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  1. Os Oito Odiados: sobre odiar e ser odiado

    domingo, 24 de janeiro de 2016

    Há alguns dias assisti ao mais recente filme de Tarantino: Os Oito Odiados. Como este não é um blog exclusivo sobre cinema, não me concentrarei nos aspectos técnicos; o propósito é levantar algumas reflexões além da trama composta por extensos diálogos ao longo das três horas de filme.


    O caçador de recompensas John Ruth tem a missão de atravessar o Estado de Wyoming com sua prisioneira, a assassina Daisy Domergue, cujo destino está previamente traçado: ela deve ser enforcada em Red Rock. Durante o percurso, e sob uma nevasca violenta e arrepiante que se aproxima, eles encontram o Major Marquis Warren e, mais adiante, o futuro xerife Chris Mannix. Ambos solicitam carona a Ruth que, após todo um interrogatório sob as mais variadas suspeitas, acaba cedendo. A força implacável da natureza gélida os obriga a buscar abrigo em uma cabana, o Armazém da Minnie. Este já encontra-se ocupado por um grupo de homens: o carrasco britânico Oswaldo Mobray, o mexicano Bob, o general Sandy Smithers e o vaqueiro enigmático Joe Gage. John Ruth percebe que paira um mistério na cabana e que "cabeças vão rolar". Os oito odiados estão reunidos e prontos para desenrolar toda a história.

    Fonte: Cinema a dois
    ***Aviso: Spoiler***

    O diretor e toda a equipe possuem seus méritos. Figurinos muito bons, roteiro interessante, elenco e fotografia que dispensam comentários e uma brilhante trilha sonora de Ennio Morricone, grande mestre na arte de elaborar músicas dos filmes de faroeste. Entretanto, a história em si me pareceu fraca, não é altamente elaborada. Apesar disso, a grande sacada está nas entrelinhas da narrativa. Tarantino, em Os Oito Odiados, lida com questões - neste caso, conflitos - bem pontuais que ainda persistem não apenas na sociedade norteamericana, mas em escala global: a desigualdade/pluralidade racial, étnica e de gênero. 
    Intencionalmente, são reunidos no mesmo lugar personagens que odeiam e são odiados, gerando um clima de tensão em que qualquer faísca pode ser fatal para uma explosão de sangue. Analisemos novamente os personagens: de um lado, Smithers, um general confederado que assassinou cruelmente milhares de soldados negros durante a Guerra Civil Americana e Mannix, que esteve presente na guerra junto à Confederação; de outro, o major negro Warren que atuou no mesmo conflito e que matou outros milhares de índios. Esta dualidade também se aplica ao mexicano Bob, o latino que simboliza os conflitos colonialistas que impulsionaram a formação de vários países - inclusive os Estados Unidos - e a dona do Armazém Minnie, negra que tinha aversão a mexicanos. Quanto aos carrascos, ao evidenciar a essência britânica de Mobray, fica clara a intenção de um personagem que represente o povo "fundador" dos Estados Unidos; ao mesmo tempo, John Ruth é a personificação da lei, de querer fazer o que precisa ser feito, de "seguir os protocolos". O.B. Jackson, o condutor da carruagem de Ruth, representa o proletariado, uma vez que no filme ele aparenta ser o que mais trabalha (seria ele a representação do valor protestante, que teve total influência na história norteamericana, de que "o trabalho dignifica o homem"?). Joe Gage, personagem de poucas palavras, é a figura do homem que deu duro em um negócio e conseguiu ganhar dinheiro, mas ainda assim de uma forma misteriosa e digna de desconfiança. Por fim, temos Daisy, que justamente por ser mulher e a única da trama, é desqualificada, inferiorizada e agredida normalmente pelos homens.
    Daisy é submetida a todo tipo de humilhação em Os Oito
    Odiados. Fonte: Adoro Cinema
    Os Oito Odiados é um retrato das tensões culturais e sociais da América: a mulher subordinada, a xenofobia e o ódio voltados aos que são "diferentes" e não pertencem ao mesmo grupo, o racismo explícito. Podemos perceber que Warren é um homem indiscutivelmente bruto e cruel, porém os diálogos deixam claro o quanto ele não consegue mais tolerar as discriminações que sofre, recorrendo à violência (e uma carta falsa de Abraham Lincoln) para se impor e se vingar. Basta observarmos o sadismo com que relata o modo como executou o filho do general Smithers. A questão de gênero se faz tão forte no filme que, na cena final, Mannix tem o poder de decidir quem deve viver e quem deve ser morto. Mesmo honrando sua cor e discriminando os negros, ele se une ao major Warren para executar Daisy, salientando que é melhor unir-se a um homem e deixar as desavenças raciais de lado - pelo menos por um momento - do que dar credibilidade a uma mulher.
    O filme também é uma crítica ao caráter belicista enraizado nos Estados Unidos: a sociedade americana não só foi fundada e formada a partir de conflitos constantes como também é um valor que se faz presente na vida de muitos. A banda Lynyrd Skynyrd, por exemplo, já retratou este fato em algumas de suas canções. É o caso de God & Guns:
    "God and guns keep us strong
    That's what this country was founded on"
    (Deus e armas nos mantêm fortes
    É para isso que este país foi fundado)

    Ou também em That ain't my America:
    "It's to the women and men in their hands they hold a bible and a gun
    And they ain't afraid of nothing when they're holding either one"
    (É para os homens e mulheres que em suas mãos seguram uma bíblia e uma arma
    E eles não têm medo de nada quando estão segurando qualquer um)

    Os Oito Odiados pode ser visto como um filme rico e profundo sob este ângulo. Caso contrário, soa como mera história de faroeste na neve.




