Minha última publicação sobre os sentidos do amor terminou com uma frase do grande Shakespeare: o curso do verdadeiro amor nunca é suave. Numa linguagem mais informal, "amar dá trabalho", e me parece que as pessoas não estão afim de se empenhar neste tipo de trabalho. Longe de fazer um post com uma visão romântica e ideal sobre os relacionamentos, a sensação é a de que os que estão envolvidos numa relação têm jogado a toalha com muita facilidade, não apenas porque nossa sociedade hoje possui uma dinâmica e um conjunto de valores que fazem com que esta decisão seja tomada rapidamente e sem remorsos, mas também porque estamos presenciando a ascensão de uma geração de adultos emocionalmente infantis e mimados.
Fonte: A mente é maravilhosa
Um clichê só é clichê justamente pelo fato de ser óbvio e ainda assim não percebermos: uma relação requer dedicação, tolerância e concessões, independentemente do tipo de relação que se estabeleça. Pense em alguém cujo sonho era o de construir sua casa própria e conseguiu. Quantas dores de cabeça esta pessoa provavelmente teve em alguns momentos? Pode ter ter sido com os pedreiros, com materiais de construção, com a regularização da planta, com os móveis, com a pintura, com os prazos de entrega que fugiram do controle... Este alguém perdeu o sono muitas vezes, mas não era este o seu sonho, o seu projeto? E aqueles que investem uma boa quantia de dinheiro para abrir a "empresa dos sonhos", seja um carrinho de lanche ou uma multinacional? Imagine só por quanta coisa chata essas pessoas tiveram que passar e ainda passam para que tudo funcione normalmente. A enorme burocracia, prestação de contas, problemas com o maquinário, funcionários-problema, clientes com o mais alto nível de exigência... Nem tudo é um mar de rosas, mas não são os percalços para a concretização do projeto destes empreendedores? Nos exemplos que mencionei - e que com certeza você conhece alguém que tenha passado ao menos por uma das situações - as pessoas não têm escolha: ou enfrentam com energia e coragem o "lado ruim" ou a coisa simplesmente não acontece!
Fico me perguntando quem é capaz de apostar todas as fichas, mergulhar de corpo e alma nas águas inexploradas de uma relação, fazer desta um projeto de vida e ter disposição para enfrentar todos os pedregulhos que não são raros de aparecerem. É uma construção diária, em doses homeopáticas, e nem sempre é algo divertido. A diferença é que, ao contrário da casa e do negócio, costuma faltar compreensão e tolerância nos momentos de dificuldades. Para alimentar um relacionamento, às vezes é necessário travar um duelo com o orgulho próprio, perceber, sentir e olhar o outro e suas necessidades.
Que os problemas existem, já sabemos. Que não há relação sem erros, já sabemos. Que às vezes damos mancadas justamente com quem mais amamos, não é novidade. Então por que as pessoas estão desistindo tão facilmente? Por que estão enterrando sonhos e momentos que sequer tiveram a chance de serem vividos? Porque não há entrega. Porque ter disposição para enfrentar todos os desafios e conflitos que uma união acarreta é complicado. Vejo tantas relações que parecem mantos leves para evitar sofrimentos, renúncias e decepções, que são inerentes a todo e qualquer ser humano. Fica uma situação estranha, um afastamento consubstanciado: as pessoas estão juntas e não estão ao mesmo tempo. E qualquer desentendimento já se torna um bom motivo para romper a relação; poucos estão abertos a negociações.
O que não é difícil notar também é como alguns tratam um envolvimento afetivo como um investimento qualquer, como se outro alguém estivesse no mercado de ações internacionais. O sentimento é proporcional ao tipo de investimento realizado. E eis que o homem pensa ter obtido a capacidade de ser um bom acionista! Mas, diferentemente do que ocorre com a economia, não existe verdadeiramente um mercado de relacionamentos em operação e nós sabemos disso.
Ao leitor cabe deixar claro que este não é um discurso para nos afundarmos em qualquer relação. Ninguém deve aceitar dividir sua vida com alguém sem se sentir feliz ao lado desta pessoa. Primeiro porque a vida é uma só, e além de tudo é mais curta do que imaginamos (embora não seja velha, este é um ditado popular que acredito piamente). Segundo porque às vezes é importante fechar ciclos. Quando os planos e sonhos não são compatíveis, quando a música e o ritmo de cada um estão descompassados, quando todas as tentativas possíveis por soluções já não são capazes de resolver todos os impasses, aí sim é hora de jogar a toalha porque não acredito que alguém esteja condenado a insistir tanto em algo que não tem conserto.
A grande questão, porém, é que a maioria dos relacionamentos acaba antes mesmo de todos os esforços serem empenhados, sem diálogos profundos e sem ao menos utilizar todos os recursos viáveis para alinhar as órbitas dos universos particulares de cada um dos seres envolvidos. Gosto da metáfora dos hospitais: antes de ficar em observação na enfermaria ou ir para a UTI, é como se o fim já tivesse sido sentenciado. Ou ainda a metáfora dos brinquedos: quando a criança mimada percebe que o brinquedo está com algum problema, encardido, que a bateria acabou, ela deixa de lado, prefere um novo porque o outro já deu o que tinha que dar. Qualquer semelhança com adultos infantis e mimados que acham muito trabalhoso "discutir a relação" e que consideram arriscado demais o envolvimento total é mera coincidência.
Não estou questionando o valor que atribuímos às convenções sociais. O que não considero válida é essa mania que muitos possuem de dar duro em tantas esferas da vida e quando se trata de tentar solucionar os impasses da convivência com o outro, aí é chato, é perda de tempo. David Bowie tinha muita razão quando cantava Under Pressure:
"O amor é uma palavra tão fora de moda
e desafia você a cuidar das pessoas no limite da noite.
E o amor desafia você a mudar nosso modo
de nos importarmos com nós mesmos."
Quando afirmamos que amamos alguém, o que estamos querendo dizer? É possível definir o amor, tentar explicá-lo, entender por que e como ele acontece? Talvez, mas as respostas não estão em dicionários ou nas falas de profissionais especializados em relacionamentos. Via de regra, cada indivíduo tende a definir o amor de uma maneira própria, uma vez que o mesmo é - e sempre foi - sentido, visto e pensado de formas distintas. Os que gostam de literaturam sabem: em detrimento do contexto histórico-social de cada época, o amor recebeu diversos atributos: amor platônico, amor cortês, amor romântico, amor bandido, até amor vampiro! Estas concepções do fenômeno amoroso indicam que os modos de se relacionar se transformaram ao longo da história, e cada época registrou sua forma de amar.
Ao que tudo indica, o amor é o sentimento mais forte que a nossa alma pode sentir por nos proporcionar sensações tanto deliciosas e maravilhosas quanto extremamente dolorosas - sim, o amor é dialético e paradoxal. O poeta Dante Alighieri fala do amor como uma força cósmica capaz de mover o Sol e as outras estrelas. Logo, amar e ser amado não soam como as coisas mais simples do mundo no plano racional. Entretanto, no plano sensitivo é dotado de extrema simplicidade.
A sociedade ocidental foi educada no preceito cristão "ama o próximo como a ti mesmo", porém vivemos em um mundo marcado fundamentalmente pela imposição da competição entre as pessoas (ser mais, ter mais, ganhar mais). Este estímulo para que nos tornemos cada vez mais competitivos leva a uma crise de confiança generalizada. Ao invés de amar, suspeitamos do próximo e podemos enxergar nele uma ameaça às nossas ambições, inclusive um adversário a ser eliminado. Como toda regra tem sua exceção, também devemos reconhecer a importância que este sentimento desempenha ao provocar o desejo em muitos de nós por um mundo harmônico e mais justo.
A ideia do amor como conhecemos hoje é uma invenção moderna. Na Antiguidade e na Idade Média os interesses econômicos e políticos sempre falaram mais alto, mesmo no campo afetivo - era o que realmente importava. O "gostar de alguém" não era requisito fundamental para se envolver com o outro. Aliás, sabemos que "n" relacionamentos deste século 21 ainda são pautados no interesse e na conveniência. Nesse sentido, nada parece ter se modificado tanto depois de milhares de séculos.
A necessidade instintiva de aproximação sempre existiu; o anseio por convívio é premissa básica da existência humana. No entanto, muitos - sobretudo os jovens - encontram-se diante de um dilema: querem alguém para desfrutar o que uma relação pode oferecer de melhor, mas sem passar por momentos que exigem sofrimento, renúncias e dificuldades, porque isso também faz parte da convivência do amor. Este entrave é fruto da grande corrente de individualismo que se formou há tempos e que vem se perpetuando na sociedade. Viver o amor de forma intensa é bom, mas sem solidez, introspecção e profundidade ele não é possível.
