A empresa Mattel demorou "insignificantes" 57 anos para fazer a maior "descoberta" do século: as mulheres de todo o mundo são diferentes em formas, tamanhos e cores. Depois de décadas impondo um único padrão de beleza à sociedade, a boneca mais famosa do mundo agora possui a linha Fashionistas, com quatro tipos de corpos, sete tonalidades de pele, 22 cores de olhos e 24 estilos de cabelos.
Linha Fashionistas: algumas das novas bonecas Barbie. Fonte: El País.
Não se pode negar que o investimento pesado da Mattel é uma vitória da diversidade, entretanto este investimento se deve à pressão exercida por diversos movimentos que, aliados às novas formas de protagonismo e identidade juvenil, fizeram com que as vendas da boneca despencassem 20% entre 2012 e 2014, e continuaram com saldo negativo ano passado. A Mattel, uma das maiores fabricantes de brinquedos, viu-se obrigada a colocar a mão na massa na tentativa de resgatar consumidores, até porque uma Barbie não representa pouco para o capitalismo, para a publicidade e para a criação de valores em uma criança.
O mais interessante nessa história é que, após a constatação da queda nas vendas do produto, a vice-presidente da empresa Evelyn Mazzocco chegou a comentar sobre a importância e a responsabilidade de se colocar em pauta a reflexão sobre uma visão mais ampla da beleza, deixando clara a estratégia da Mattel: passar a imagem de uma empresa flexível, inovadora, apoiadora da diversidade e atualizada com o mundo globalizado. Por mais de meio século ela insistiu em um único modelo de boneca (alta, magra, loira e de olhos azuis, lançando uma ou outra diferente do padrão, mas com a mesma tipologia), e agora "do nada" se converteu em defensora do multiculturalismo, acreditando que o passado será prontamente esquecido.
Os executivos da Mattel comentaram acerca da importante mudança nos estilos Barbie afirmando o óbvio: não há só um padrão de como é um corpo bonito. E foram mais além: "temos que mostrar às meninas que, independentemente de sua aparência, tudo é possível". A Barbie sempre vendeu fortemente a ideia de que tudo está ao alcance das garotas que compram a boneca, tanto que numa versão atualizada, o lema é #VocêPodeSerTudoQueQuiser. Já discuti em outra publicação o peso que uma frase como esta pode exercer na formação das crianças. Crescer com esta mentira, de que realmente sempre conseguirão tudo o que desejarem, de que serão vencedoras por completo, de que não haverá espaço para angústias e de que o mundo é todo colorido chega a ser covardia. Já se sabe que é importante alimentar os sonhos de uma criança, mas não ignorar a realidade e os perrengues aos quais, mais cedo ou mais tarde, estarão sujeitas. Realidade implica experiências e conflitos.
Fonte: Annablume
Importante também é mencionar as condições dos trabalhadores que produzem a boneca. No livro "Barbie na educação das meninas: do rosa ao choque", a autora Fernanda Roveri aponta as consequências do trabalho degradante nas fábricas: as mulheres responsáveis pela produção da Barbie, além do baixo salário, apresentam problemas respiratórios, perda de audição, dores intensas, transtornos no sono e até mesmo irregularidades nas menstruações em decorrência da contaminação por chumbo e outros elementos químicos. Infelizmente, esta é uma realidade que atinge as mais diversas áreas de produção, sobretudo a de produtos tecnológicos. Nem a Barbie conseguiu escapar. Não vale a pena fecharmos os olhos e continuarmos insistindo na ideia de que "Barbie é apenas uma boneca".
Darwin já provou que as espécies vivas são capazes de evoluir por milhares de anos via seleção natural. A Mattel, não por acaso, escolheu a palavra "evolução" para designar a mudança de paradigma da Barbie. Nome altamente sugestivo, afinal de contas, veremos como ela vai "evoluir naturalmente" e como dará continuidade na tendência do respeito às diferenças.
Eu me lembro de quando era criança. Mal podia pensar que o dia 12 de outubro estava chegando e ficava ansiosa para receber o meu presente ou a minha grana. Felizmente, tive muitas oportunidades ao longo da vida, inclusive aproveitar o período da infância. Aliás, foi exatamente na minha época de criança que a publicidade massiva começou a decolar e que a erotização precoce entrou no script.
Pensando nisso, decidi fazer três indicações que discutem o significado de infância e de ser criança e o que está presente no universo desses jovens.
A invenção da infância
Clássico. Mostra as disparidades que compõem a realidade das crianças brasileiras. Enquanto aquelas que possuem uma agenda lotada de atividades (escola, natação, balé, vôlei, inglês) se percebem como adultas desde cedo por conta da vida cronometrada, as que trabalham duro a fim de obter abaixo do básico para a sobrevivência e que quase não têm tempo para estudar ou brincar não se veem como adultas.
Criança, a alma do negócio
Muitos não têm ideia do quanto a publicidade é perigosa para as crianças e afeta toda a sua trajetória. Neste documentário, diversos profissionais procuram explicar o que se passa psicologicamente com a criança diante dos anúncios e como ela pode se desenvolver desde cedo com o consumismo fazendo parte de sua vida.
Muito além do peso
Mais recente que os anteriores, este documentário retrata a realidade de crianças do Oiapoque ao Chuí e seus hábitos alimentares, considerando que muitos dos nossos jovens estão acima do peso ou obesos. Discute a alimentação e a saúde das crianças e os possíveis problemas que estão enfrentando muito novas (de coração, diabetes, respiração). Isso para não falar no preconceito que provoca depressão. Um assunto sério que envolve política, escola, família e publicidade.
Este ano foi inaugurado o documentário Tarja Branca. Não pude assisti-lo ainda, mas o tema central é o lúdico: a importância do brincar, tanto na infância quanto na vida adulta.