  2. Ser criança

    quarta-feira, 8 de outubro de 2014

    Eu me lembro de quando era criança. Mal podia pensar que o dia 12 de outubro estava chegando e ficava ansiosa para receber o meu presente ou a minha grana. Felizmente, tive muitas oportunidades ao longo da vida, inclusive aproveitar o período da infância. Aliás, foi exatamente na minha época de criança que a publicidade massiva começou a decolar e que a erotização precoce entrou no script.
    Pensando nisso, decidi fazer três indicações que discutem o significado de infância e de ser criança e o que está presente no universo desses jovens.

    A invenção da infância
    Clássico. Mostra as disparidades que compõem a realidade das crianças brasileiras. Enquanto aquelas que possuem uma agenda lotada de atividades (escola, natação, balé, vôlei, inglês) se percebem como adultas desde cedo por conta da vida cronometrada, as que trabalham duro a fim de obter abaixo do básico para a sobrevivência e que quase não têm tempo para estudar ou brincar não se veem como adultas.



    Criança, a alma do negócio
    Muitos não têm ideia do quanto a publicidade é perigosa para as crianças e afeta toda a sua trajetória. Neste documentário, diversos profissionais procuram explicar o que se passa psicologicamente com a criança diante dos anúncios e como ela pode se desenvolver desde cedo com o consumismo fazendo parte de sua vida. 



    Muito além do peso
    Mais recente que os anteriores, este documentário retrata a realidade de crianças do Oiapoque ao Chuí e seus hábitos alimentares, considerando que muitos dos nossos jovens estão acima do peso ou obesos. Discute a alimentação e a saúde das crianças e os possíveis problemas que estão enfrentando muito novas (de coração, diabetes, respiração). Isso para não falar no preconceito que provoca depressão. Um assunto sério que envolve política, escola, família e publicidade.



    Este ano foi inaugurado o documentário Tarja Branca. Não pude assisti-lo ainda, mas o tema central é o lúdico: a importância do brincar, tanto na infância quanto na vida adulta.

  3. Balança desregulada

    sábado, 17 de maio de 2014

    Os dados são alarmantes. Metade da população brasileira com mais de 18 anos está acima do peso. Depois de assistir ao documentário Muito além do peso (direção de Estela Renner), penso ser urgente a necessidade de rever todos os setores ligados à alimentação, especialmente a infantil. Começo esta publicação apresentando alguns números retirados do filme. 33,5% das crianças brasileiras estão com sobrepeso ou obesas. Um pacote da batata Ruffles possui cerca de 77g de gordura. Se uma pessoa ingerir uma lata de refrigerante por dia durante um mês, ela estará consumindo, em média, mais de 1kg de açúcar. O curioso é que, mesmo sendo mostrado às crianças que foram entrevistadas no documentário, praticamente todas afirmam que continuarão a ingerir refrigerante frequentemente. Ou, como diz um garoto, continuará "abrindo a felicidade", referindo-se à Coca-Cola.
    Está estatisticamente comprovado: as crianças que ficam muito tempo em frente à televisão tendem a ganhar mais peso. E elas não ficam pouco tempo: assistem, em média, cinco horas de televisão diariamente. A mensagem que Estela Renner procura transmitir é a de que as crianças convivem com um excesso de telas que proporciona o sedentarismo. A tela da televisão, do videogame, do celular, do computador, do tablet.
    Como a criança não é capaz de pensar de forma autônoma, sua imaginação associa a ideia de brincar com a de utilizar esses aparelhos. O corpo dificilmente está em movimento. Para usufruir de todo o aparato tecnológico permitido pelos pais, basta apenas utilizar os dedos. Claro que este problema está ligado à falta de segurança que as ruas proporcionam. Os espaços amplos e públicos de lazer têm diminuído bastante. Desde cedo, as crianças estão aprendendo a lidar com confinamentos. No entanto, os adultos não devem se iludir ao pensarem que deixando os filhos em frente à televisão estarão seguros dos males. Ao contrário. Os empresários, que de bobos nada têm, entopem a televisão de publicidades que incentivam o consumo de bens supérfluos e alimentos nem um pouco saudáveis.
    É comum vermos alguns personagens de desenhos infantis ou do cinema como brindes ou em embalagens de produtos alimentícios como biscoitos, chocolates, bolinhos e salgadinhos. É uma tentação infindável e abusiva, tanto quanto a publicidade que a sustenta.
    Um dado importante para nos atentarmos também é o fato de esses produtos ruins para a saúde e geradores de doenças como diabetes, hipertensão e aumento de colesterol serem mais baratos do que os alimentos saudáveis. Se para nós soa absurdo uma criança não conseguir diferenciar uma manga de um melão ou um pepino de um abacate, podemos simplesmente ignorar os dados apresentados? 
    Certamente muitos pais de filhos obesos têm a sensação de terem fracassado em algum ponto. Embora sejam os principais responsáveis pelo desenvolvimento da criança, existem circunstâncias externas que contribuem para a obesidade. Novamente mais um dado: nos Estados Unidos, o governo federal gasta em torno de 51 milhões de dólares para a divulgação hábitos alimentares saudáveis e exercícios físicos, ao passo que 1,6 bilhões de dólares são gastos pela indústria alimentícia em marketing de produtos com alto teor calórico e pouco nutritivos. O senso de responsabilidade, pelo visto, passa cada vez mais longe das corporações e empresas publicitárias. 
    Além disso, quando se trata de educação, infelizmente a maioria das crianças estão inseridas na lógica da mercadoria e das contradições. As cantinas escolares estão cheias desses alimentos. Se um aluno resolve levar uma fruta para comer no intervalo, ele provavelmente se sentirá intimidado diante das guloseimas que estão no cardápio diário de seus colegas. Então se falta estímulo, o quadro se torna mais difícil de ser revertido.
    O que Estela Renner sugere, e com muita razão, é que aulas de educação alimentar façam parte do currículo escolar. Não se resolve um problema complexo com palestraras, do que pode e do que não pode, porque isso todos nós já sabemos. Ela mesma afirma: "Como se trata um alcoólatra? Basta dizer "não beba"? Não. Você oferece terapia, você dá remédio, dá carinho, dá conforto. Com uma criança - e mesmo com um adulto obeso - é a mesma coisa. Não pode falar "não coma"." 
    Muito além do peso é imperdível e pode ser visto no Youtube.




