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  1. Rolês e Rolos

    sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

    Por que os rolezinhos estão causando tanto impacto nas mídias e redes sociais? Porque dividem o público e, sobretudo, revelam algumas das contradições sociais existentes. 
    Embora os rolês estejam ganhando visibilidade nos últimos dias, eles tiveram início em dezembro. Só para se ter uma ideia, no sábado, 14 de dezembro, houve um encontro num shopping da região de Guarulhos. Não foi registrada uma ocorrência sequer. Sem roubos, sem "arrastão", sem algo considerado ilícito. Mesmo assim, 23 jovens foram encaminhados à delegacia. Este já era um indicativo do que aguardava esses jovens nos rolês que se sucederam.
    O estopim  se deu no Shopping Itaquera no último final de semana. Houve repressão por parte da polícia que, por sinal, há tempos vem utilizando a "legitimidade do uso da força" em favor dos interesses das elites e colaborando demasiadamente para a discriminação social dos grupos que se encontram à margem da sociedade. Houve sensação de terror: lojas foram fechadas, pessoas correndo por todos os lados.
    Após o tumulto, jornais se encarregaram de pautas e coberturas sobre os rolês. Enquanto isso, diversos shoppings foram atrás de liminares na justiça para impedir que os rolezinhos acontecessem dentro de seus estabelecimentos, como o JK Iguatemi. E foi aí que o problema começou. Ou melhor, uma nova faceta de um problema antigo surgiu.

    Histórico
    Fonte: Portal Ctb
    Em fevereiro de 2012, aproximadamente 300 manifestantes da Marcha contra o Racismo realizaram uma manifestação partindo do Largo Santa Cecília em direção ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Lojas fecharam e seguranças tentaram impedir a entrada. Em novembro de 2013, o Shopping Parangaba, em Fortaleza (CE), foi o palco de repressão e humilhação de jovens negros. Em dezembro, o mesmo ocorreu em Vitória (ES). Os rolês em São Paulo representam uma variação. Mas, no fundo, estão querendo passar a mesma mensagem, que abordaremos adiante.


    Está claro o preconceito
    Muita gente procurou mostrar que, na verdade, o que existe é preconceito. Enquanto os rolês dos jovens das regiões periféricas, em sua maioria negros, estão no auge da repercussão midiática, cercados de comentários preconceituosos, pouco se ouve falar do famoso "rolê" dos estudantes/calouros da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) no shopping Eldorado que ocorre anualmente, e há pelo menos 7 anos. Assim como o rolezinho, os alunos, em sua maioria brancos, entram num grande grupo, gritando palavras de ordem e seguem cantando para comemorar o ingresso na universidade. Não há repressão e as lojas não são fechadas. Os clientes não temem por um arrastão. A ordem parece não ser perturbada. Se levarmos em conta as reações das pessoas em cada caso, está ou não está clara a existência do preconceito, inclusive por parte da mídia? Será que este ano o PIG (Partido da Imprensa Golpista) se lembrará de mostrar a festa dos "bixos" da USP?


    Rolês e Rolos: como são vistos
    Como nem só de comparações se criam argumentos, deixemos os calouros da USP pra lá. Para desenvolver minha análise sobre os rolezinhos, começarei publicando o comentário da jornalista Rachel Sheherazade, que considero uma das grandes manipuladoras da massa televisiva.


    E o que o público que condena os rolezinhos diz de tudo isso? Bem, esta semana encontrei uma notícia da Folha de São Paulo no Facebook com a seguinte manchete: "Em apoio a jovens de São Paulo, cariocas marcam rolezinho em shopping no Leblon". Os comentários são taxativos: "Rolezinho na biblioteca esses vagabundos não querem fazer"; "Por que não fazem um rolezinho na cadeia?"; "Em apoio à PM de São Paulo, a PM do Rio vai descer o cassetete no pessoal do rolezinho. Com toda razão!"; "Trabalhar que é bom essa cambada de desocupado não quer né?". E assim por diante. Outros comentários que li ou ouvi algum entrevistado dizer: "maloqueiros", "vândalos", "bandidos". 
    Poucos sabem, contudo, que grande parte desses jovens já trabalham, muitos na informalidade, e que realizam atividades mal remuneradas. Quer dizer que todos que participam do rolezinho merecem cadeia, sem estarem fazendo nada que seja considerado um crime? Os shoppings só correm o risco de serem assaltados nessas ocasiões ou a memória está curta e há muita falta de informação? Porque um jovem se atreveu a fazer parte do rolezinho ele tem que apanhar da polícia e ser hostilizado? Tem algo errado aí. Os comentários revelam uma discriminação de "cara lavada" porque a maioria dos indivíduos acredita que esses jovens não sabem qual é o seu lugar e alguém tem que lhes mostrar.
    Agora, vamos responder ao primeiro comentário. Por que não fazem o rolê na biblioteca? Ora, parece óbvio. Dou a resposta nas palavras de Juninho Jr, um dos organizadores do rolezinho: "A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com este sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupados pelo andar de cima, aí gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela opressão" (entrevista ao Brasil de Fato). Os jovens da periferia são obrigados a engolir o tempo todo o discurso do consumo e do status, e os shoppings acabam constituindo o local ideal de lazer.