Os dados são alarmantes. Metade da população brasileira com mais de 18 anos está acima do peso. Depois de assistir ao documentário Muito além do peso (direção de Estela Renner), penso ser urgente a necessidade de rever todos os setores ligados à alimentação, especialmente a infantil. Começo esta publicação apresentando alguns números retirados do filme. 33,5% das crianças brasileiras estão com sobrepeso ou obesas. Um pacote da batata Ruffles possui cerca de 77g de gordura. Se uma pessoa ingerir uma lata de refrigerante por dia durante um mês, ela estará consumindo, em média, mais de 1kg de açúcar. O curioso é que, mesmo sendo mostrado às crianças que foram entrevistadas no documentário, praticamente todas afirmam que continuarão a ingerir refrigerante frequentemente. Ou, como diz um garoto, continuará "abrindo a felicidade", referindo-se à Coca-Cola.
Está estatisticamente comprovado: as crianças que ficam muito tempo em frente à televisão tendem a ganhar mais peso. E elas não ficam pouco tempo: assistem, em média, cinco horas de televisão diariamente. A mensagem que Estela Renner procura transmitir é a de que as crianças convivem com um excesso de telas que proporciona o sedentarismo. A tela da televisão, do videogame, do celular, do computador, do tablet.
Como a criança não é capaz de pensar de forma autônoma, sua imaginação associa a ideia de brincar com a de utilizar esses aparelhos. O corpo dificilmente está em movimento. Para usufruir de todo o aparato tecnológico permitido pelos pais, basta apenas utilizar os dedos. Claro que este problema está ligado à falta de segurança que as ruas proporcionam. Os espaços amplos e públicos de lazer têm diminuído bastante. Desde cedo, as crianças estão aprendendo a lidar com confinamentos. No entanto, os adultos não devem se iludir ao pensarem que deixando os filhos em frente à televisão estarão seguros dos males. Ao contrário. Os empresários, que de bobos nada têm, entopem a televisão de publicidades que incentivam o consumo de bens supérfluos e alimentos nem um pouco saudáveis.
É comum vermos alguns personagens de desenhos infantis ou do cinema como brindes ou em embalagens de produtos alimentícios como biscoitos, chocolates, bolinhos e salgadinhos. É uma tentação infindável e abusiva, tanto quanto a publicidade que a sustenta.
Um dado importante para nos atentarmos também é o fato de esses produtos ruins para a saúde e geradores de doenças como diabetes, hipertensão e aumento de colesterol serem mais baratos do que os alimentos saudáveis. Se para nós soa absurdo uma criança não conseguir diferenciar uma manga de um melão ou um pepino de um abacate, podemos simplesmente ignorar os dados apresentados?
Certamente muitos pais de filhos obesos têm a sensação de terem fracassado em algum ponto. Embora sejam os principais responsáveis pelo desenvolvimento da criança, existem circunstâncias externas que contribuem para a obesidade. Novamente mais um dado: nos Estados Unidos, o governo federal gasta em torno de 51 milhões de dólares para a divulgação hábitos alimentares saudáveis e exercícios físicos, ao passo que 1,6 bilhões de dólares são gastos pela indústria alimentícia em marketing de produtos com alto teor calórico e pouco nutritivos. O senso de responsabilidade, pelo visto, passa cada vez mais longe das corporações e empresas publicitárias.
Além disso, quando se trata de educação, infelizmente a maioria das crianças estão inseridas na lógica da mercadoria e das contradições. As cantinas escolares estão cheias desses alimentos. Se um aluno resolve levar uma fruta para comer no intervalo, ele provavelmente se sentirá intimidado diante das guloseimas que estão no cardápio diário de seus colegas. Então se falta estímulo, o quadro se torna mais difícil de ser revertido.
O que Estela Renner sugere, e com muita razão, é que aulas de educação alimentar façam parte do currículo escolar. Não se resolve um problema complexo com palestraras, do que pode e do que não pode, porque isso todos nós já sabemos. Ela mesma afirma: "Como se trata um alcoólatra? Basta dizer "não beba"? Não. Você oferece terapia, você dá remédio, dá carinho, dá conforto. Com uma criança - e mesmo com um adulto obeso - é a mesma coisa. Não pode falar "não coma"."
Muito além do peso é imperdível e pode ser visto no Youtube.
Para encerrar nossas leituras sobre o carnaval, nada melhor que o olhar antropológico de Roberto DaMatta. Este texto faz parte de uma obra maravilhosa intitulada "O que é o Brasil?", na tentativa de compreender melhor nosso país, nosso povo e nossa cultura.
O carnaval, ou o mundo como teatro e prazer
Todas as sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festas, os rituais, as comemorações.
[...] No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva.
[...] Na festa, comemos, rimos e vivemos o mito da ausência de hierarquia, poder, dinheiro e esforço físico. Nela, todos se harmonizam por meio de roupas especiais, comidas singulares e, muito especialmente, pela música que congrega e iguala no seu ritmo e na sua melodia.
No caso do Brasil, a maior e mais importante, a mais livre, criativa, irreverente e popular é, sem dúvida, o carnaval. Aliás, nessa festa, a própria definição já perturba, pois que dispensa os elementos da ordem, da esfera política e moral, básicos das outras festas. O carnaval não pode ser sério, senão não seria um carnaval...
Mas qual a receita para o carnaval brasileiro?
Sabemos que o carnaval é definido como "liberdade" e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo excesso - mas como excesso de prazer, de riqueza (ou de "luxo"), de alegria e de riso; de prazer sensual que finalmente fica ao alcance de todos. [...] Com isso, o carnaval inventa um universo social onde a regra é praticar todos os excessos.
Por isso, o carnaval é percebido como algo que vem de fora para dentro da sociedade. Como uma onda irresistível que nos domina, controla e seduz inapelavelmente. [...] Mas o que o carnaval consegue fazer com o Brasil? Que extraordinário é esse que ele tão criativamente inventa?
O carnaval é um ritual de inversão do mundo. [...] No carnaval, trocamos o trabalho que castiga o corpo pelo uso do corpo como instrumento de beleza e prazer. No trabalho, estragamos, submetemos e gastamos o corpo. No carnaval isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui, o corpo é gasto pelo prazer e pela "brincadeira".