Já dissera Shakespeare: o curso do verdadeiro amor nunca é suave.
Durante o processo de amadurecimento no decorrer da vida, descobrimos que o tempo é relativo. Há momentos que voam e outros que parecem durar uma eternidade. Desde cedo aprendemos a calcular e medir o tempo pelo relógio e pelo calendário, mas as sensações são sempre as mesmas: sentimo-nos frustrados diante das angústias que demoram a ir embora e sequer desfrutamos os melhores acontecimentos; eles se vão num piscar de olhos. Os meses de trabalho são intermináveis e as férias curtas demais. Os finais de semana passam na velocidade da luz, enquanto os demais dias caminham mais devagar do que passos de tartaruga.
Vivemos nos queixando da falta de tempo para fazermos aquilo que gostamos e até mesmo para dar conta de todos os deveres. Às vezes, quando nos sobre tempo, não conseguimos utilizá-lo da melhor forma possível e bate o arrependimento, sobretudo quando comparamos nossa rotina com a de outras pessoas que parecem desfrutar o tempo de forma mais proveitosa.
Passamos, então, a questionar a relatividade do tempo quando pensamos que todos os dias e todas as pessoas têm as mesmas 24 horas. Para além do fato de alguns terem mais regalias e privilégios, o que pode fazer nosso tempo ser mais bem aproveitado são as nossas escolhas.
Infelizmente, somos estimulados a valorizar mais o trabalho do que a vida em família. Basta fazer as contas: quanto tempo passamos trabalhando e quanto ficamos com aqueles que amamos? Somos induzidos a perder mais tempo no mundo virtual ou com futilidades do cotidiano do que viver experiências realmente enriquecedoras e que podem nos transformar enquanto seres humanos, como ler, viajar, curtir a natureza, realizar um trabalho voluntário.
Está certo, o trabalho é extremamente importante e se tornou a principal fonte de sobrevivência. Porém, o que levaremos da vida? Será que daqui alguns anos nos lembraremos das nossas horas-extras ou dos passeios ao pôr-do-sol (ou de qualquer outro momento que nos deixou mais leves)? Quando temos a oportunidade de avaliar o peso de nossas escolhas e prioridades podemos fazê-las sem medo e crentes de nos ajustarmos melhor com o cronômetro.
Não adianta ficar planejando ou adiando as tomadas de decisões, prometendo tudo para 2015, já que agora é tarde demais. Até porque quase nunca cumprimos nossas promessas de ano-novo e temos a tendência pessimista de avaliar o que não fizemos ao invés de olhar para as nossas conquistas. Nem sempre é necessário esperar para começar. O tempo não anuncia a hora em que devemos iniciar nossas escolhas e nossas ações. Que em 2015 possamos ter mais tempo para o que realmente faz nossa vida valer a pena ser vivida cada minuto. As outras metas vêm com nossos esforços... E com o tempo.
Quando era criança, vivia fuçando uma caixa bem grande cheia de livros de receitas que minha mãe tinha. Ficava horas e horas vendo, principalmente, bolos infantis decorados. Algumas vezes pedia para que ela fizesse alguma coisa, e ela me respondia dizendo que era um pouco difícil. Eu contra-argumentava alegando que era só seguir a receita. Ingenuidade de criança.
Passados muitos anos, descobri que muita gente é fã de recitas, além das tradicionais de comes e bebes. Hoje em dia há receita para tudo nessa vida: como se dar bem nos negócios e ser bem sucedido, como influenciar aqueles que estão ao seu redor, como poupar e lucrar, como conquistar a pessoa que você ama ou apimentar seu relacionamento, como atingir o corpo ideal com a melhor dieta do mundo, como vencer desafios, como ser feliz... Há muitas outras receitas à disposição.
Nas livrarias, todas essas receitas estão na sessão de Autoajuda, a mais vendida em todo lugar. O panfleto vagabundo, popularmente conhecido como Veja, publica toda semana as listas com os livros mais vendidos divididos por categorias. Na de "receitas", ou Autoajuda, como o leitor preferir, temos esta semana:
1º lugar: Ansiedade - Augusto Cury
2º lugar: Não se apega, não - Isabela Freitas
3º lugar: De volta ao mosteiro: o monge e o executivo falam de liderança e trabalho em equipe - James Hunter
4º lugar: Sonhos não têm limites - Ignácio Loyola Brandão
Não faltam também livros que trazem os pilares da felicidade.
A minha crítica sobre esses livros é a de que uma obra de autoajuda só ajuda o próprio autor (auto), isto é, aquele que escreve. Na verdade, nem deve ajudar tanto porque senão um mesmo autor não escreveria dezenas de livros sobre o mesmo assunto. Se fosse tão simples como está apontado nos livros, um resolveria tranquilamente o problema de todo mundo.
Aprendi também que, por mais que se siga certinho uma receita de bolo, por exemplo, alguma coisa pode dar errada no meio do caminho. Este é detalhe do qual alguns se esquecem.
Em todas as épocas históricas e em todas as sociedades cogitou-se a possibilidade de descobrir o segredo de uma vida feliz, e o que ficou claro é que, quanto mais se fala em felicidade, mais distante ela parece estar. Ao mesmo tempo, por que existem tantas receitas sobre a felicidade? Não somente porque aos poucos se constata que elas nem sempre dão certo, mas também porque ser feliz se tornou um imperativo, como se não houvesse lugar para os medos, as frustrações e os sofrimentos da vida. Querer ser feliz o tempo todo, além de ser uma chatice, é prova do quanto ainda não conseguimos amadurecer o suficiente para vivermos dispostos em lidar com os fatos e sentimentos inevitáveis.
As receitas da felicidade não podem dar certo para todos porque não partem do pressuposto da enorme gama de significados contidos na expressão "ser feliz" e descarta a realidade de cada pessoa. O que me faz feliz pode não fazer para o outro, é a lei básica das diferenças e pluralidades humanas. É insensato acreditar que exista uma receita da felicidade capaz de atingir a todas as realidades e contextos de vida.
No fundo, existe uma ideia simples, que jamais poderá se tornar uma receita: a da alquimia, o fermento da própria vida. Se a felicidade depende da combinação de inteligência, razão, emoção e sensibilidade, nada mais óbvio e natural que cada um seja alquimista e autor de sua própria receita.
O que os milhares de livros de autoajuda e, especialmente, sobre a felicidade já fizeram, ou seja, o que já está pronto, pode até servir de inspiração. Porém, imitar é apenas o primeiro passo para uma tentativa malsucedida, o fracasso.
Eu me lembro de quando era criança. Mal podia pensar que o dia 12 de outubro estava chegando e ficava ansiosa para receber o meu presente ou a minha grana. Felizmente, tive muitas oportunidades ao longo da vida, inclusive aproveitar o período da infância. Aliás, foi exatamente na minha época de criança que a publicidade massiva começou a decolar e que a erotização precoce entrou no script.
Pensando nisso, decidi fazer três indicações que discutem o significado de infância e de ser criança e o que está presente no universo desses jovens.
A invenção da infância
Clássico. Mostra as disparidades que compõem a realidade das crianças brasileiras. Enquanto aquelas que possuem uma agenda lotada de atividades (escola, natação, balé, vôlei, inglês) se percebem como adultas desde cedo por conta da vida cronometrada, as que trabalham duro a fim de obter abaixo do básico para a sobrevivência e que quase não têm tempo para estudar ou brincar não se veem como adultas.
Criança, a alma do negócio
Muitos não têm ideia do quanto a publicidade é perigosa para as crianças e afeta toda a sua trajetória. Neste documentário, diversos profissionais procuram explicar o que se passa psicologicamente com a criança diante dos anúncios e como ela pode se desenvolver desde cedo com o consumismo fazendo parte de sua vida.
Muito além do peso
Mais recente que os anteriores, este documentário retrata a realidade de crianças do Oiapoque ao Chuí e seus hábitos alimentares, considerando que muitos dos nossos jovens estão acima do peso ou obesos. Discute a alimentação e a saúde das crianças e os possíveis problemas que estão enfrentando muito novas (de coração, diabetes, respiração). Isso para não falar no preconceito que provoca depressão. Um assunto sério que envolve política, escola, família e publicidade.
Este ano foi inaugurado o documentário Tarja Branca. Não pude assisti-lo ainda, mas o tema central é o lúdico: a importância do brincar, tanto na infância quanto na vida adulta.
Sei que quando se trata de redes sociais o assunto é complexo e a abordagem não pode ser reducionista. Mas, evidentemente, qualquer texto acaba pendendo para algum lado (lê-se aqui ideologia). Começo, portanto, pela conclusão: o Facebook tem passado por testes diários de sobrevivência. E não está fácil.