  4. Rolês e Rolos

    sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

    Por que os rolezinhos estão causando tanto impacto nas mídias e redes sociais? Porque dividem o público e, sobretudo, revelam algumas das contradições sociais existentes. 
    Embora os rolês estejam ganhando visibilidade nos últimos dias, eles tiveram início em dezembro. Só para se ter uma ideia, no sábado, 14 de dezembro, houve um encontro num shopping da região de Guarulhos. Não foi registrada uma ocorrência sequer. Sem roubos, sem "arrastão", sem algo considerado ilícito. Mesmo assim, 23 jovens foram encaminhados à delegacia. Este já era um indicativo do que aguardava esses jovens nos rolês que se sucederam.
    O estopim  se deu no Shopping Itaquera no último final de semana. Houve repressão por parte da polícia que, por sinal, há tempos vem utilizando a "legitimidade do uso da força" em favor dos interesses das elites e colaborando demasiadamente para a discriminação social dos grupos que se encontram à margem da sociedade. Houve sensação de terror: lojas foram fechadas, pessoas correndo por todos os lados.
    Após o tumulto, jornais se encarregaram de pautas e coberturas sobre os rolês. Enquanto isso, diversos shoppings foram atrás de liminares na justiça para impedir que os rolezinhos acontecessem dentro de seus estabelecimentos, como o JK Iguatemi. E foi aí que o problema começou. Ou melhor, uma nova faceta de um problema antigo surgiu.

    Histórico
    Fonte: Portal Ctb
    Em fevereiro de 2012, aproximadamente 300 manifestantes da Marcha contra o Racismo realizaram uma manifestação partindo do Largo Santa Cecília em direção ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Lojas fecharam e seguranças tentaram impedir a entrada. Em novembro de 2013, o Shopping Parangaba, em Fortaleza (CE), foi o palco de repressão e humilhação de jovens negros. Em dezembro, o mesmo ocorreu em Vitória (ES). Os rolês em São Paulo representam uma variação. Mas, no fundo, estão querendo passar a mesma mensagem, que abordaremos adiante.


    Está claro o preconceito
    Muita gente procurou mostrar que, na verdade, o que existe é preconceito. Enquanto os rolês dos jovens das regiões periféricas, em sua maioria negros, estão no auge da repercussão midiática, cercados de comentários preconceituosos, pouco se ouve falar do famoso "rolê" dos estudantes/calouros da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) no shopping Eldorado que ocorre anualmente, e há pelo menos 7 anos. Assim como o rolezinho, os alunos, em sua maioria brancos, entram num grande grupo, gritando palavras de ordem e seguem cantando para comemorar o ingresso na universidade. Não há repressão e as lojas não são fechadas. Os clientes não temem por um arrastão. A ordem parece não ser perturbada. Se levarmos em conta as reações das pessoas em cada caso, está ou não está clara a existência do preconceito, inclusive por parte da mídia? Será que este ano o PIG (Partido da Imprensa Golpista) se lembrará de mostrar a festa dos "bixos" da USP?


    Rolês e Rolos: como são vistos
    Como nem só de comparações se criam argumentos, deixemos os calouros da USP pra lá. Para desenvolver minha análise sobre os rolezinhos, começarei publicando o comentário da jornalista Rachel Sheherazade, que considero uma das grandes manipuladoras da massa televisiva.