[...] O carnaval também promove a troca dos uniformes pelas fantasias. Se o uniforme é uma vestimenta que cria ordem e hierarquia, a fantasia permite o exagero e a troca de posições. E a fantasia é tanto o sonho acordado quanto aquela roupa que realiza a ponte entre o que realmente somos e o que poderíamos ter sido ou o que merecíamos ser. A fantasia liberta, "desconstrói", abre caminho e promove a passagem para outros lugares e espaços sociais. Ela permite o livre trânsito das pessoas por dentro de um espaço social que o mundo cotidiano, com suas leis e preconceitos, torna proibitivo. Ademais, ela torna possível passar de "ninguém" a "alguém"; de marginal do mercado de trabalho a figura mitológica.
É precisamente por estar vivendo uma situação na qual as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores, dos "elementos" que entram na fila e das "pessoas" que jamais são vistas em público como comuns.
[...] No carnaval, nós, brasileiros, cantamos e, geralmente, podemos fazer o que cantamos. [...] Ali, todos podem exercer o direito de interpretar o mundo do seu jeito e a seu modo. Do mesmo modo, a crítica social mais ácida e a crítica política mais acesa, que pode dar em prisão e censura, são realizadas abertamente, tanto quanto a competição, que todos temem como algo monstruoso, mas que é também aceita em todos os carnavais brasileiros, construídos por meio de inúmeros concursos.
De fato, no carnaval, há competição para tudo: músicas, fantasias, maior capacidade de exibir-se e, naturalmente, a disputa dos blocos e escolas de samba.
[...] Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de "quem conhece o seu lugar" - algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política.
[...] Por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo e exato oposto...
Nesta segunda publicação sobre o carnaval, o Sociologia e Opinião traz trechos de uma entrevista com o cantor e compositor Martinho da Vila, em fevereiro de 2011, mesmo ano em que um incêndio atingiu os barracões das escolas de samba Portela, Grande Rio e União da Ilha, do Rio de Janeiro. Uma real interpretação dos eventos carnavalescos e uma entrevista que ajuda a compreender melhor o que se passa por trás de todo o luxo e glamour da Marquês de Sapucaí (de acordo com o próprio Martinho da Vila, para uma escola ser competitiva, tem que gastar uns R$ 5 milhões).
Pobres e ricos se misturavam no carnaval?
Os ricos brincavam em outro local, nos clubes, nos corsos, nos ranchos. Isso foi caindo e a escola de samba absorveu tudo. [...] E, aí sim, com as escolas de samba, é que começou a haver a mistura entre pobres e ricos. Só que perdeu a interação com a cidade. Noutros tempos, o rádio só estaria tocando música de carnaval neste mês. O carnaval não é mais vivido por muito tempo. Passa logo. Hoje o dinheiro está mais presente e tudo ficou muito ligeiro. A velocidade do cotidiano influencia o carnaval de maneira marcante. Ninguém tinha muita pressa quando não havia organização oficial. Os blocos saíam na hora que quisessem, ficavam na rua o tempo que quisessem.
A organização deixou o carnaval chato?
A organização fez a escola de samba ganhar uma importância enorme. Era uma coisa inicialmente só de sambista do morro, hoje é de toda a sociedade. Então, até a TV resolveu entrar nesse lance, porque viu uma oportunidade de lucrar. O carnaval não era uma atividade lucrativa e nem era esse o objetivo. Mas assim vai ficar, porque as coisas não voltam para trás.
Quanto do carnaval é dinheiro e quanto é paixão hoje em dia?
Tudo é comercial, precisa gerar receita. Ninguém faz nada mais por prazer. O carnaval está completamente fora de sua origem. Virou indústria. O cara que é da escola de samba, que participa efetivamente, não precisa de dinheiro para sair no carnaval. Ele não paga fantasia. Os que vêm de fora e pagam ajudam a bancar o sambista. Em contrapartida, para você desfilar numa escola de samba, se for da comunidade, tem que participar obrigatoriamente dos ensaios. Ensaio de escola de samba só falta ter cartão de ponto. Quem não aparece perde a fantasia. Mas o sujeito gosta, aquilo é importante para ele. Não por causa da televisão, porque ele quer ser visto, nada disso. O cara do morro gosta da escola porque ela continua sendo a única opção de lazer dele. Ele não tem clube com piscina. Tá longe da praia. Então a escola vira a vida do cara. Como alegria de pobre é pouca, a escola tem essa função: de alegrar, divertir, distrair.
Os ditos moradores do asfalto têm ligação, têm proximidade com o dia a dia da escola?
A maioria não tem ligação. Mas, como a escola de samba não é mais só do sambista, ela é de todos agora, e é uma coisa apaixonante, o cara do asfalto vai a um ensaio e é imediatamente contaminado, fica louco. É uma magia difícil de explicar. Inclusive, esse pessoal da sociedade também se submete às regras. A top model que vira madrinha da bateria tem que ir ao ensaio. Se não for, trocam ela.
Quem ganha mais com as celebridades no carnaval: elas mesmas, a escola, a TV?
Há uma troca. O cara que sai na bateria não tem condição de ver uma estrela fora da TV ou da revista. Então, quando ela vai à quadra, o cara se sente honrado. Já o artista vive de cartaz, então celebridade desfila para aparecer, não por desfilar. Eu acho bom, porque mistura as classes sociais.
No sambódromo essa mistura é menor, não é? Tem camarote pra uns, arquibancadas na chuva pra outros...
Ah, mas isso é o Brasil. A seleção em nosso país se dá pelo dinheiro. Para socializar o camarote só quando a sociedade brasileira estiver mais equilibrada. Por enquanto é o lucro que manda. Por isso o carnavalesco é profissional, os mestres-salas, as porta-bandeiras... Todos eles são funcionários contratados pelas escolas.
E você gosta que seja assim?