Em primeiro lugar, a maioria dos meus contatos está marcada na opção de não receber atualizações no feed de notícias. Isso já é um indício do quão interessante andam as publicações.
Para chegar à conclusão, entrei no máximo de perfis possíveis. Como para se ter um perfil é necessário que cada usuário seja cadastrado com o seu e-mail, podemos deduzir que aquela conta e o que nela é publicado, além de ser de inteira responsabilidade do usuário, será usada como for conveniente, lembrando de estar sempre dentro do permitido legalmente. Alguns escolhem fazer do Face um verdadeiro muro de lamentações. Desabafo atrás de desabafo. Outros veem na rede social o clube das indiretas ou o do #ficaadica. Há os que preferem usar a página como divulgação profissional, bem compreensível nesses tempos globalizados e de compras via internet. Há ainda os que estão lá para focarem suas publicações em assuntos políticos e causas sociais (Marina Silva, por sinal, não é muito querida pelos meus amigos). Não estou generalizando e nem pretendo criar uma tipologia dos perfis dos usuários do Facebook, até porque isso é o que eu mais vejo, e não tudo o que vejo. E, mesmo assim, quase não sobra espaço para reflexões sérias. Por quê?
A resposta é simples: porque, na verdade, este não é o objetivo primordial do Face, mas justamente o seu oposto. O vício na rede é a confissão (in)direta do tédio e de uma sociedade que não se propõe a refletir seriamente o que ela está vivendo. A intenção é exatamente a desfocar e deslocar o indivíduo. E, antes que alguém pense que estou generalizando por demais, sei que há exceções também. Lembrando: é o que mais vejo. Inclusive, um amigo historiador tem compartilhado este pensamento em sala de aula para mostrar aos alunos o quanto as redes são capazes de distraí-los por completo e perderem quase toda a concentração e raciocínio no que estão fazendo.
Para que uma rede como o Facebook sobreviva, uma moda deve ser criada dia após dia. São "desafios" atrás de "desafios" completamente sem sentidos, ou que mereçam, no mínimo, um curso de reflexão antes de serem exercidos. Há um bom tempo, o Facebook vem sendo desafiado a sobreviver com esses desafios. Aliás, desafio é um nome muito injusto para futilidade, superficialidade ou mesmo infantilização, pelo menos na maior parte dos casos.
Recentemente, dois "desafios" têm provocado inquietações. O primeiro já nem tão em alta é o balde de gelo. Nos Estados Unidos, o desafio original é: quando você é desafiado por alguém, ou doa 100 dólares em prol de uma causa nobre ou doa 10 dólares e vira um balde de água com gelo na cabeça. Muitas instituições receberam altos valores através dessa brincadeira, em especial as destinadas a tratarem de pessoas que sofrem de esclerose lateral amiotrófica. Claro que ajudar é sempre bom, mas mesmo assim me pareceu haver algo errado em toda essa história. A sensação é a de que o divertido é pagar menos porque ver celebridades e "pessoas comuns" levando o balde de água com gelo não tem preço. Oras, já que é para ajudar, não seria melhor que os pacientes recebessem mais e que não houvessem baldes com água e gelo? Para fazer o bem ou ajudar o próximo precisamos desse tipo de incentivo? Só em uma sociedade que vive à base do espetáculo...
O segundo "desafio" é o da foto sem maquiagem. Quando soube disso, definitivamente me convenci de que preciso urgente de uma abdução. E notem que agora para qualquer desafio a desculpa é sempre a mesma: a tal da conscientização. Parece que consciência todos têm, mas capacidade de reflexão não. O que está por trás disso? Pseudo-discursos. Pois se é de maquiagem de que se fala, vamos então falar da maquiagem social. Qualquer um deveria saber que o Facebook tornou-se um ringue para se ver - e provar! - quem é mais feliz, quem só vive de vitórias e quem está sempre bem. Por trás disso, estão pessoas que carregam seus fardos diários, e isso sim é natural, e não foto sem maquiagem. Sofrer é natural, estar triste é natural e não ser o Super Homem ou a Mulher Maravilha também é absolutamente normal. Temos muito medo e vergonha de assumirmos quem de fato somos com todas as nossas angústias e imperfeições porque precisamos de aceitação social, como afirmei no post anterior sobre os selfies. Ah, Raquel, mas que bobagem, é só uma brincadeira de foto sem maquiagem...
Temos uma ferramenta boa à nossa disposição e poderíamos usar para conseguirmos avanços nas esferas básicas da sociedade: educação, cultura, política, trabalho e outras. E o momento é muito oportuno. Será que novamente deixaremos escapar? Provavelmente. As pessoas evitam tudo o que dá muito trabalho.
Aguardemos o próximo desafio - ou teste de sobreviência.
Observações:
1 - Felizmente, há grupos no Facebook com discussões sérias a respeito de acontecimentos locais, regionais ou em escalas maiores.
2 - Bem que afirmei que esta publicação teria caráter ideológico específico, pois este blog também não tem maquiagem!
Um dos imperativos de nossa sociedade é "qualidade de vida". Este é um termo que já algum tempo vem se tornando popular e vem sendo usado por muita gente. Mas em que esta qualidade consiste? Embora haja diversas definições para este conceito, pode-se dizer que existe um consenso: é aquilo que consideramos importante para viver bem. Para se viver bem, o equilíbrio entre corpo e mente é fundamental.
O equilíbrio entre corpo e mente é fundamental para se viver bem e com qualidade de vida. Fonte: Mércia Fernandes
Assim, qualidade de vida requer muito de nós, especialmente nos dias de hoje, onde nos falta tempo e, mesmo assim, estamos mais exigentes. Ela passa, necessariamente, por todas as emoções consideradas boas e pela auto realização: bem-estar, felicidade, prazer, ter um bom emprego, uma boa casa, um corpo saudável e bonito.
O tempo todo especialistas nos dizem como nos alimentarmos bem, como ter um sono tranquilo, como obter sucesso no trabalho, quais exercícios físicos temos que fazer de acordo com nosso corpo e nossas necessidades, o lazer mais adequado, as conquistas que nos motivam mais, como pensar, o que desejar e os males que o estresse pode causar. Ufa! É possível seguirmos todas essas recomendações se normalmente passamos mais de um terço do dia trabalhando? Talvez seja por isso que a tal qualidade de vida anda tão em baixa para muitos, como a autoestima. Precisa de muito para aparecer charlatões da autoajuda? Todos dizendo as mesmas coisas, como "invista em você", "acredite na sua capacidade", "lute que você conseguirá tudo o que quer". Não é bem assim que as coisas funcionam.
A qualidade de vida é, muitas vezes, confundida com uma vida perfeita. Este seria o ciclo ideal. Fonte: Você realmente sabia?
Acontece que decidimos buscar a todo custo os padrões tido como aceitáveis para uma vida qualitativamente boa e feliz. Esta busca nos soa como imposição e acabamos nos sentindo frustrados por não atingir todos os ideais que estão no roteiro da "vida perfeita" (cá entre nós, é uma fantasia acreditar em vida perfeita). Sem contar a dedicação exclusiva por um corpo perfeito segundo os padrões do que se considera belo na sociedade de aparência que vivemos. As pessoas se tornam escravas nesse processo de busca inalcançável, como se não fosse possível viver bem de outra forma, com um corpo que foge dos padrões. E este é o "x" da questão: se observarmos bem, veremos que nem sempre é a saúde que está em jogo, mas a estética.
É óbvio que os meios de comunicação têm grande responsabilidade e corroboram com esta imposição, pois um discurso, se repetido muitas vezes, torna-se uma verdade. Infelizmente, o sistema do qual fazemos parte produz constantemente novas necessidades e associam-nas à felicidade e à qualidade de vida. Este é um dos motivos que nos fazem ter a sensação de que parece estar difícil ser feliz com frequência e o estresse tem falado mais alto nesses "tempos nervosos" para todos nós. Precisamos, com certa urgência, repensar esses valores. Não podemos simplesmente aceitar esses discursos com naturalidade, ou então estaremos, de fato, condenados à infelicidade e a uma vida sem qualidade alguma. É isso que estamos buscando?
Os dados são alarmantes. Metade da população brasileira com mais de 18 anos está acima do peso. Depois de assistir ao documentário Muito além do peso (direção de Estela Renner), penso ser urgente a necessidade de rever todos os setores ligados à alimentação, especialmente a infantil. Começo esta publicação apresentando alguns números retirados do filme. 33,5% das crianças brasileiras estão com sobrepeso ou obesas. Um pacote da batata Ruffles possui cerca de 77g de gordura. Se uma pessoa ingerir uma lata de refrigerante por dia durante um mês, ela estará consumindo, em média, mais de 1kg de açúcar. O curioso é que, mesmo sendo mostrado às crianças que foram entrevistadas no documentário, praticamente todas afirmam que continuarão a ingerir refrigerante frequentemente. Ou, como diz um garoto, continuará "abrindo a felicidade", referindo-se à Coca-Cola.