    E o que o público que condena os rolezinhos diz de tudo isso? Bem, esta semana encontrei uma notícia da Folha de São Paulo no Facebook com a seguinte manchete: "Em apoio a jovens de São Paulo, cariocas marcam rolezinho em shopping no Leblon". Os comentários são taxativos: "Rolezinho na biblioteca esses vagabundos não querem fazer"; "Por que não fazem um rolezinho na cadeia?"; "Em apoio à PM de São Paulo, a PM do Rio vai descer o cassetete no pessoal do rolezinho. Com toda razão!"; "Trabalhar que é bom essa cambada de desocupado não quer né?". E assim por diante. Outros comentários que li ou ouvi algum entrevistado dizer: "maloqueiros", "vândalos", "bandidos". 
    Poucos sabem, contudo, que grande parte desses jovens já trabalham, muitos na informalidade, e que realizam atividades mal remuneradas. Quer dizer que todos que participam do rolezinho merecem cadeia, sem estarem fazendo nada que seja considerado um crime? Os shoppings só correm o risco de serem assaltados nessas ocasiões ou a memória está curta e há muita falta de informação? Porque um jovem se atreveu a fazer parte do rolezinho ele tem que apanhar da polícia e ser hostilizado? Tem algo errado aí. Os comentários revelam uma discriminação de "cara lavada" porque a maioria dos indivíduos acredita que esses jovens não sabem qual é o seu lugar e alguém tem que lhes mostrar.
    Agora, vamos responder ao primeiro comentário. Por que não fazem o rolê na biblioteca? Ora, parece óbvio. Dou a resposta nas palavras de Juninho Jr, um dos organizadores do rolezinho: "A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com este sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupados pelo andar de cima, aí gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela opressão" (entrevista ao Brasil de Fato). Os jovens da periferia são obrigados a engolir o tempo todo o discurso do consumo e do status, e os shoppings acabam constituindo o local ideal de lazer.

    Qual é a dos shoppings?
    Os espaços públicos estão desaparecendo. As atividades consideradas culturais (teatros, cinemas, livrarias, jogos) têm sido absorvidas pelos shoppings centers. São locais privados, mas abertos a todos os indivíduos. Acontece que a ideia que se tem de um shopping normalmente é a de um templo, não religioso, mas onde consumir é praticamente um ritual, e dos mais fiéis. Sendo assim, shoppings reúnem amigos, familiares e desconhecidos no mundo do comércio. Se, por um lado, constituem um lugar onde algumas pessoas passam muitas horas de lazer e vivem boa parte de sua vida social, por outro, esses ambientes sustentam um meio artificial de cultura, porque possuem como finalidade a compra de bens e entretenimento - sem contar que também são locais que procuram adestrar o comportamento dos indivíduos.
    De uma forma ou de outra, os jovens dos rolezinhos também querem ter acesso e usufruir dos bens materiais que funcionam como signos: são representações de poder, reconhecimento e status. 
    Questionaram o famoso direito de ir e vir, assegurado pela Constituição Federal, independente de raça, classe econômica e social, etc. Com as liminares que foram concedidas, questionou-se a discriminação por parte da própria justiça, uma justiça que atua em favor da manutenção da desigualdade, como se os shoppings fossem locais exclusivos de um grupo. Para o jornalista Rodrigo Vianna, "o 'rolezinho' demonstra o paradoxo da elite brasileira, que por um lado quer crescimento econômico, mas por outro quer manter os de pele marrom confinados na senzala". 
    Os defensores do rolezinho começaram a falar em apartheid racial e social e foram imediatamente taxados de burros, tamanha aberração falar em apartheid. A minha pergunta é: as fronteiras, visíveis e invisíveis, de uma cidade como São Paulo, são tão imperceptíveis assim? Se analisarmos a cidade, e não precisa ser especialista para isso, veremos que os bairros estão claramente divididos; podemos distinguir o que é periférico e o que não é, podemos distinguir os níveis econômicos sem grande esforço: sabemos muito bem quais são os bairros nobres, os da dita classe média, os de baixa renda. É inegável que existe uma segregação e que esta afeta as possibilidades de acesso a determinadas áreas e o usufruto de bens materiais e culturais.
    Muitos chegaram a comentar que não era necessário ir em "bando" para o shopping; a ideia é mais ou menos assim: "todo mundo tem direito de ir ao shopping, mas ninguém vai com a galera toda da rua. Qualquer um pode ir com sua turminha de amigos, mas ir aos montes já é pra chamar a atenção e perturbar". Não tenho grandes experiências em shoppings, mas nas vezes que já frequentei pude notar cenas desanimadoras. Ok, bando não pode. Então o jovem decide ir com seus quatro amigos para o templo de consumo. E o que acontece? Vemos a expressão repugnante e o olhar taxativo de alguns frequentadores para o grupinho que foi lá pra se divertir e dar o seu rolê. Moral da história: normalmente, não importa se estão em três ou em cem: mesmo que nada ocorra, o olhar denuncia. E uma verdade que custa para ser admitida: uma grande parcela de negros e/ou pobres no shopping assusta a maioria das pessoas. E se o fenômeno se tornasse comum? Certamente a elite inventaria outro lugar para frequentar, e a patética classe média pegaria o mesmo bonde, pois procura se afastar das classes populares.
    Muito seriamente, os rolezinhos evidenciaram a falta de opções de lazer para a maioria dos jovens pobres. O prefeito Haddad reconheceu que na cidade de São Paulo os espaços para se usufruir variam de região para região, e que na periférica são escassos. Se o reconhecimento foi feito, é necessário agora repensar a dinâmica do lazer na cidade. Não no sentido de oferecer opções para que os jovens não frequentem os shoppings, mas para que tenham possibilidades similares.