Não gosto. Eu preferia no passado, quando todos se sentiam donos da escola e se esforçavam para fazer a coisa acontecer. Os moradores iam varrer a quadra, vender cerveja nos ensaios... Hoje, não. Todo mundo ali está trabalhando. A Vila Isabel tem uns 400 empregados. Por um lado é bom, porque dá emprego, mas mata a paixão. Até no carnaval o capitalismo venceu. Antigamente, a glória de um sambista era ter seu samba cantado na avenida. Hoje tem resultados financeiros no jogo. Para seu samba ser escolhido, você tem que contratar um puxador que vá defendê-lo na quadra em todos os ensaios. Um puxador, dois ritmistas e um cavaquinho. Isso custa dinheiro. De graça ninguém faz mais. E o puxador pode ser nascido na Portela, por exemplo, mas é contratado pelo compositor para defender o samba da Vila Isabel. E ele vai, claro, pra ganhar um dinheiro.
Isso soa tão anti-carnaval...
As escolas estão quase como os clubes de futebol. Eles não têm mais jogador, que pertence a empresários, patrocinadores, a todo mundo menos ao clube. As escolas também não têm mais o seu mestre-sala, o seu diretor de bateria. Terminou o carnaval, começam as contratações. As escolas disputam o diretor de harmonia que foi bem naquele ano, o mestre de bateria mais premiado... Neste ano, quando der abril já vai estar todo mundo contratado, e possivelmente por uma escola diferente da que desfilou.
O carnaval também faz parte do debate sociológico. Publicarei no blog três leituras e interpretações a respeito da maior festa no Brasil. A primeira é um artigo do sociólogo José de Souza Martins.
A apoteose dos corpos insubmissos
Sempre houve uma certa expectativa quanto a quem será desancado ou quem será bajulado na relativa surpresa dos nossos desfiles carnavalescos e na ordem invertida que representam. O carnaval nos chegou de Portugal, como entrudo. Trouxe-nos a medieval cultura das inversões simbólicas das identidades e dos poderes nos três dias de festa. Na cultura do avesso, assimilou manifestações centradas na tensão do corpo com sua dominação social e política, vindas de grupos negros e indígenas.
O carnaval tornou-se o momento da pública exposição dos acontecimentos do ano e de suas figuras à mordacidade da crítica popular ou à sua bajulação. É o momento da manifestação do corpo insubmisso, como instrumento de um discurso gestual da contrariedade. Momento em que os grandes pagam pelos desaforos feitos aos pequenos. Mas, também, hora em que o puxa-saquismo se torna monumental, na visibilidade de uma gratidão material ou política carregada de malícia. É a hora do troco, em que a força subversiva do imaginário do povo se dá a ver nos enredos dos sambas, nas cores e nas alegorias de carros e fantasias, nos desfiles de cordões e escolas de samba, no Rei Momo, monarca do faz-de-conta, o anti-poder de três dias. É o momento dos fracos contra os fortes, da sociedade contra o Estado, da rua contra as instituições. O carnaval é um acerto de contas anual, o intervalo de um corrosivo tempo de deboche.
Não é só o presente que cai na pancadaria simbólica dos carnavalescos. O passado inteiro está sujeito a apreciações sem cerimônia, em que nunca se sabe se a narrativa dos sambas-enredo são irônicas por intenção ou por desinformação. De qualquer modo, é sempre prudente recomendar aos estudantes que a melhor fonte do conhecimento histórico ainda é o livro.
Mas é também o momento do corpo contra o espírito, do desejo contra a continência e a repressão, do proibido contra o permitido. Não é apenas feliz acaso que o nome da primeira escola de samba do Rio de Janeiro tenha sido Deixa Falar, uma insurgência contra a língua comprida e a dominante sociedade dos linguarudos, da polícia e dos comentadores da vida alheia, da "decadência" oficial contra a "indecência" popular, da repartição pública contra a rua e o povo. Não é à toa que, em carnavais de outros tempos, e hoje menos, as pessoas se fantasiassem, ou se fantasiem, de seus contrários, homem vestido de mulher, mulher vestida de homem, adultos vestidos de bebês, de "mamãe-eu-quero-mamar", mascarados vestidos de demônio nesse tempo de ritual e anjos decaídos. É o embaralhamento das identidades, no vestuário e nas máscaras carnavalescas em que traços do antagônico são ressaltados para expor as fisionomias reais, do perverso, do sovina, do corrupto, do oportunista, que se ocultam nas dissimuladas fisionomias cotidianas. É a personificação crítica das alteridades que demarcam repressivamente nossa nem sempre fácil vida de todo dia. É a máscara que permite transgredir sem ser reconhecido nem ser punido. A transfiguração de cada um naquele que não é. É, sobretudo, o duplo sentido do dizer oculto.
O carnaval é o momento mais forte e significativo de exposição da centralidade do corpo na nossa cultura, como referência problemática da realidade social. O corpo nu e natural é apenas adjetivo, apenas ponto de reparo e referência da construção do corpo imaginário e social, o corpo que pode ser "lido", situado e compreendido. Desde o nascimento, as crianças são trajadas de maneira a adquirirem a identidade que as situará no mundo, a cor da roupa, o brinco da menina, os brinquedos. Os ritos de casamento são, basicamente, ritos de fecundidade, sacralização da troca biológica de sangue entre os esposos, modo de assegurar a antecipação cultural e social dos corpos que serão gerados, simbolicamente concebidos desde antes de existirem. Nesses processos, o corpo é situado nas tensões da vida e da morte, do transitório e do eterno, do mortal e do imortal. O carnaval desveste o que os poderes vestiram.