Está estatisticamente comprovado: as crianças que ficam muito tempo em frente à televisão tendem a ganhar mais peso. E elas não ficam pouco tempo: assistem, em média, cinco horas de televisão diariamente. A mensagem que Estela Renner procura transmitir é a de que as crianças convivem com um excesso de telas que proporciona o sedentarismo. A tela da televisão, do videogame, do celular, do computador, do tablet.
Como a criança não é capaz de pensar de forma autônoma, sua imaginação associa a ideia de brincar com a de utilizar esses aparelhos. O corpo dificilmente está em movimento. Para usufruir de todo o aparato tecnológico permitido pelos pais, basta apenas utilizar os dedos. Claro que este problema está ligado à falta de segurança que as ruas proporcionam. Os espaços amplos e públicos de lazer têm diminuído bastante. Desde cedo, as crianças estão aprendendo a lidar com confinamentos. No entanto, os adultos não devem se iludir ao pensarem que deixando os filhos em frente à televisão estarão seguros dos males. Ao contrário. Os empresários, que de bobos nada têm, entopem a televisão de publicidades que incentivam o consumo de bens supérfluos e alimentos nem um pouco saudáveis.
É comum vermos alguns personagens de desenhos infantis ou do cinema como brindes ou em embalagens de produtos alimentícios como biscoitos, chocolates, bolinhos e salgadinhos. É uma tentação infindável e abusiva, tanto quanto a publicidade que a sustenta.
Um dado importante para nos atentarmos também é o fato de esses produtos ruins para a saúde e geradores de doenças como diabetes, hipertensão e aumento de colesterol serem mais baratos do que os alimentos saudáveis. Se para nós soa absurdo uma criança não conseguir diferenciar uma manga de um melão ou um pepino de um abacate, podemos simplesmente ignorar os dados apresentados?
Certamente muitos pais de filhos obesos têm a sensação de terem fracassado em algum ponto. Embora sejam os principais responsáveis pelo desenvolvimento da criança, existem circunstâncias externas que contribuem para a obesidade. Novamente mais um dado: nos Estados Unidos, o governo federal gasta em torno de 51 milhões de dólares para a divulgação hábitos alimentares saudáveis e exercícios físicos, ao passo que 1,6 bilhões de dólares são gastos pela indústria alimentícia em marketing de produtos com alto teor calórico e pouco nutritivos. O senso de responsabilidade, pelo visto, passa cada vez mais longe das corporações e empresas publicitárias.
Além disso, quando se trata de educação, infelizmente a maioria das crianças estão inseridas na lógica da mercadoria e das contradições. As cantinas escolares estão cheias desses alimentos. Se um aluno resolve levar uma fruta para comer no intervalo, ele provavelmente se sentirá intimidado diante das guloseimas que estão no cardápio diário de seus colegas. Então se falta estímulo, o quadro se torna mais difícil de ser revertido.
O que Estela Renner sugere, e com muita razão, é que aulas de educação alimentar façam parte do currículo escolar. Não se resolve um problema complexo com palestraras, do que pode e do que não pode, porque isso todos nós já sabemos. Ela mesma afirma: "Como se trata um alcoólatra? Basta dizer "não beba"? Não. Você oferece terapia, você dá remédio, dá carinho, dá conforto. Com uma criança - e mesmo com um adulto obeso - é a mesma coisa. Não pode falar "não coma"."
Muito além do peso é imperdível e pode ser visto no Youtube.
Relendo alguns artigos que estavam muito bem guardados (a ponto de eu me esquecer que os tinha), encontrei um muito interessante e pensei que poderia render uma boa reflexão. O referido artigo, cuja autoria é de Bob Herbert, foi publicado no The New York Times em julho de 2010, mas se estivesse exatamente hoje em alguma coluna de um periódico, não teria perdido o sentido, em nenhum aspecto. O nome do artigo é polêmico: Tweet Less, Kiss More, ou seja, "Tuitar menos, beijar mais". A Folha de São Paulo publicou a tradução no período em questão.
O texto aborda a relação de dependência existente entre os indivíduos e as tecnologias - com o fator agravante de que elas estão nos controlando cada vez - e como estamos lidando com a velocidade do tempo em função desse desenvolvimento tecnológico. O termo que Herbert utiliza é muito adequado: tecnotirania. Inclusive, faço questão de mencionar duas situações que presenciei.
Na primeira situação, estava em um bar e havia um casal sentado na mesa ao lado. O casal simplesmente não estabeleceu um diálogo, não houve uma troca sequer de olhares durante todo o tempo que estive lá porque cada um estava compenetrado e entretido com o seu celular. Apenas em um momento a garota mostrou alguma coisa para o rapaz. Mesmo assim, não se olharam e não conversaram. Comeram a pizza quietos e com os aparelhos bem próximos, quando não mexiam enquanto se alimentavam e bebiam.
A segunda situação foi bem similar. Saí com uma turma de amigos da minha irmã. Embora todos estivessem sentados bem próximos e aparentassem ser boas pessoas, enquanto eu cantava junto com a banda que estava se apresentando no local, os outros estavam com os celulares em mãos. E não conversaram entre si. Saí arrasada, tamanha decepção. Aquela imagem me marcou como uma das grandes contradições dos nossos tempos: um grupo junto, mas completamente separado. Corpos físicos presentes, pensamentos nem um pouco sintonizados, mentes focadas em quem está ou não respondendo a mensagem no WhatsApp neste exato momento.
Por falar em redes sociais, certa vez assisti a uma entrevista muito interessante com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em que ele afirmou o seguinte: "um viciado no Facebook me segredou, não me segredou de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso. Então, provavelmente, quando ele diz 'amigo' e eu digo 'amigo', não queremos dizer a mesma coisa".
Minha mente reuniu o artigo, os acontecimentos pelos quais passei e a declaração de Bauman. Iniciei um profundo debate comigo mesma, pensando no que leva os jovens da contemporaneidade a enxergar o celular, seus aplicativos e as redes sociais como um cilindro de oxigênio, sem o qual é praticamente impossível respirar e viver. Qualquer observador sabe que não estou exagerando.
Uma possível explicação seria a de que as redes sociais funcionariam como uma espécie de rota de fuga para compensar a solidão. Paira no ar um fato praticamente indiscutível, inclusive entre especialistas: quanto maior a convivência no mundo virtual, mais o nosso universo real se torna vazio e desprovido de sentido. Não é estranho nos depararmos com jovens que se sentem solitários e deprimidos, ainda que aparentemente demonstrem o contrário. O plano A é sempre a rede social ou os aplicativos dos celulares.
Alguém pode pensar que, afinal de contas, "isso é normal, faz parte da vida dos jovens modernos". Nenhum tipo de dependência é normal. Outro argumento que pode ser dito: "ora, não sou dependente, eu até que uso bastante, mas sei me controlar". Problema resolvido? Nem em sonho, literalmente. Alguns estudos estão nos mostrando que aqueles que permanecem por muito tempo nas redes sociais podem desenvolver diversas alterações no corpo e na mente, como insônia, estresse (já repararam o quanto as pessoas perdem tempo em algumas páginas do Facebook, ou sites discutindo com outros que não concordam com o seu posicionamento?), angústia e ansiedade, além de provocar baixa autoestima. Muitos tendem a avaliar a vida de outras pessoas nas redes sociais como uma vida perfeita, digna e feliz, quando na verdade todos compartilham um certo complexo de inferioridade. O importante é aparentar estar feliz o tempo todo e ostentar tudo o que pode fazer do indivíduo alguém "melhor", sobretudo nas fotos. Outra necessidade é a de se manifestar diante de um acontecimento terminando com moralismo ou simplesmente deixando... um beijinho no ombro para o recalque passar longe, o que nos leva a acreditar na necessidade de auto-afirmação das pessoas.
Estes sintomas tornam-se claros quando reconhecemos a falsa sensação de estarmos acompanhados ou rodeados de amigos e seguidores. Todas as "curtidas" não implicam em admiração na vida real, ninguém curte de verdade. Mas as curtidas virtuais provocam sensações reais, eis o grande problema. Um exemplo banal: elogio. As pessoas não elogiam tanto pessoalmente quanto virtualmente. As conversas prolongadas ocorrem muito mais através da interação no ciberespaço do que "olho no olho" e "face a face", algo que estamos perdendo definitivamente. Os indivíduos, especialmente os mais jovens, estão cada vez mais imersos numa lógica aparentemente sem sentido: o fato de passar a maior parte do tempo nas redes sociais estimula a sensação de esvaziamento da vida. A sensação que tenho é a de que não estamos tão distantes da realidade que nos é apresentada em Blade Runner.