    Jovens, consumo e shoppings
    Como afirmei, os shoppings são considerados templos de consumo. Dão a falsa sensação de segurança que o espaço público não oferece. Como se não bastasse, vivemos constantemente com o discurso do consumo e da felicidade interligados para o sagrado fim: a realização pessoal. Ocorre nesse processo a reprodução e propagação de um estilo de vida consumista que forma a identidade e a individualidade de todos (sim, não só dos jovens). Na busca pela realização e segurança, o consumo ganha importância e funciona como um véu para cobrir necessidades e anseios. 
    O consumo também funciona como uma forma de distinção das classes sociais, e isso os rolezinhos deixaram bem claro. Para fechar este posicionamento, cito um trecho de um trabalho do sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes que dá o tom da questão:
    "Os jovens são mergulhados em espaços estéticos gerados pela imagem televisiva e pela visibilidade anônima da vida urbana. A valorização de espaços de consumo de classe média, como os shopping centers, apontados como área de lazer de fim de semana, indica que, mesmo em desvantagem em relação aos grupos dominantes, há uma permanente tentativa de diferenciação do lugar de origem, do próprio grupo, prevalecendo a individualização. A tentativa de se adaptar à moda vestimentária ditada pelos canais de comunicação é um exemplo desse fenômeno. [...] Assim, o que consumimos é nossa marca visível e determina inclusive nosso lugar social. O consumo, que passa a ser vivenciado como mecanismo de inserção e de status, traz a ideia de acesso a um mundo social existente em nossa volta."¹
    Indico também a leitura "Etnografia do Rolezinho", de Rosana Pinheiro.

    Hiato
    Os rolezinhos podem ser associados, em partes, ao que o documentário Hiato nos mostra. Em 2000, manifestantes ocuparam um shopping da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como os rolezinhos, este acontecimento também gerou uma repercussão muito grande na mídia. O que há de mais interessante em Hiato são as vozes dos que nunca são ouvidos. Também temos comentários de professores universitários que tentam elucidar o episódio e o que ele representou.
    No fundo, Hiato e os rolezinhos perpassam por uma questão séria, que é a do direito de acessibilidade que parece ser dado a alguns e negado a outros, como se uns fossem mais cidadãos que outros. Hiato foi dirigido por Vladimir Seixas. Tempo de duração: 20 minutos.

    Nota:
    1 - Consumo e identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular no Distrito Federal. 

  5. Nunca dois sem três

    sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

    "Tu me disseste: Eu te amo. Eu te disse: Espera. Eu ia dizer: Leva-me comigo. Tu me disseste: Vai embora."

    Jules e Jim é um clássico na literatura (1953) e no cinema (1962). Nesta publicação, pretendo enfatizar as semelhanças entre os trabalhos de Henri-Pierre Roché, autor do romance, e François Truffaut¹, diretor da película.
    Nossa história começa na Paris do início do século XX, no ano de 1907, com o surgimento da bela amizade entre o alemão Jules e o francês Jim. O primeiro, com uma personalidade muito marcante, que tende sempre a expor suas emoções, a se exaltar e, por vezes, ter crises por conta de seus exageros. O segundo, mais introvertido e acanhado. Amantes da arte, especialmente da literatura, compartilhavam e traduziam seus poemas juntos. Apaixonados pela vida, conheciam muitas mulheres. Resumindo: trata-se de um romance, e o mérito é que foge das convenções tradicionais de relacionamento.
    O filme pula a primeira parte do livro, na qual Jules pretende se casar com Lucie, uma "beldade gótica" e estudante de pintura. Também acaba não tendo sucesso com outras mulheres que são suas conhecidas ou que são apresentadas por intermédio de Jim. O ponto em comum das duas obras é uma viagem que os amigos fazem para a Grécia com o compatriota Albert, que lhes mostra uma coleção de fotos e, numa delas, notam um sorriso de uma estátua que os deixa fascinados. Os três decidem ir à ilha para "ver de perto" a estátua recentemente exumada.
    Eles a contemplam por uma hora em silêncio diante daquele sorriso poderoso, e prometem que se o encontrassem algum dia em alguma mulher, iriam atrás dele.
    Quando Jules e Jim retornam a Paris, conhecem a personagem mais intensa e complexa: Kathe (no filme, o nome é Catherine, mas vou manter o original), a mulher que tinha o sorriso da estátua.
    Os três logo se tornam grandes e inseparáveis amigos e fazem tudo juntos ao estilo "carpe diem". A imagem mais clássica do filme - que se tornou capa do livro - é os três apostando uma corrida, na qual Kathe está com um traje masculino e ganha trapaceando.


    Jules se apaixona demasiadamente por Kathe e pede a Jim para não interferir neste relacionamento, pois quer se casar com ela. Numa noite, após apreciarem uma peça de teatro², o trio passeia pelas margens do Sena e o mergulho de Kathe surpreende ambos, mais a Jules, que se mostra desesperado.


