher de Jules e Jim quer viver da mesma forma que um homem, mas esta é uma particularidade de seu caráter e não uma atitude feminista e reivindicatória".
    Jules, em conversa com Jim, define Kathe da melhor forma possível: "Não é excepcionalmente bela, nem inteligente, nem honesta, mas é uma mulher de verdade. É a mulher que nós amamos. É a mulher que todos os homens desejam. Por que Catherine, passando por cima de tudo, exige sempre a nossa presença? Porque nós lhe damos completa e total atenção, como a uma rainha". Isso faz de Kathe uma personagem amável e, ao mesmo tempo, detestável.
    Como afirmei no início, Roché e Truffaut, através de diálogos simples, trabalham com temas que, para muitos, são tabus: a liberdade sexual, a infidelidade e a busca por valores que fogem da linha tradicional e conservadora no que diz respeito a relacionamentos amorosos. É este o grande mérito dos autores: o tom não é de imposição de uma moral, seja ela qual for, pois a abordagem do filme não é apelativa nem erótica; o tom de sofrimento e tristeza é muito claro nos três personagens. Truffaut declarou em uma entrevista: "Nem sempre sendo o casal a solução ideal e satisfatória, parece legítimo buscar uma moral diferente, outros modos de vida, embora todos esses arranjos estejam fadados ao fracasso".
    É por esta razão que faço questão de citar Michel Delahaye, para encerrar: "Que a nobreza de Jules e Jim o façam escapar dos atentados de todos aqueles para quem é imoralidade a busca de outra moralidade, feiura, a de outra beleza - que o façam planar acima de todas as ortodoxias, velhas ou novas".
    Jules e Jim não é uma simples história de amor em que todos são felizes para sempre.



    Referência:
    Truffaut, François. Jules et Jim: o romance, o roteiro/ roteiro de François Truffaut, romance de Henri-Pierre Roché. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

    Notas
    1: Truffaut é um nome marcante do cinema francês e um pouco de sua difícil trajetória de vida pode ser vista no filme em que ele mesmo dirigiu, Os Incompreendidos (1959).
    2: No livro, o mergulho de Kathe ocorre após um jantar que sela sua união com Jules.
    3: No livro, Kathe tem duas filhas com Jules: Lisbeth e Martine.