Fonte: Timeglass Journal
Não quero dizer, após apresentar essas reflexões, que devemos nos desfazer dos celulares, abandonar os jogos, o Twitter, o Facebook e todas as outras formas de entretenimento virtual. De uma forma ou de outra, vivemos num mundo com novos estímulos, símbolos e recursos que podem facilitar nosso cotidiano, ou mesmo nos distrair. Porém, o império tecnotirano não tem nos conduzido a uma vida mais fácil e feliz. No fundo, a ideia é simples: nossa existência não se resume às redes ou à tecnologia para simplesmente nos deixarmos envolver por elas a ponto de nos controlarem. A vida é maior que tudo isso e o universo dialoga com a gente para mostrar que esse algo maior é possível e não pode ser encontrado, em hipótese alguma, no mundo virtual.
Para encerrar nossas leituras sobre o carnaval, nada melhor que o olhar antropológico de Roberto DaMatta. Este texto faz parte de uma obra maravilhosa intitulada "O que é o Brasil?", na tentativa de compreender melhor nosso país, nosso povo e nossa cultura.
O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer
Todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festas, os rituais, as comemorações.
[...] No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva.
[...] Na festa, comemos, rimos e vivemos o mito da ausência de hierarquia, poder, dinheiro e esforço físico. Nela, todos se harmonizam por meio de roupas especiais, comidas singulares e, muito especialmente, pela música que congrega e iguala no seu ritmo e na sua melodia.
No caso do Brasil, a maior e mais importante, a mais livre, criativa, irreverente e popular é, sem dúvida, o carnaval. Aliás, nessa festa, a própria definição já perturba, pois que dispensa os elementos da ordem, da esfera política e moral, básicos das outras festas. O carnaval não pode ser sério, senão não seria um carnaval...
Mas qual a receita para o carnaval brasileiro?
Sabemos que o carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo excesso - mas como excesso de prazer, de riqueza (ou de "luxo"), de alegria e de riso; de prazer sensual que finalmente fica ao alcance de todos. [...] Com isso, o carnaval inventa um universo social onde a regra é praticar todos os excessos.
Por isso, o carnaval é percebido como algo que vem de fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistível que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. [...] Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que extraordinário é esse que ele tão criativamente inventa?
O carnaval é um ritual de inversão do mundo. [...] No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo pelo uso do corpo como instrumento de beleza e prazer. No trabalho, estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No carnaval isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o corpo é gasto pelo prazer e pela "brincadeira".
[...] O carnaval também promove a troca dos uniformes pelas fantasias. Se o uniforme é uma vestimenta que cria ordem e hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posições. E a fantasia é tanto o sonho acordado quanto aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos e o que poderíamos ter sido ou o que merecíamos ser. A fantasia liberta, "desconstrói", abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo. Ademais, ela torna possível passar de "ninguém" a "alguém"; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica.
É precisamente por estar vivendo uma situação na qual as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores, dos "elementos" que entram na fila e das "pessoas" que jamais são vistas em público como comuns.
[...] No carnaval, nós, brasileiros, cantamos e, geralmente, podemos fazer o que cantamos. [...] Ali, todos podem exercer o direito de interpretar o mundo do seu jeito e a seu modo. Do mesmo modo, a crítica social mais ácida e a crítica política mais acesa, que pode dar em prisão e censura, são realizadas abertamente, tanto quanto a competição, que todos temem como algo monstruoso, mas que é também aceita em todos os carnavais brasileiros, construídos por meio de inúmeros concursos.
De fato, no carnaval, há competição para tudo: músicas, fantasias, maior capacidade de exibir-se e, naturalmente, a disputa dos blocos e escolas de samba.
[...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de "quem conhece o seu lugar" - algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política.
[...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto...
Nesta segunda publicação sobre o carnaval, o Sociologia e Opinião traz trechos de uma entrevista com o cantor e compositor Martinho da Vila, em fevereiro de 2011, mesmo ano em que um incêndio atingiu os barracões das escolas de samba Portela, Grande Rio e União da Ilha, do Rio de Janeiro. Uma real interpretação dos eventos carnavalescos e uma entrevista que ajuda a compreender melhor o que se passa por trás de todo o luxo e glamour da Marquês de Sapucaí (de acordo com o próprio Martinho da Vila, para uma escola ser competitiva, tem que gastar uns R$ 5 milhões).
Pobres e ricos se misturavam no carnaval?
Os ricos brincavam em outro local, nos clubes, nos corsos, nos ranchos. Isso foi caindo e a escola de samba absorveu tudo. [...] E, aí sim, com as escolas de samba, é que começou a haver a mistura entre pobres e ricos. Só que perdeu a interação com a cidade. Noutros tempos, o rádio só estaria tocando música de carnaval neste mês. O carnaval não é mais vivido por muito tempo. Passa logo. Hoje o dinheiro está mais presente e tudo ficou muito ligeiro. A velocidade do cotidiano influencia o carnaval de maneira marcante. Ninguém tinha muita pressa quando não havia organização oficial. Os blocos saíam na hora que quisessem, ficavam na rua o tempo que quisessem.
A organização deixou o carnaval chato?
A organização fez a escola de samba ganhar uma importância enorme. Era uma coisa inicialmente só de sambista do morro, hoje é de toda a sociedade. Então, até a TV resolveu entrar nesse lance, porque viu uma oportunidade de lucrar. O carnaval não era uma atividade lucrativa e nem era esse o objetivo. Mas assim vai ficar, porque as coisas não voltam para trás.
Quanto do carnaval é dinheiro e quanto é paixão hoje em dia?
Tudo é comercial, precisa gerar receita. Ninguém faz nada mais por prazer. O carnaval está completamente fora de sua origem. Virou indústria. O cara que é da escola de samba, que participa efetivamente, não precisa de dinheiro para sair no carnaval. Ele não paga fantasia. Os que vêm de fora e pagam ajudam a bancar o sambista. Em contrapartida, para você desfilar numa escola de samba, se for da comunidade, tem que participar obrigatoriamente dos ensaios. Ensaio de escola de samba só falta ter cartão de ponto. Quem não aparece perde a fantasia. Mas o sujeito gosta, aquilo é importante para ele. Não por causa da televisão, porque ele quer ser visto, nada disso. O cara do morro gosta da escola porque ela continua sendo a única opção de lazer dele. Ele não tem clube com piscina. Tá longe da praia. Então a escola vira a vida do cara. Como alegria de pobre é pouca, a escola tem essa função: de alegrar, divertir, distrair.
Os ditos moradores do asfalto têm ligação, têm proximidade com o dia a dia da escola?
A maioria não tem ligação. Mas, como a escola de samba não é mais só do sambista, ela é de todos agora, e é uma coisa apaixonante, o cara do asfalto vai a um ensaio e é imediatamente contaminado, fica louco. É uma magia difícil de explicar. Inclusive, esse pessoal da sociedade também se submete às regras. A top model que vira madrinha da bateria tem que ir ao ensaio. Se não for, trocam ela.
Quem ganha mais com as celebridades no carnaval: elas mesmas, a escola, a TV?
Há uma troca. O cara que sai na bateria não tem condição de ver uma estrela fora da TV ou da revista. Então, quando ela vai à quadra, o cara se sente honrado. Já o artista vive de cartaz, então celebridade desfila para aparecer, não por desfilar. Eu acho bom, porque mistura as classes sociais.
No sambódromo essa mistura é menor, não é? Tem camarote pra uns, arquibancadas na chuva pra outros...
Ah, mas isso é o Brasil. A seleção em nosso país se dá pelo dinheiro. Para socializar o camarote só quando a sociedade brasileira estiver mais equilibrada. Por enquanto é o lucro que manda. Por isso o carnavalesco é profissional, os mestres-salas, as porta-bandeiras... Todos eles são funcionários contratados pelas escolas.
E você gosta que seja assim?
Não gosto. Eu preferia no passado, quando todos se sentiam donos da escola e se esforçavam para fazer a coisa acontecer. Os moradores iam varrer a quadra, vender cerveja nos ensaios... Hoje, não. Todo mundo ali está trabalhando. A Vila Isabel tem uns 400 empregados. Por um lado é bom, porque dá emprego, mas mata a paixão. Até no carnaval o capitalismo venceu. Antigamente, a glória de um sambista era ter seu samba cantado na avenida. Hoje tem resultados financeiros no jogo. Para seu samba ser escolhido, você tem que contratar um puxador que vá defendê-lo na quadra em todos os ensaios. Um puxador, dois ritmistas e um cavaquinho. Isso custa dinheiro. De graça ninguém faz mais. E o puxador pode ser nascido na Portela, por exemplo, mas é contratado pelo compositor para defender o samba da Vila Isabel. E ele vai, claro, pra ganhar um dinheiro.