    Jules e Kathe se casam, mas logo vem a Primeira Guerra Mundial e a horrível experiência das trincheiras. Jules combate pela Alemanha na Tríplice Aliança e Jim pela França na Tríplice Entente. Ambos temem matar o outro, pois nem a rivalidade dos países é capaz de pôr fim à amizade e propriamente ao amor existente entre os dois.
    Com o fim dos conflitos, Jules e Jim se reencontram e o francês conhece o lar de Kathe, Jules e da pequena Sabine, filha do casal.³ 


    A crise do casamento é perceptível para Jim e os amigos têm uma conversa franca. Jules revela que tem conhecimento dos amantes de Kathe, inclusive Albert, o mesmo que lhes mostrou a estátua. Ela também conta sua versão para Jim num outro momento.
    Por fim, Jules se convence de que já não é possível manter o matrimônio e pede para que Jim se case com ela, pois não quer perdê-la definitivamente. Em nome da amizade, Jim aceita e passa a viver na mesma casa. Mas logo começam as crises, além de Kathe não conseguir engravidar. A relação entre Jim e Kathe também se torna insustentável. Paralelamente, desde o início do filme, sabemos que Jim se envolve com a francesa Gilberte. Num reencontro em Paris, Jim decide que quer se casar com Gilberte e viver ao lado da bela mulher. Fora de cogitação para Kathe; ela não consegue aceitar e o desfecho da história também é inesperado: Jim e Kathe estão no carro desta enquanto Jules os assiste. Repentinamente, Kathe vai com o veículo em direção a um rio ali próximo. Jules presencia o último mergulho no Sena.

    Breve análise
    Para a surpresa de muitos, inclusive do então crítico de cinema Truffaut, Jules et Jim, título original, é a primeira obra publicada de Roché, aos 76 anos! E mais: trata-se de um romance autobiográfico, com seus relatos e memórias.
    Só é possível analisar a dimensão e a importância deste clássico levando em consideração a época em que foi produzido e como ainda continua tão marcante e presente. Como pudemos perceber, trata-se de um romance libertário em plena década de 1960 (que já dava seus indícios do surgimento da contra-cultura) e que, ainda nos dias de hoje, é cativante e impactante. A obra trabalha muito bem o aspecto emocional e "le tourbillon de la vie" propriamente dito, a grande canção do filme que, por sinal, apresenta uma trilha sonora lindíssima e comovente. 
    O que percebemos nos personagens (cada um a seu modo) é que eles, com suas contradições, defendem a intensidade das emoções: do amor, da paixão, da amizade e do companheirismo. Toda e qualquer forma de afeto revelada na trama causa a sensação de que os atores estão realmente entregues à história e estão vivendo-a de verdade. Isso faz com que as cenas se tornem puras, belas e limpas, sem recorrer a exageros ou superficialidades.
    Kathe é uma personagem que merece destaque. A princípio, o diretor trabalha com a ideia de mulher ideal quando Jules e Jim encontram nela o sorriso da estátua. No entanto, a jovem apresenta uma personalidade forte e ao mesmo tempo contraditória. É temperamental e vive oscilando emocionalmente. É alguém que busca o tempo todo a atenção dos outros e, em alguns momentos, sua felicidade parece depender da infelicidade dos amigos. Kathe não mede esforços para atingir o que procura - na verdade, parece que não sabe ao certo o que busca, o que revela sua forma de se sobressair em quaisquer ocasiões utilizando-se de todos os meios possíveis, mostrando-nos seu caráter de mulher imprevisível. O modo de vida escolhido por Kathe também não soa como protesto. Truffaut afirmou: "Entretanto, e a despeito de sua aparência "moderna", o filme não tem caráter polêmico. Provavelmente, a jovem mulher de Jules e Jim quer viver da mesma forma que um homem, mas esta é uma particularidade de seu caráter e não uma atitude feminista e reivindicatória".
    Jules, em conversa com Jim, define Kathe da melhor forma possível: "Não é excepcionalmente bela, nem inteligente, nem honesta, mas é uma mulher de verdade. É a mulher que nós amamos. É a mulher que todos os homens desejam. Por que Catherine, passando por cima de tudo, exige sempre a nossa presença? Porque nós lhe damos completa e total atenção, como a uma rainha". Isso faz de Kathe uma personagem amável e, ao mesmo tempo, detestável.
    Como afirmei no início, Roché e Truffaut, através de diálogos simples, trabalham com temas que, para muitos, são tabus: a liberdade sexual, a infidelidade e a busca por valores que fogem da linha tradicional e conservadora no que diz respeito a relacionamentos amorosos. É este o grande mérito dos autores: o tom não é de imposição de uma moral, seja ela qual for, pois a abordagem do filme não é apelativa nem erótica; o tom de sofrimento e tristeza é muito claro nos três personagens. Truffaut declarou em uma entrevista: "Nem sempre sendo o casal a solução ideal e satisfatória, parece legítimo buscar uma moral diferente, outros modos de vida, embora todos esses arranjos estejam fadados ao fracasso".
    É por esta razão que faço questão de citar Michel Delahaye, para encerrar: "Que a nobreza de Jules e Jim o façam escapar dos atentados de todos aqueles para quem é imoralidade a busca de outra moralidade, feiura, a de outra beleza - que o façam planar acima de todas as ortodoxias, velhas ou novas".
    Jules e Jim não é uma simples história de amor em que todos são felizes para sempre.