Ele é bem mais do que crítica social e política. Nele se expressam essas tensões constitutivas do humano, no pouco caso das fantasias de caveira e de demônio, na exorcização do medo e da morte, na negação do sobrenatural no corpo liberto, até mesmo nos extremos da nudez em desfiles de escolas de samba. No fundo, o carnaval é um contra-rito religioso. Inscrito na véspera da Quaresma e do tempo do luto e da dor, é o tempo do desejo e da euforia, que precede um tempo de jejum e de punição ritual do corpo, um tempo de purgação da pecaminosa carnalidade do homem. Antes desse recolhimento litúrgico, a licença do carnal, não só o da sexualidade, mas também o do apetite, sujeitos às interdições rituais e à fria temperança da Quaresma. O carnaval é um intervalo cíclico de transgressão consentida, que no temporário da festa liberta o corpo desordenador e da desordem consentida que dele resulta. Não por acaso, o carnaval é o tempo da folia, da loucura e da multidão.
Embora seja um intervalo no tempo herdado da liturgia religiosa, da qual muitos estão cada vez mais distantes, é no carnaval que a crise social e as mudanças de longa duração, quase imperceptíveis, se manifestam no curto tempo do desabafo. Na perspectiva desse tempo longo é possível notar que, na sua substância, o carnaval está acabando lentamente. Não só porque se torna progressivamente um empreendimento comercial sujeito a regras empresariais, que em tudo negam a insurreição livre do corpo e do desejo. Mas, também, porque no cotidiano elementos de identificação carnavalesca do corpo estão agora presentes e não só entre jovens. É muito significativo quando tatuagens e piercings, adornos corporais permanentes, se tornam cada vez mais complementos de uma nudez semi-oculta, mas proclamada. Uma negação explícita da transitoriedade ritual do carnaval e uma desconstrução do corpo submisso, uma forma de dizer que a insurreição de três dias se torna a insurreição visual de um ano inteiro - e se esvazia.
Publicado em 07 de fevereiro de 2008 no caderno Aliás, do Estadão.
Os dias quentes parecem não ter fim. Muitas regiões do Brasil estão sofrendo com as altas temperaturas que, por sinal, estão atingindo recordes. Como sabemos, verão combina com praia, sol e muita bebida gelada: água, sucos naturais e... álcool. Eis o maior vilão e um dos principais protagonistas nesses dias.
De acordo com uma pesquisa realizada no Instituto Karolinska (Suécia) em parceria com a Universidade de Monza (Itália) e o Instituto de Pesquisa Farmacológica de Milão, o consumo de álcool sob o sol pode aumentar a possibilidade de câncer de pele. Não é necessário muito: apenas um copo de cerveja já é suficiente para aumentar em até 20% o risco da incidência do câncer de pele, infelizmente um dos mais graves por apresentar altas chances de metástase. E mais: passando dos quatro copos diários, o que não é difícil de acontecer, a incidência pode aumentar em até 55%. O excesso de exposição ao sol já pode provocar a doença. Porém, quando temos um potencializador como o álcool, o perigo é ainda maior, pois aumenta a sensibilidade da pele diante da luz intensa e desenvolve em nosso metabolismo diversas substâncias que proporcionam alterações nas células do nosso organismo.
Quando soube desta notícia, no início do mês, resolvi assistir a alguns comerciais famosos de marcas de cervejas brasileiras. Alguns dos resultados:
O que todos os comerciais têm em comum? Bebida, sol e mulher bonita.
Após a divulgação do estudo realizado, é necessário investir em amplas campanhas de saúde pública e informar ao cidadão o quanto pode ser perigosa a combinação de sol e álcool. Durante os 365 dias do ano assistimos na televisão comerciais de cervejas cujo cenário é a praia e os protagonistas são homens e mulheres ingerindo a bebida, expostos ao sol. E as propagandas são boas, convencem-nos do quanto é bacana tomar uma cervejinha na praia, na piscina, no churrasco na laje, até porque "não faz mal pra ninguém, né?". Saúde é coisa séria. O Governo Federal, o Ministério da Saúde a as demais instituições competentes devem assumir a responsabilidade de elaborar campanhas de conscientização e alertar todos nós sobre este perigo.
Afirmei também que outro elemento comum dos comerciais são as mulheres bonitas. Não é comum mulheres "normais" nas propagandas. São sempre corpos exuberantes, com um padrão estético muito delimitado. Lembro-me, inclusive, de uma marca de cerveja que chegou a tirar sarro com o tipo de mulher considerada intelectual, como se no mundo dos indivíduos dotados de conhecimento e inteligência não existisse vida social, happy hour e beleza, o que é um tremendo preconceito. Há também o aspecto da cor. No verão, a moda é estar bronzeado, ter marquinha. Para seguir a moda, muitos deixam de se cuidar em nome dessa pressão social. Por todas essas razões, o Estado não pode ser omisso e deve prestar esclarecimento à população. É um dever com o qual não se pode faltar.
Por que os rolezinhos estão causando tanto impacto nas mídias e redes sociais? Porque dividem o público e, sobretudo, revelam algumas das contradições sociais existentes.
Embora os rolês estejam ganhando visibilidade nos últimos dias, eles tiveram início em dezembro. Só para se ter uma ideia, no sábado, 14 de dezembro, houve um encontro num shopping da região de Guarulhos. Não foi registrada uma ocorrência sequer. Sem roubos, sem "arrastão", sem algo considerado ilícito. Mesmo assim, 23 jovens foram encaminhados à delegacia. Este já era um indicativo do que aguardava esses jovens nos rolês que se sucederam.
O estopim se deu no Shopping Itaquera no último final de semana. Houve repressão por parte da polícia que, por sinal, há tempos vem utilizando a "legitimidade do uso da força" em favor dos interesses das elites e colaborando demasiadamente para a discriminação social dos grupos que se encontram à margem da sociedade. Houve sensação de terror: lojas foram fechadas, pessoas correndo por todos os lados.
Após o tumulto, jornais se encarregaram de pautas e coberturas sobre os rolês. Enquanto isso, diversos shoppings foram atrás de liminares na justiça para impedir que os rolezinhos acontecessem dentro de seus estabelecimentos, como o JK Iguatemi. E foi aí que o problema começou. Ou melhor, uma nova faceta de um problema antigo surgiu.