Isso soa tão anti-carnaval...
As escolas estão quase como os clubes de futebol. Eles não têm mais jogador, que pertence a empresários, patrocinadores, a todo mundo menos ao clube. As escolas também não têm mais o seu mestre-sala, o seu diretor de bateria. Terminou o carnaval, começam as contratações. As escolas disputam o diretor de harmonia que foi bem naquele ano, o mestre de bateria mais premiado... Neste ano, quando der abril já vai estar todo mundo contratado, e possivelmente por uma escola diferente da que desfilou.
O carnaval também faz parte do debate sociológico. Publicarei no blog três leituras e interpretações a respeito da maior festa no Brasil. A primeira é um artigo do sociólogo José de Souza Martins.
A apoteose dos corpos insubmissos
Sempre houve uma certa expectativa quanto a quem será desancado ou quem será bajulado na relativa surpresa dos nossos desfiles carnavalescos e na ordem invertida que representam. O carnaval nos chegou de Portugal, como entrudo. Trouxe-nos a medieval cultura das inversões simbólicas das identidades e dos poderes nos três dias de festa. Na cultura do avesso, assimilou manifestações centradas na tensão do corpo com sua dominação social e política, vindas de grupos negros e indígenas.
O carnaval tornou-se o momento da pública exposição dos acontecimentos do ano e de suas figuras à mordacidade da crítica popular ou à sua bajulação. É o momento da manifestação do corpo insubmisso, como instrumento de um discurso gestual da contrariedade. Momento em que os grandes pagam pelos desaforos feitos aos pequenos. Mas, também, hora em que o puxa-saquismo se torna monumental, na visibilidade de uma gratidão material ou política carregada de malícia. É a hora do troco, em que a força subversiva do imaginário do povo se dá a ver nos enredos dos sambas, nas cores e nas alegorias de carros e fantasias, nos desfiles de cordões e escolas de samba, no Rei Momo, monarca do faz-de-conta, o anti-poder de três dias. É o momento dos fracos contra os fortes, da sociedade contra o Estado, da rua contra as instituições. O carnaval é um acerto de contas anual, o intervalo de um corrosivo tempo de deboche.
Não é só o presente que cai na pancadaria simbólica dos carnavalescos. O passado inteiro está sujeito a apreciações sem cerimônia, em que nunca se sabe se a narrativa dos sambas-enredo são irônicas por intenção ou por desinformação. De qualquer modo, é sempre prudente recomendar aos estudantes que a melhor fonte do conhecimento histórico ainda é o livro.
Mas é também o momento do corpo contra o espírito, do desejo contra a continência e a repressão, do proibido contra o permitido. Não é apenas feliz acaso que o nome da primeira escola de samba do Rio de Janeiro tenha sido Deixa Falar, uma insurgência contra a língua comprida e a dominante sociedade dos linguarudos, da polícia e dos comentadores da vida alheia, da "decadência" oficial contra a "indecência" popular, da repartição pública contra a rua e o povo. Não é à toa que, em carnavais de outros tempos, e hoje menos, as pessoas se fantasiassem, ou se fantasiem, de seus contrários, homem vestido de mulher, mulher vestida de homem, adultos vestidos de bebês, de "mamãe-eu-quero-mamar", mascarados vestidos de demônio nesse tempo de ritual e anjos decaídos. É o embaralhamento das identidades, no vestuário e nas máscaras carnavalescas em que traços do antagônico são ressaltados para expor as fisionomias reais, do perverso, do sovina, do corrupto, do oportunista, que se ocultam nas dissimuladas fisionomias cotidianas. É a personificação crítica das alteridades que demarcam repressivamente nossa nem sempre fácil vida de todo dia. É a máscara que permite transgredir sem ser reconhecido nem ser punido. A transfiguração de cada um naquele que não é. É, sobretudo, o duplo sentido do dizer oculto.
O carnaval é o momento mais forte e significativo de exposição da centralidade do corpo na nossa cultura, como referência problemática da realidade social. O corpo nu e natural é apenas adjetivo, apenas ponto de reparo e referência da construção do corpo imaginário e social, o corpo que pode ser "lido", situado e compreendido. Desde o nascimento, as crianças são trajadas de maneira a adquirirem a identidade que as situará no mundo, a cor da roupa, o brinco da menina, os brinquedos. Os ritos de casamento são, basicamente, ritos de fecundidade, sacralização da troca biológica de sangue entre os esposos, modo de assegurar a antecipação cultural e social dos corpos que serão gerados, simbolicamente concebidos desde antes de existirem. Nesses processos, o corpo é situado nas tensões da vida e da morte, do transitório e do eterno, do mortal e do imortal. O carnaval desveste o que os poderes vestiram.
Ele é bem mais do que crítica social e política. Nele se expressam essas tensões constitutivas do humano, no pouco caso das fantasias de caveira e de demônio, na exorcização do medo e da morte, na negação do sobrenatural no corpo liberto, até mesmo nos extremos da nudez em desfiles de escolas de samba. No fundo, o carnaval é um contra-rito religioso. Inscrito na véspera da Quaresma e do tempo do luto e da dor, é o tempo do desejo e da euforia, que precede um tempo de jejum e de punição ritual do corpo, um tempo de purgação da pecaminosa carnalidade do homem. Antes desse recolhimento litúrgico, a licença do carnal, não só o da sexualidade, mas também o do apetite, sujeitos às interdições rituais e à fria temperança da Quaresma. O carnaval é um intervalo cíclico de transgressão consentida, que no temporário da festa liberta o corpo desordenador e da desordem consentida que dele resulta. Não por acaso, o carnaval é o tempo da folia, da loucura e da multidão.
Embora seja um intervalo no tempo herdado da liturgia religiosa, da qual muitos estão cada vez mais distantes, é no carnaval que a crise social e as mudanças de longa duração, quase imperceptíveis, se manifestam no curto tempo do desabafo. Na perspectiva desse tempo longo é possível notar que, na sua substância, o carnaval está acabando lentamente. Não só porque se torna progressivamente um empreendimento comercial sujeito a regras empresariais, que em tudo negam a insurreição livre do corpo e do desejo. Mas, também, porque no cotidiano elementos de identificação carnavalesca do corpo estão agora presentes e não só entre jovens. É muito significativo quando tatuagens e piercings, adornos corporais permanentes, se tornam cada vez mais complementos de uma nudez semi-oculta, mas proclamada. Uma negação explícita da transitoriedade ritual do carnaval e uma desconstrução do corpo submisso, uma forma de dizer que a insurreição de três dias se torna a insurreição visual de um ano inteiro - e se esvazia.
Publicado em 07 de fevereiro de 2008 no caderno Aliás, do Estadão.
Por que os rolezinhos estão causando tanto impacto nas mídias e redes sociais? Porque dividem o público e, sobretudo, revelam algumas das contradições sociais existentes.
Embora os rolês estejam ganhando visibilidade nos últimos dias, eles tiveram início em dezembro. Só para se ter uma ideia, no sábado, 14 de dezembro, houve um encontro num shopping da região de Guarulhos. Não foi registrada uma ocorrência sequer. Sem roubos, sem "arrastão", sem algo considerado ilícito. Mesmo assim, 23 jovens foram encaminhados à delegacia. Este já era um indicativo do que aguardava esses jovens nos rolês que se sucederam.
O estopim se deu no Shopping Itaquera no último final de semana. Houve repressão por parte da polícia que, por sinal, há tempos vem utilizando a "legitimidade do uso da força" em favor dos interesses das elites e colaborando demasiadamente para a discriminação social dos grupos que se encontram à margem da sociedade. Houve sensação de terror: lojas foram fechadas, pessoas correndo por todos os lados.
Após o tumulto, jornais se encarregaram de pautas e coberturas sobre os rolês. Enquanto isso, diversos shoppings foram atrás de liminares na justiça para impedir que os rolezinhos acontecessem dentro de seus estabelecimentos, como o JK Iguatemi. E foi aí que o problema começou. Ou melhor, uma nova faceta de um problema antigo surgiu.
Histórico
Fonte: Portal Ctb
Em fevereiro de 2012, aproximadamente 300 manifestantes da Marcha contra o Racismo realizaram uma manifestação partindo do Largo Santa Cecília em direção ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Lojas fecharam e seguranças tentaram impedir a entrada. Em novembro de 2013, o Shopping Parangaba, em Fortaleza (CE), foi o palco de repressão e humilhação de jovens negros. Em dezembro, o mesmo ocorreu em Vitória (ES). Os rolês em São Paulo representam uma variação. Mas, no fundo, estão querendo passar a mesma mensagem, que abordaremos adiante.