    Qual é a dos shoppings?
    Os espaços públicos estão desaparecendo. As atividades consideradas culturais (teatros, cinemas, livrarias, jogos) têm sido absorvidas pelos shoppings centers. São locais privados, mas abertos a todos os indivíduos. Acontece que a ideia que se tem de um shopping normalmente é a de um templo, não religioso, mas onde consumir é praticamente um ritual, e dos mais fiéis. Sendo assim, shoppings reúnem amigos, familiares e desconhecidos no mundo do comércio. Se, por um lado, constituem um lugar onde algumas pessoas passam muitas horas de lazer e vivem boa parte de sua vida social, por outro, esses ambientes sustentam um meio artificial de cultura, porque possuem como finalidade a compra de bens e entretenimento - sem contar que também são locais que procuram adestrar o comportamento dos indivíduos.
    De uma forma ou de outra, os jovens dos rolezinhos também querem ter acesso e usufruir dos bens materiais que funcionam como signos: são representações de poder, reconhecimento e status. 
    Questionaram o famoso direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, independente de raça, classe econômica e social, etc. Com as liminares que foram concedidas, questionou-se a discriminação por parte da própria justiça, uma justiça que atua em favor da manutenção da desigualdade, como se os shoppings fossem locais exclusivos de um grupo. Para o jornalista Rodrigo Vianna, "o 'rolezinho' demonstra o paradoxo da elite brasileira, que por um lado quer crescimento econômico, mas por outro quer manter os de pele marrom confinados na senzala". 
    Os defensores do rolezinho começaram a falar em apartheid racial e social e foram imediatamente taxados de burros, tamanha aberração falar em apartheid. A minha pergunta é: as fronteiras, visíveis e invisíveis, de uma cidade como São Paulo, são tão imperceptíveis assim? Se analisarmos a cidade, e não precisa ser especialista para isso, veremos que os bairros estão claramente divididos; podemos distinguir o que é periférico e o que não é, podemos distinguir os níveis econômicos sem grande esforço: sabemos muito bem quais são os bairros nobres, os da dita classe média, os de baixa renda. É inegável que existe uma segregação e que esta afeta as possibilidades de acesso a determinadas áreas e o usufruto de bens materiais e culturais.
    Muitos chegaram a comentar que não era necessário ir em "bando" para o shopping; a ideia é mais ou menos assim: "todo mundo tem direito de ir ao shopping, mas ninguém vai com a galera toda da rua. Qualquer um pode ir com sua turminha de amigos, mas ir aos montes já é pra chamar a atenção e perturbar". Não tenho grandes experiências em shoppings, mas nas vezes que já frequentei pude notar cenas desanimadoras. Ok, bando não pode. Então o jovem decide ir com seus quatro amigos para o templo de consumo. E o que acontece? Vemos a expressão repugnante e o olhar taxativo de alguns frequentadores para o grupinho que foi lá pra se divertir e dar o seu rolê. Moral da história: normalmente, não importa se estão em três ou em cem: mesmo que nada ocorra, o olhar denuncia. E uma verdade que custa para ser admitida: uma grande parcela de negros e/ou pobres no shopping assusta a maioria das pessoas. E se o fenômeno se tornasse comum? Certamente a elite inventaria outro lugar para frequentar, e a patética classe média pegaria o mesmo bonde, pois procura se afastar das classes populares.
    Muito seriamente, os rolezinhos evidenciaram a falta de opções de lazer para a maioria dos jovens pobres. O prefeito Haddad reconheceu que na cidade de São Paulo os espaços para se usufruir variam de região para região, e que na periférica são escassos. Se o reconhecimento foi feito, é necessário agora repensar a dinâmica do lazer na cidade. Não no sentido de oferecer opções para que os jovens não frequentem os shoppings, mas para que tenham possibilidades similares.

    Jovens, consumo e shoppings
    Como afirmei, os shoppings são considerados templos de consumo. Dão a falsa sensação de segurança que o espaço público não oferece. Como se não bastasse, vivemos constantemente com o discurso do consumo e da felicidade interligados para o sagrado fim: a realização pessoal. Ocorre nesse processo a reprodução e propagação de um estilo de vida consumista que forma a identidade e a individualidade de todos (sim, não só dos jovens). Na busca pela realização e segurança, o consumo ganha importância e funciona como um véu para cobrir necessidades e anseios. 
    O consumo também funciona como uma forma de distinção das classes sociais, e isso os rolezinhos deixaram bem claro. Para fechar este posicionamento, cito um trecho de um trabalho do sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes que dá o tom da questão:
    "Os jovens são mergulhados em espaços estéticos gerados pela imagem televisiva e pela visibilidade anônima da vida urbana. A valorização de espaços de consumo de classe média, como os shopping centers, apontados como área de lazer de fim de semana, indica que, mesmo em desvantagem em relação aos grupos dominantes, há uma permanente tentativa de diferenciação do lugar de origem, do próprio grupo, prevalecendo a individualização. A tentativa de se adaptar à moda vestimentária ditada pelos canais de comunicação é um exemplo desse fenômeno. [...] Assim, o que consumimos é nossa marca visível e determina inclusive nosso lugar social. O consumo, que passa a ser vivenciado como mecanismo de inserção e de status, traz a ideia de acesso a um mundo social existente em nossa volta."¹
    Indico também a leitura "Etnografia do Rolezinho", de Rosana Pinheiro.

    Hiato
    Os rolezinhos podem ser associados, em partes, ao que o documentário Hiato nos mostra. Em 2000, manifestantes ocuparam um shopping da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como os rolezinhos, este acontecimento também gerou uma repercussão muito grande na mídia. O que há de mais interessante em Hiato são as vozes dos que nunca são ouvidos. Também temos comentários de professores universitários que tentam elucidar o episódio e o que ele representou.
    No fundo, Hiato e os rolezinhos perpassam por uma questão séria, que é a do direito de acessibilidade que parece ser dado a alguns e negado a outros, como se uns fossem mais cidadãos que outros. Hiato foi dirigido por Vladimir Seixas. Tempo de duração: 20 minutos.

    Nota:
    1 - Consumo e identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular no Distrito Federal. 

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