Histórico
Fonte: Portal Ctb
Em fevereiro de 2012, aproximadamente 300 manifestantes da Marcha contra o Racismo realizaram uma manifestação partindo do Largo Santa Cecília em direção ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Lojas fecharam e seguranças tentaram impedir a entrada. Em novembro de 2013, o Shopping Parangaba, em Fortaleza (CE), foi o palco de repressão e humilhação de jovens negros. Em dezembro, o mesmo ocorreu em Vitória (ES). Os rolês em São Paulo representam uma variação. Mas, no fundo, estão querendo passar a mesma mensagem, que abordaremos adiante.
Está claro o preconceito
Muita gente procurou mostrar que, na verdade, o que existe é preconceito. Enquanto os rolês dos jovens das regiões periféricas, em sua maioria negros, estão no auge da repercussão midiática, cercados de comentários preconceituosos, pouco se ouve falar do famoso "rolê" dos estudantes/calouros da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) no shopping Eldorado que ocorre anualmente, e há pelo menos 7 anos. Assim como o rolezinho, os alunos, em sua maioria brancos, entram num grande grupo, gritando palavras de ordem e seguem cantando para comemorar o ingresso na universidade. Não há repressão e as lojas não são fechadas. Os clientes não temem por um arrastão. A ordem parece não ser perturbada. Se levarmos em conta as reações das pessoas em cada caso, está ou não está clara a existência do preconceito, inclusive por parte da mídia? Será que este ano o PIG (Partido da Imprensa Golpista) se lembrará de mostrar a festa dos "bixos" da USP?
Rolês e Rolos: como são vistos
Como nem só de comparações se criam argumentos, deixemos os calouros da USP pra lá. Para desenvolver minha análise sobre os rolezinhos, começarei publicando o comentário da jornalista Rachel Sheherazade, que considero uma das grandes manipuladoras da massa televisiva.
E o que o público que condena os rolezinhos diz de tudo isso? Bem, esta semana encontrei uma notícia da Folha de São Paulo no Facebook com a seguinte manchete: "Em apoio a jovens de São Paulo, cariocas marcam rolezinho em shopping no Leblon". Os comentários são taxativos: "Rolezinho na biblioteca esses vagabundos não querem fazer"; "Por que não fazem um rolezinho na cadeia?"; "Em apoio à PM de São Paulo, a PM do Rio vai descer o cassetete no pessoal do rolezinho. Com toda razão!"; "Trabalhar que é bom essa cambada de desocupado não quer né?". E assim por diante. Outros comentários que li ou ouvi algum entrevistado dizer: "maloqueiros", "vândalos", "bandidos".
Poucos sabem, contudo, que grande parte desses jovens já trabalham, muitos na informalidade, e que realizam atividades mal remuneradas. Quer dizer que todos que participam do rolezinho merecem cadeia, sem estarem fazendo nada que seja considerado um crime? Os shoppings só correm o risco de serem assaltados nessas ocasiões ou a memória está curta e há muita falta de informação? Porque um jovem se atreveu a fazer parte do rolezinho ele tem que apanhar da polícia e ser hostilizado? Tem algo errado aí. Os comentários revelam uma discriminação de "cara lavada" porque a maioria dos indivíduos acredita que esses jovens não sabem qual é o seu lugar e alguém tem que lhes mostrar.
Agora, vamos responder ao primeiro comentário. Por que não fazem o rolê na biblioteca? Ora, parece óbvio. Dou a resposta nas palavras de Juninho Jr, um dos organizadores do rolezinho: "A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com este sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupados pelo andar de cima, aí gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela opressão" (entrevista ao Brasil de Fato). Os jovens da periferia são obrigados a engolir o tempo todo o discurso do consumo e do status, e os shoppings acabam constituindo o local ideal de lazer.
Qual é a dos shoppings?
Os espaços públicos estão desaparecendo. As atividades consideradas culturais (teatros, cinemas, livrarias, jogos) têm sido absorvidas pelos shoppings centers. São locais privados, mas abertos a todos os indivíduos. Acontece que a ideia que se tem de um shopping normalmente é a de um templo, não religioso, mas onde consumir é praticamente um ritual, e dos mais fiéis. Sendo assim, shoppings reúnem amigos, familiares e desconhecidos no mundo do comércio. Se, por um lado, constituem um lugar onde algumas pessoas passam muitas horas de lazer e vivem boa parte de sua vida social, por outro, esses ambientes sustentam um meio artificial de cultura, porque possuem como finalidade a compra de bens e entretenimento - sem contar que também são locais que procuram adestrar o comportamento dos indivíduos.
De uma forma ou de outra, os jovens dos rolezinhos também querem ter acesso e usufruir dos bens materiais que funcionam como signos: são representações de poder, reconhecimento e status.
Questionaram o famoso direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, independente de raça, classe econômica e social, etc. Com as liminares que foram concedidas, questionou-se a discriminação por parte da própria justiça, uma justiça que atua em favor da manutenção da desigualdade, como se os shoppings fossem locais exclusivos de um grupo. Para o jornalista Rodrigo Vianna, "o 'rolezinho' demonstra o paradoxo da elite brasileira, que por um lado quer crescimento econômico, mas por outro quer manter os de pele marrom confinados na senzala".
Os defensores do rolezinho começaram a falar em apartheid racial e social e foram imediatamente taxados de burros, tamanha aberração falar em apartheid. A minha pergunta é: as fronteiras, visíveis e invisíveis, de uma cidade como São Paulo, são tão imperceptíveis assim? Se analisarmos a cidade, e não precisa ser especialista para isso, veremos que os bairros estão claramente divididos; podemos distinguir o que é periférico e o que não é, podemos distinguir os níveis econômicos sem grande esforço: sabemos muito bem quais são os bairros nobres, os da dita classe média, os de baixa renda. É inegável que existe uma segregação e que esta afeta as possibilidades de acesso a determinadas áreas e o usufruto de bens materiais e culturais.