Está claro o preconceito
Muita gente procurou mostrar que, na verdade, o que existe é preconceito. Enquanto os rolês dos jovens das regiões periféricas, em sua maioria negros, estão no auge da repercussão midiática, cercados de comentários preconceituosos, pouco se ouve falar do famoso "rolê" dos estudantes/calouros da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) no shopping Eldorado que ocorre anualmente, e há pelo menos 7 anos. Assim como o rolezinho, os alunos, em sua maioria brancos, entram num grande grupo, gritando palavras de ordem e seguem cantando para comemorar o ingresso na universidade. Não há repressão e as lojas não são fechadas. Os clientes não temem por um arrastão. A ordem parece não ser perturbada. Se levarmos em conta as reações das pessoas em cada caso, está ou não está clara a existência do preconceito, inclusive por parte da mídia? Será que este ano o PIG (Partido da Imprensa Golpista) se lembrará de mostrar a festa dos "bixos" da USP?
Rolês e Rolos: como são vistos
Como nem só de comparações se criam argumentos, deixemos os calouros da USP pra lá. Para desenvolver minha análise sobre os rolezinhos, começarei publicando o comentário da jornalista Rachel Sheherazade, que considero uma das grandes manipuladoras da massa televisiva.
E o que o público que condena os rolezinhos diz de tudo isso? Bem, esta semana encontrei uma notícia da Folha de São Paulo no Facebook com a seguinte manchete: "Em apoio a jovens de São Paulo, cariocas marcam rolezinho em shopping no Leblon". Os comentários são taxativos: "Rolezinho na biblioteca esses vagabundos não querem fazer"; "Por que não fazem um rolezinho na cadeia?"; "Em apoio à PM de São Paulo, a PM do Rio vai descer o cassetete no pessoal do rolezinho. Com toda razão!"; "Trabalhar que é bom essa cambada de desocupado não quer né?". E assim por diante. Outros comentários que li ou ouvi algum entrevistado dizer: "maloqueiros", "vândalos", "bandidos".
Poucos sabem, contudo, que grande parte desses jovens já trabalham, muitos na informalidade, e que realizam atividades mal remuneradas. Quer dizer que todos que participam do rolezinho merecem cadeia, sem estarem fazendo nada que seja considerado um crime? Os shoppings só correm o risco de serem assaltados nessas ocasiões ou a memória está curta e há muita falta de informação? Porque um jovem se atreveu a fazer parte do rolezinho ele tem que apanhar da polícia e ser hostilizado? Tem algo errado aí. Os comentários revelam uma discriminação de "cara lavada" porque a maioria dos indivíduos acredita que esses jovens não sabem qual é o seu lugar e alguém tem que lhes mostrar.
Agora, vamos responder ao primeiro comentário. Por que não fazem o rolê na biblioteca? Ora, parece óbvio. Dou a resposta nas palavras de Juninho Jr, um dos organizadores do rolezinho: "A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com este sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupados pelo andar de cima, aí gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela opressão" (entrevista ao Brasil de Fato). Os jovens da periferia são obrigados a engolir o tempo todo o discurso do consumo e do status, e os shoppings acabam constituindo o local ideal de lazer.
Qual é a dos shoppings?
Os espaços públicos estão desaparecendo. As atividades consideradas culturais (teatros, cinemas, livrarias, jogos) têm sido absorvidas pelos shoppings centers. São locais privados, mas abertos a todos os indivíduos. Acontece que a ideia que se tem de um shopping normalmente é a de um templo, não religioso, mas onde consumir é praticamente um ritual, e dos mais fiéis. Sendo assim, shoppings reúnem amigos, familiares e desconhecidos no mundo do comércio. Se, por um lado, constituem um lugar onde algumas pessoas passam muitas horas de lazer e vivem boa parte de sua vida social, por outro, esses ambientes sustentam um meio artificial de cultura, porque possuem como finalidade a compra de bens e entretenimento - sem contar que também são locais que procuram adestrar o comportamento dos indivíduos.
De uma forma ou de outra, os jovens dos rolezinhos também querem ter acesso e usufruir dos bens materiais que funcionam como signos: são representações de poder, reconhecimento e status.
Questionaram o famoso direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, independente de raça, classe econômica e social, etc. Com as liminares que foram concedidas, questionou-se a discriminação por parte da própria justiça, uma justiça que atua em favor da manutenção da desigualdade, como se os shoppings fossem locais exclusivos de um grupo. Para o jornalista Rodrigo Vianna, "o 'rolezinho' demonstra o paradoxo da elite brasileira, que por um lado quer crescimento econômico, mas por outro quer manter os de pele marrom confinados na senzala".
Os defensores do rolezinho começaram a falar em apartheid racial e social e foram imediatamente taxados de burros, tamanha aberração falar em apartheid. A minha pergunta é: as fronteiras, visíveis e invisíveis, de uma cidade como São Paulo, são tão imperceptíveis assim? Se analisarmos a cidade, e não precisa ser especialista para isso, veremos que os bairros estão claramente divididos; podemos distinguir o que é periférico e o que não é, podemos distinguir os níveis econômicos sem grande esforço: sabemos muito bem quais são os bairros nobres, os da dita classe média, os de baixa renda. É inegável que existe uma segregação e que esta afeta as possibilidades de acesso a determinadas áreas e o usufruto de bens materiais e culturais.
Muitos chegaram a comentar que não era necessário ir em "bando" para o shopping; a ideia é mais ou menos assim: "todo mundo tem direito de ir ao shopping, mas ninguém vai com a galera toda da rua. Qualquer um pode ir com sua turminha de amigos, mas ir aos montes já é pra chamar a atenção e perturbar". Não tenho grandes experiências em shoppings, mas nas vezes que já frequentei pude notar cenas desanimadoras. Ok, bando não pode. Então o jovem decide ir com seus quatro amigos para o templo de consumo. E o que acontece? Vemos a expressão repugnante e o olhar taxativo de alguns frequentadores para o grupinho que foi lá pra se divertir e dar o seu rolê. Moral da história: normalmente, não importa se estão em três ou em cem: mesmo que nada ocorra, o olhar denuncia. E uma verdade que custa para ser admitida: uma grande parcela de negros e/ou pobres no shopping assusta a maioria das pessoas. E se o fenômeno se tornasse comum? Certamente a elite inventaria outro lugar para frequentar, e a patética classe média pegaria o mesmo bonde, pois procura se afastar das classes populares.
Muito seriamente, os rolezinhos evidenciaram a falta de opções de lazer para a maioria dos jovens pobres. O prefeito Haddad reconheceu que na cidade de São Paulo os espaços para se usufruir variam de região para região, e que na periférica são escassos. Se o reconhecimento foi feito, é necessário agora repensar a dinâmica do lazer na cidade. Não no sentido de oferecer opções para que os jovens não frequentem os shoppings, mas para que tenham possibilidades similares.
Jovens, consumo e shoppings
Como afirmei, os shoppings são considerados templos de consumo. Dão a falsa sensação de segurança que o espaço público não oferece. Como se não bastasse, vivemos constantemente com o discurso do consumo e da felicidade interligados para o sagrado fim: a realização pessoal. Ocorre nesse processo a reprodução e propagação de um estilo de vida consumista que forma a identidade e a individualidade de todos (sim, não só dos jovens). Na busca pela realização e segurança, o consumo ganha importância e funciona como um véu para cobrir necessidades e anseios.
O consumo também funciona como uma forma de distinção das classes sociais, e isso os rolezinhos deixaram bem claro. Para fechar este posicionamento, cito um trecho de um trabalho do sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes que dá o tom da questão:
"Os jovens são mergulhados em espaços estéticos gerados pela imagem televisiva e pela visibilidade anônima da vida urbana. A valorização de espaços de consumo de classe média, como os shopping centers, apontados como área de lazer de fim de semana, indica que, mesmo em desvantagem em relação aos grupos dominantes, há uma permanente tentativa de diferenciação do lugar de origem, do próprio grupo, prevalecendo a individualização. A tentativa de se adaptar à moda vestimentária ditada pelos canais de comunicação é um exemplo desse fenômeno. [...] Assim, o que consumimos é nossa marca visível e determina inclusive nosso lugar social. O consumo, que passa a ser vivenciado como mecanismo de inserção e de status, traz a ideia de acesso a um mundo social existente em nossa volta."¹
Os rolezinhos podem ser associados, em partes, ao que o documentário Hiato nos mostra. Em 2000, manifestantes ocuparam um shopping da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como os rolezinhos, este acontecimento também gerou uma repercussão muito grande na mídia. O que há de mais interessante em Hiato são as vozes dos que nunca são ouvidos. Também temos comentários de professores universitários que tentam elucidar o episódio e o que ele representou.