    Referência:
    Truffaut, François. Jules et Jim: o romance, o roteiro/ roteiro de François Truffaut, romance de Henri-Pierre Roché. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

    Notas
    1: Truffaut é um nome marcante do cinema francês e um pouco de sua difícil trajetória de vida pode ser vista no filme em que ele mesmo dirigiu, Os Incompreendidos (1959).
    2: No livro, o mergulho de Kathe ocorre após um jantar que sela sua união com Jules.
    3: No livro, Kathe tem duas filhas com Jules: Lisbeth e Martine. 


  6. Click: o que podemos estar fazendo de nós

    segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

    Embora se trate de uma ficção, o filme Click, produzido por Frank Coraci em 2006, engloba diversas categorias de análise e elementos científicos das pesquisas sociológicas recentes: a compressão do tempo, o trabalho e as atividades excessivas do cotidiano, o consumo, a instantaneidade, as relações fragilizadas. Esta comédia evidencia a efemeridade e o convívio destruído pela inovação tecnológica, aliado à falta de tempo e aos sentimentos de desequilíbrio e impotência.
    A trama relata a história do arquiteto Michael Newman, sua esposa Donna e seus dois filhos. Ao decidir que pretende ser o sócio da companhia onde trabalha, Michael começa a trabalhar demasiadamente. Tudo em nome da realização profissional. Esta escolha, no entanto, afasta-o de sua família; ele não consegue mais se dedicar ao ambiente familiar, ter momentos de descontração, lazer e mal se atenta à saúde. Resultado: dominado pelo estresse e pressionado por todos os lados, Newman resolve ir até a uma loja de departamento a fim de comprar uma espécie de controle remoto universal, adquirindo-o na sessão intitulada "Além".
    Ao começar a utilizar o controle, Michael logo descobre que o objeto possui o poder incrível de "controlar" o tempo e o espaço: pode estar em qualquer lugar ou tempo quando desejar, seja no passado, presente ou futuro.
    Com o Menu da Vida, Michael se sente
    o Todo-Poderoso
    Esta descoberta produz a sensação de Todo-Poderoso: com o Menu da Vida em suas mãos, o protagonista pode tomar todas as decisões de sua vida. A ênfase de Michael reside, sobretudo, no futuro em função de seu trabalho, do anseio pela promoção e aumento salarial. Aparentemente, ele parece ter encontrado a solução de seus problemas e, através de um clique, passa a acelerar os momentos em que se encontra com a esposa e os filhos, sem saber que o controle possui memória automática e o mesmo começa a apressar sempre as ocasiões em que o arquiteto não está trabalhando.
    Nesse sentido, associo  o filme ao princípio operativo weberiano da civilização moderna: a busca pela eliminação do tempo improdutivo, ocioso e, portanto, desperdiçado. Esta forma de conceber e controlar o tempo causa impacto na condição da existência humana. Com um desenvolvimento tecnológico cada vez maior em todos os setores, especialmente nos transportes e na comunicação, nosso tempo se tornou muito preciso e criou-se a ideia de ritmo frenético. Somos conduzidos a construir uma vida frenética também, pois, como diria Maria Rita Kehl, "nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso aproveitar o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso". Pensemos um pouco: somos capazes de conceber alguma forma de permanecer no mundo a não ser a da velocidade ou nos encontramos, verdadeiramente, mergulhados na urgência dos acontecimentos, compromissos e afazeres?
    Após alguns anos, Michael está prestes a se tornar o presidente da empresa e percebe que está sozinho numa casa com aparelhos tecnológicos de última geração. Ele encontra-se abandonado, vazio e solitário após a separação com Donna e vive constantemente no piloto automático, com o corpo presente e a mente ausente em todas as situações.
    Em estado de automatismo, pulando várias cenas e etapas da vida, sua memória começa a ser afetada a ponto de não se lembrar de nada. Michael sequer soube da morte do pai e não pôde voltar ao velório porque, naquele momento, estava trabalhando - e nem se lembrava disso. A compressão do tempo que produziu a instantaneidade diante de tantos afazeres compromete, de fato, a memória. Basta projetarmos esta tese para o nosso cotidiano.
    Ao se dar conta que suas escolhas o levaram às mais sérias consequências, sua maneira de contemplar a vida muda dramaticamente: Michael reconhece que a família está acima de tudo e morre.
    A grande revelação do filme está no final. Na verdade, toda a história não passa de um sonho que Michael teve ao se deitar em uma cama da loja que ele estava no início. Percebendo que ainda pode modificar sua vida, sai do estabelecimento disposto a trabalhar menos, dedicar-se mais à família e aproveitar cada minuto ao lado das pessoas que ama. É lógico que aí encontramos um paradoxo. Projetando mais uma vez esta ideia para nossa realidade, temos a consciência de que, para a maioria dos trabalhadores, não é possível trabalhar menos tendo em vista suas necessidades, bem como as relações de exploração a que estão submetidos.
    Este filme retrata situações do cotidiano e questões que ajudam a refletir sobre o modo como os indivíduos se relacionam com o outro e com o tempo: aborda a valorização do individualismo sobre o convívio coletivo. Também propõe a discussão da essência da vida, com a pretensão de que seja plena, satisfatória, feliz e segura. Este ideal parece estar no acúmulo material proporcional ao excesso de trabalho. O roteiro questiona o que realmente pode trazer alegria e realização às pessoas. Há quem pense que uma viagem para o exterior, a casa na praia, uma fazenda, o celular do momento ou o carro do ano são as soluções para estes anseios. A produção de Coraci consegue fazer uma bela associação de que a felicidade e a satisfação não estão naquilo que se consome e que se pode ter; a mensagem transmitida em Click sugere a crise de valores e referenciais, a fragmentação da existência. A questão central, resumidamente, é o sentido da vida e o que fazemos dela a partir de nossas escolhas, isto é, daquelas que estão ao nosso alcance, longe dos padrões hollywoodianos.