Muitos chegaram a comentar que não era necessário ir em "bando" para o shopping; a ideia é mais ou menos assim: "todo mundo tem direito de ir ao shopping, mas ninguém vai com a galera toda da rua. Qualquer um pode ir com sua turminha de amigos, mas ir aos montes já é pra chamar a atenção e perturbar". Não tenho grandes experiências em shoppings, mas nas vezes que já frequentei pude notar cenas desanimadoras. Ok, bando não pode. Então o jovem decide ir com seus quatro amigos para o templo de consumo. E o que acontece? Vemos a expressão repugnante e o olhar taxativo de alguns frequentadores para o grupinho que foi lá pra se divertir e dar o seu rolê. Moral da história: normalmente, não importa se estão em três ou em cem: mesmo que nada ocorra, o olhar denuncia. E uma verdade que custa para ser admitida: uma grande parcela de negros e/ou pobres no shopping assusta a maioria das pessoas. E se o fenômeno se tornasse comum? Certamente a elite inventaria outro lugar para frequentar, e a patética classe média pegaria o mesmo bonde, pois procura se afastar das classes populares.
Muito seriamente, os rolezinhos evidenciaram a falta de opções de lazer para a maioria dos jovens pobres. O prefeito Haddad reconheceu que na cidade de São Paulo os espaços para se usufruir variam de região para região, e que na periférica são escassos. Se o reconhecimento foi feito, é necessário agora repensar a dinâmica do lazer na cidade. Não no sentido de oferecer opções para que os jovens não frequentem os shoppings, mas para que tenham possibilidades similares.
Jovens, consumo e shoppings
Como afirmei, os shoppings são considerados templos de consumo. Dão a falsa sensação de segurança que o espaço público não oferece. Como se não bastasse, vivemos constantemente com o discurso do consumo e da felicidade interligados para o sagrado fim: a realização pessoal. Ocorre nesse processo a reprodução e propagação de um estilo de vida consumista que forma a identidade e a individualidade de todos (sim, não só dos jovens). Na busca pela realização e segurança, o consumo ganha importância e funciona como um véu para cobrir necessidades e anseios.
O consumo também funciona como uma forma de distinção das classes sociais, e isso os rolezinhos deixaram bem claro. Para fechar este posicionamento, cito um trecho de um trabalho do sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes que dá o tom da questão:
"Os jovens são mergulhados em espaços estéticos gerados pela imagem televisiva e pela visibilidade anônima da vida urbana. A valorização de espaços de consumo de classe média, como os shopping centers, apontados como área de lazer de fim de semana, indica que, mesmo em desvantagem em relação aos grupos dominantes, há uma permanente tentativa de diferenciação do lugar de origem, do próprio grupo, prevalecendo a individualização. A tentativa de se adaptar à moda vestimentária ditada pelos canais de comunicação é um exemplo desse fenômeno. [...] Assim, o que consumimos é nossa marca visível e determina inclusive nosso lugar social. O consumo, que passa a ser vivenciado como mecanismo de inserção e de status, traz a ideia de acesso a um mundo social existente em nossa volta."¹
Os rolezinhos podem ser associados, em partes, ao que o documentário Hiato nos mostra. Em 2000, manifestantes ocuparam um shopping da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como os rolezinhos, este acontecimento também gerou uma repercussão muito grande na mídia. O que há de mais interessante em Hiato são as vozes dos que nunca são ouvidos. Também temos comentários de professores universitários que tentam elucidar o episódio e o que ele representou.
No fundo, Hiato e os rolezinhos perpassam por uma questão séria, que é a do direito de acessibilidade que parece ser dado a alguns e negado a outros, como se uns fossem mais cidadãos que outros. Hiato foi dirigido por Vladimir Seixas. Tempo de duração: 20 minutos.
Nota:
1 - Consumo e identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular no Distrito Federal.
Embora se trate de uma ficção, o filme Click, produzido por Frank Coraci em 2006, engloba diversas categorias de análise e elementos científicos das pesquisas sociológicas recentes: a compressão do tempo, o trabalho e as atividades excessivas do cotidiano, o consumo, a instantaneidade, as relações fragilizadas. Esta comédia evidencia a efemeridade e o convívio destruído pela inovação tecnológica, aliado à falta de tempo e aos sentimentos de desequilíbrio e impotência.
A trama relata a história do arquiteto Michael Newman, sua esposa Donna e seus dois filhos. Ao decidir que pretende ser o sócio da companhia onde trabalha, Michael começa a trabalhar demasiadamente. Tudo em nome da realização profissional. Esta escolha, no entanto, afasta-o de sua família; ele não consegue mais se dedicar ao ambiente familiar, ter momentos de descontração, lazer e mal se atenta à saúde. Resultado: dominado pelo estresse e pressionado por todos os lados, Newman resolve ir até a uma loja de departamento a fim de comprar uma espécie de controle remoto universal, adquirindo-o na sessão intitulada "Além".
Ao começar a utilizar o controle, Michael logo descobre que o objeto possui o poder incrível de "controlar" o tempo e o espaço: pode estar em qualquer lugar ou tempo quando desejar, seja no passado, presente ou futuro.
Com o Menu da Vida, Michael se sente
o Todo-Poderoso
Esta descoberta produz a sensação de Todo-Poderoso: com o Menu da Vida em suas mãos, o protagonista pode tomar todas as decisões de sua vida. A ênfase de Michael reside, sobretudo, no futuro em função de seu trabalho, do anseio pela promoção e aumento salarial. Aparentemente, ele parece ter encontrado a solução de seus problemas e, através de um clique, passa a acelerar os momentos em que se encontra com a esposa e os filhos, sem saber que o controle possui memória automática e o mesmo começa a apressar sempre as ocasiões em que o arquiteto não está trabalhando.