No fundo, Hiato e os rolezinhos perpassam por uma questão séria, que é a do direito de acessibilidade que parece ser dado a alguns e negado a outros, como se uns fossem mais cidadãos que outros. Hiato foi dirigido por Vladimir Seixas. Tempo de duração: 20 minutos.
Nota:
1 - Consumo e identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular no Distrito Federal.
"Tu me disseste: Eu te amo. Eu te disse: Espera. Eu ia dizer: Leva-me comigo. Tu me disseste: Vai embora."
Jules e Jim é um clássico na literatura (1953) e no cinema (1962). Nesta publicação, pretendo enfatizar as semelhanças entre os trabalhos de Henri-Pierre Roché, autor do romance, e François Truffaut¹, diretor da película.
Nossa história começa na Paris do início do século XX, no ano de 1907, com o surgimento da bela amizade entre o alemão Jules e o francês Jim. O primeiro, com uma personalidade muito marcante, que tende sempre a expor suas emoções, a se exaltar e, por vezes, ter crises por conta de seus exageros. O segundo, mais introvertido e acanhado. Amantes da arte, especialmente da literatura, compartilhavam e traduziam seus poemas juntos. Apaixonados pela vida, conheciam muitas mulheres. Resumindo: trata-se de um romance, e o mérito é que foge das convenções tradicionais de relacionamento.
O filme pula a primeira parte do livro, na qual Jules pretende se casar com Lucie, uma "beldade gótica" e estudante de pintura. Também acaba não tendo sucesso com outras mulheres que são suas conhecidas ou que são apresentadas por intermédio de Jim. O ponto em comum das duas obras é uma viagem que os amigos fazem para a Grécia com o compatriota Albert, que lhes mostra uma coleção de fotos e, numa delas, notam um sorriso de uma estátua que os deixa fascinados. Os três decidem ir à ilha para "ver de perto" a estátua recentemente exumada.
Eles a contemplam por uma hora em silêncio diante daquele sorriso poderoso, e prometem que se o encontrassem algum dia em alguma mulher, iriam atrás dele.
Quando Jules e Jim retornam a Paris, conhecem a personagem mais intensa e complexa: Kathe (no filme, o nome é Catherine, mas vou manter o original), a mulher que tinha o sorriso da estátua.
Os três logo se tornam grandes e inseparáveis amigos e fazem tudo juntos ao estilo "carpe diem". A imagem mais clássica do filme - que se tornou capa do livro - é os três apostando uma corrida, na qual Kathe está com um traje masculino e ganha trapaceando.
Jules se apaixona demasiadamente por Kathe e pede a Jim para não interferir neste relacionamento, pois quer se casar com ela. Numa noite, após apreciarem uma peça de teatro², o trio passeia pelas margens do Sena e o mergulho de Kathe surpreende ambos, mais a Jules, que se mostra desesperado.
Jules e Kathe se casam, mas logo vem a Primeira Guerra Mundial e a horrível experiência das trincheiras. Jules combate pela Alemanha na Tríplice Aliança e Jim pela França na Tríplice Entente. Ambos temem matar o outro, pois nem a rivalidade dos países é capaz de pôr fim à amizade e propriamente ao amor existente entre os dois.
Com o fim dos conflitos, Jules e Jim se reencontram e o francês conhece o lar de Kathe, Jules e da pequena Sabine, filha do casal.³
A crise do casamento é perceptível para Jim e os amigos têm uma conversa franca. Jules revela que tem conhecimento dos amantes de Kathe, inclusive Albert, o mesmo que lhes mostrou a estátua. Ela também conta sua versão para Jim num outro momento.
Por fim, Jules se convence de que já não é possível manter o matrimônio e pede para que Jim se case com ela, pois não quer perdê-la definitivamente. Em nome da amizade, Jim aceita e passa a viver na mesma casa. Mas logo começam as crises, além de Kathe não conseguir engravidar. A relação entre Jim e Kathe também se torna insustentável. Paralelamente, desde o início do filme, sabemos que Jim se envolve com a francesa Gilberte. Num reencontro em Paris, Jim decide que quer se casar com Gilberte e viver ao lado da bela mulher. Fora de cogitação para Kathe; ela não consegue aceitar e o desfecho da história também é inesperado: Jim e Kathe estão no carro desta enquanto Jules os assiste. Repentinamente, Kathe vai com o veículo em direção a um rio ali próximo. Jules presencia o último mergulho no Sena.
Breve análise
Para a surpresa de muitos, inclusive do então crítico de cinema Truffaut, Jules et Jim, título original, é a primeira obra publicada de Roché, aos 76 anos! E mais: trata-se de um romance autobiográfico, com seus relatos e memórias.
Só é possível analisar a dimensão e a importância deste clássico levando em consideração a época em que foi produzido e como ainda continua tão marcante e presente. Como pudemos perceber, trata-se de um romance libertário em plena década de 1960 (que já dava seus indícios do surgimento da contra-cultura) e que, ainda nos dias de hoje, é cativante e impactante. A obra trabalha muito bem o aspecto emocional e "le tourbillon de la vie" propriamente dito, a grande canção do filme que, por sinal, apresenta uma trilha sonora lindíssima e comovente.
O que percebemos nos personagens (cada um a seu modo) é que eles, com suas contradições, defendem a intensidade das emoções: do amor, da paixão, da amizade e do companheirismo. Toda e qualquer forma de afeto revelada na trama causa a sensação de que os atores estão realmente entregues à história e estão vivendo-a de verdade. Isso faz com que as cenas se tornem puras, belas e limpas, sem recorrer a exageros ou superficialidades.
Kathe é uma personagem que merece destaque. A princípio, o diretor trabalha com a ideia de mulher ideal quando Jules e Jim encontram nela o sorriso da estátua. No entanto, a jovem apresenta uma personalidade forte e ao mesmo tempo contraditória. É temperamental e vive oscilando emocionalmente. É alguém que busca o tempo todo a atenção dos outros e, em alguns momentos, sua felicidade parece depender da infelicidade dos amigos. Kathe não mede esforços para atingir o que procura - na verdade, parece que não sabe ao certo o que busca, o que revela sua forma de se sobressair em quaisquer ocasiões utilizando-se de todos os meios possíveis, mostrando-nos seu caráter de mulher imprevisível. O modo de vida escolhido por Kathe também não soa como protesto. Truffaut afirmou: "Entretanto, e a despeito de sua aparência "moderna", o filme não tem caráter polêmico. Provavelmente, a jovem mulher de Jules e Jim quer viver da mesma forma que um homem, mas esta é uma particularidade de seu caráter e não uma atitude feminista e reivindicatória".
Jules, em conversa com Jim, define Kathe da melhor forma possível: "Não é excepcionalmente bela, nem inteligente, nem honesta, mas é uma mulher de verdade. É a mulher que nós amamos. É a mulher que todos os homens desejam. Por que Catherine, passando por cima de tudo, exige sempre a nossa presença? Porque nós lhe damos completa e total atenção, como a uma rainha". Isso faz de Kathe uma personagem amável e, ao mesmo tempo, detestável.
Como afirmei no início, Roché e Truffaut, através de diálogos simples, trabalham com temas que, para muitos, são tabus: a liberdade sexual, a infidelidade e a busca por valores que fogem da linha tradicional e conservadora no que diz respeito a relacionamentos amorosos. É este o grande mérito dos autores: o tom não é de imposição de uma moral, seja ela qual for, pois a abordagem do filme não é apelativa nem erótica; o tom de sofrimento e tristeza é muito claro nos três personagens. Truffaut declarou em uma entrevista: "Nem sempre sendo o casal a solução ideal e satisfatória, parece legítimo buscar uma moral diferente, outros modos de vida, embora todos esses arranjos estejam fadados ao fracasso".
É por esta razão que faço questão de citar Michel Delahaye, para encerrar: "Que a nobreza de Jules e Jim o façam escapar dos atentados de todos aqueles para quem é imoralidade a busca de outra moralidade, feiura, a de outra beleza - que o façam planar acima de todas as ortodoxias, velhas ou novas".
Jules e Jim não é uma simples história de amor em que todos são felizes para sempre.
Referência:
Truffaut, François. Jules et Jim: o romance, o roteiro/ roteiro de François Truffaut, romance de Henri-Pierre Roché. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
Notas
1: Truffaut é um nome marcante do cinema francês e um pouco de sua difícil trajetória de vida pode ser vista no filme em que ele mesmo dirigiu, Os Incompreendidos (1959).
2: No livro, o mergulho de Kathe ocorre após um jantar que sela sua união com Jules.
3: No livro, Kathe tem duas filhas com Jules: Lisbeth e Martine.
Socióloga que adora escrever para criar um ritual em que o homem é a própria magia. Prioriza os debates, as reflexões e as intermitências do cotidiano.