  7. Os sonhos e as (des)ilusões de Serra Pelada

    sábado, 9 de novembro de 2013

    Serra Pelada: A Lenda da Montanha de Ouro é um filme que me instigou a refletir tanto sobre a realidade nua e crua do garimpo quanto as falhas apresentadas. Começarei pelo ponto mais fraco: em alguns momentos, tive a sensação de que Serra Pelada serviu apenas como cenário de dramas pessoais de uma película qualquer. Serra Pelada deveria ser a grande protagonista de toda a história, mas foi base de casos aleatórios que se cruzam em determinados momentos. 
    Em contrapartida, um dos grandes méritos do filme é o desconforto que ele causou ao apresentar o enorme formigueiro humano, a grande concentração de homens, de trabalho e de suor. Serra Pelada significou a busca pelo ouro brasileiro do século XX, no final dos anos 70 e início dos 80.


    Os milhares de homens vinham de todos os cantos do Brasil e muitos deixaram os considerados "bens mais preciosos" - família, estudo, trabalho - em troca de uma condição absolutamente degradante, pois Serra Pelada representou, acima de tudo, a forma mais rápida e fácil de ficar rico, de realizar sonhos e de se criar ilusões. No filme, a atenção é particularmente voltada para os amigos Joaquim e Juliano que, inicialmente, trabalham como garimpeiros e, tendo sucesso no que fazem, começam a despertar a atenção de dois "chefões": Carvalho e Lindo Rico, com personalidades completamente distintas, porém símbolos de ameaça e perigo bem parecidos, cada um à sua maneira. Apesar de os amigos seguirem caminhos opostos e serem guiados por ideias, sonhos e vontades distintas - o que os leva a desfechos diferentes na trama -, ambos tomam consciência do que significa a vida no garimpo através de uma frase dita duas vezes: "Este lugar piora as pessoas". Podemos acompanhar a busca desenfreada por dinheiro, poder e riqueza, e como estes transformam os indivíduos.
    O que podemos perceber ao longo do filme é a transformação da natureza para se atingir finalidades típicas de uma sociedade dominada pelo capital. São combinações historicamente determinadas de forças produtivas, marcadas fortemente pelo antagonismo e por uma interdependência inexorável entre os detentores dos meios de produção (e do capital) e os portadores da força de trabalho. Serra Pelada me fez lembrar de uma passagem da obra Fausto, de Goethe:

    "Eles iriam esbravejar em vão todos os dias,
    Cavar e esburacar, pazada por pazada;
    Onde as tochas enxameavam à noite,
    Havia uma represa quando acordávamos.
    Sacrifícios humanos sangravam,
    Gritos de horror iriam fender a noite,
    E onde as chamas se estreitam na direção do mar,
    Um canal iria saudar a luz."


    Outra atenção merecida é para a personagem Tereza, noiva de Carvalho e amante de Juliano. Por exemplo, eu não me lembro, nas aulas de História, de alguma reflexão sobre o papel e função social da mulher no garimpo. Embora o foco esteja no romance de Tereza com Juliano, é possível compreender, pelas cenas de festas que mostram os momentos ociosos dos trabalhadores e naquelas em que a bela jovem está com o noivo ou o amante, que a mulher aparece mais como um objeto de desejo qualquer, desconsiderando os afetos e a convivência que um relacionamento acarreta. As mulheres se apresentam como súditas: devem servir e atender às necessidades dos homens que as procuram, normalmente - e somente - ligadas às relações físicas, carnais. Por isso há o jogo dos trajes minimalistas, da sensualidade, da provocação. Mas não pára aí. Por ser vista como objeto de prazer e diversão, consequentemente a mulher acaba se tornando propriedade do homem. O sentimento de posse é tão marcante no filme que provoca morte. Eis uma outra realidade bem exibida: a dominação e a desigualdade de gênero. Enquanto Serra Pelada apresenta relações nítidas de hierarquia (proíbem entrada de mulheres, armas de fogo, muitos trabalham para poucos), o local onde se encontram os prazeres e a possibilidade de liberdade aparece como uma espécie de faroeste, uma terra sem lei, onde tudo é permitido - basta estar lá.


    A partir das contradições e complexidades apresentadas no universo do trabalho e na esfera afetiva é que são criadas as desilusões de Serra Pelada, inclusive e principalmente em Juliano e Joaquim. No entanto, esta premissa parece ser válida para nossas vidas também, aqui e agora. É como se a desilusão fosse necessária, mais cedo ou mais tarde. É por esta razão que a mais importante lição do filme é revelada por Joaquim, no final: É mais fácil desistir dos nossos sonhos [no meio do caminho] do que abrir mão deles [em princípio].