Nesse sentido, associo o filme ao princípio operativo weberiano da civilização moderna: a busca pela eliminação do tempo improdutivo, ocioso e, portanto, desperdiçado. Esta forma de conceber e controlar o tempo causa impacto na condição da existência humana. Com um desenvolvimento tecnológico cada vez maior em todos os setores, especialmente nos transportes e na comunicação, nosso tempo se tornou muito preciso e criou-se a ideia de ritmo frenético. Somos conduzidos a construir uma vida frenética também, pois, como diria Maria Rita Kehl, "nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso aproveitar o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso". Pensemos um pouco: somos capazes de conceber alguma forma de permanecer no mundo a não ser a da velocidade ou nos encontramos, verdadeiramente, mergulhados na urgência dos acontecimentos, compromissos e afazeres?
Após alguns anos, Michael está prestes a se tornar o presidente da empresa e percebe que está sozinho numa casa com aparelhos tecnológicos de última geração. Ele encontra-se abandonado, vazio e solitário após a separação com Donna e vive constantemente no piloto automático, com o corpo presente e a mente ausente em todas as situações.
Em estado de automatismo, pulando várias cenas e etapas da vida, sua memória começa a ser afetada a ponto de não se lembrar de nada. Michael sequer soube da morte do pai e não pôde voltar ao velório porque, naquele momento, estava trabalhando - e nem se lembrava disso. A compressão do tempo que produziu a instantaneidade diante de tantos afazeres compromete, de fato, a memória. Basta projetarmos esta tese para o nosso cotidiano.
Ao se dar conta que suas escolhas o levaram às mais sérias consequências, sua maneira de contemplar a vida muda dramaticamente: Michael reconhece que a família está acima de tudo e morre.
A grande revelação do filme está no final. Na verdade, toda a história não passa de um sonho que Michael teve ao se deitar em uma cama da loja que ele estava no início. Percebendo que ainda pode modificar sua vida, sai do estabelecimento disposto a trabalhar menos, dedicar-se mais à família e aproveitar cada minuto ao lado das pessoas que ama. É lógico que aí encontramos um paradoxo. Projetando mais uma vez esta ideia para nossa realidade, temos a consciência de que, para a maioria dos trabalhadores, não é possível trabalhar menos tendo em vista suas necessidades, bem como as relações de exploração a que estão submetidos.
Este filme retrata situações do cotidiano e questões que ajudam a refletir sobre o modo como os indivíduos se relacionam com o outro e com o tempo: aborda a valorização do individualismo sobre o convívio coletivo. Também propõe a discussão da essência da vida, com a pretensão de que seja plena, satisfatória, feliz e segura. Este ideal parece estar no acúmulo material proporcional ao excesso de trabalho. O roteiro questiona o que realmente pode trazer alegria e realização às pessoas. Há quem pense que uma viagem para o exterior, a casa na praia, uma fazenda, o celular do momento ou o carro do ano são as soluções para estes anseios. A produção de Coraci consegue fazer uma bela associação de que a felicidade e a satisfação não estão naquilo que se consome e que se pode ter; a mensagem transmitida em Click sugere a crise de valores e referenciais, a fragmentação da existência. A questão central, resumidamente, é o sentido da vida e o que fazemos dela a partir de nossas escolhas, isto é, daquelas que estão ao nosso alcance, longe dos padrões hollywoodianos.
Há uns três anos recebi um e-mail curioso. Não sei se o mesmo retratava uma situação verídica, mas apresentava alguns elementos interessantes para refletirmos acerca do poder da publicidade e o quanto ela influencia o consumo infantil.
A mensagem dizia respeito ao comercial do laptop da Xuxa e trazia o depoimento de um pai publicado em um jornal, cujo lamento estava no fato de a filha querer desesperadamente o produto da "estrela" global porque sua felicidade parecia depender do tal laptop.
Pois bem. Decidi procurar o comercial e encontrei o seguinte:
Cheio de efeitos visuais e super alegre, qualquer criança que assiste a este comercial consegue ser convencida de que descer no arco-íris com o laptop da Xuxa é muito mais legal, divertido, interativo e até educativo do que o papel e o lápis de colorir, uma combinação que ajuda a desenvolver a criatividade, o gosto pela arte e a expressão da subjetividade. Podemos notar que as meninas parecem até mais felizes quando estão com o aparelho portátil; a expressão facial é determinante para garantir a excelência do produto.
Este comercial nos ensina que existe uma pedagogia do consumo ligada à publicidade infantil. Desde cedo as crianças começam a ter desejos voltados para o consumo porque a mídia perversa, os empresários e publicitários, todos perversos também, aproveitam-se da imaturidade e falta de discernimento de uma criança e inserem nela um mundo de fantasias que muitas vezes nem existe, mas que traz a promessa da felicidade. Assim como o trabalho deturpa os valores e a subjetividade dos homens, a marca do desejo é inscrita precocemente na infância.
Quando vi este anúncio, lembrei de uma mulher que adora falar que sua filha se parece com a Barbie, primeiro porque ela segue os padrões da boneca mais desejada do mundo. Segundo porque a garota está sendo educada desde cedo a ter esses objetos de Barbies e Xuxas que estão pelo mundo afora e que formarão sua identidade. Isso é extremamente perigoso.
Apenas os pais podem educar seus filhos para a vida. Com o espetáculo midiático não se pode contar, uma vez que o mesmo "educa" de forma poderosa para o consumo que muitas vezes sequer é necessário, não fosse a insistência de que ter o produto pode fazer o indivíduo feliz, além de ser vital. Como não existe um cuidado com a publicidade infantil e as propagandas não são reguladas, cria-se a ilusão de que todos são livres e capazes de terem aquilo que desejarem. Basta analisar o desejo e o desespero de crianças cujas famílias não possuem a renda necessária para adquirir tais produtos e estarem igualmente expostas à invasiva, massiva, cruel e desumana publicidade infantil.
Termino com uma pergunta: o que se pode esperar de uma sociedade na qual interesses comerciais se sobrepõem aos cuidados básicos com a infância?
Socióloga que adora escrever para criar um ritual em que o homem é a própria magia. Prioriza os debates, as reflexões e as intermitências do cotidiano.