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  1. Afinal, Sociologia para quê?

    sábado, 1 de fevereiro de 2014

    As aulas estão retornando e, com elas, a disciplina de Sociologia. Frequentemente ouço jovens e mesmo adultos questionarem: "mas por que sociologia? Para que isso serve?". Às vezes os comentários são mais sentenciosos: "sociologia não serve pra nada!". Talvez não sirva mesmo se o interesse é manter a falta de senso crítico, pessoas acomodadas, mentes resignadas e deixar que os ventos nos levem a algum lugar. Porque, como socióloga, posso afirmar com toda convicção: a sociologia incomoda muito e nos deixa numa situação extremamente desconfortável em certos momentos.
    Recentemente, por exemplo, fiz uma publicação muito curta na minha rede social analisando a conduta dos policiais civis na Cracolândia (SP) e percebi que minha publicação foi completamente censurada. Cheguei a ver uma publicação de um contato que foi direcionada a mim: "sociologia? kkk traduçao: ridiculo, algo que nao tem pq existir, nojo!!!" (comentário na íntegra, com seus erros gramaticais). Não rebati. A autora desta publicação simplesmente não sabe o que é sociologia, e tenho certeza absoluta pois a conheço há anos. Por que discutir com os ignorantes?
    Em 2010, a Revista Veja prestou o desserviço de publicar um artigo de Marcelo Bortoloti intitulado Ideologia na Cartilha. Assim que terminei de ler o tal artigo, referente à obrigatoriedade das disciplinas de Sociologia e Filosofia no Ensino Médio, elaborei uma réplica contestando o autor e os que vibraram com o seu texto completamente equivocado e cheio de lero-lero. Faço questão de publicar no blog porque esclarecimento nunca é demais e o momento de volta as aulas é oportuno. O título é sugestivo: Afinal, Sociologia para quê?

    Esta produção textual é uma réplica ao artigo de Marcelo Bortoloti sobre a obrigatoriedade do ensino das disciplinas de Sociologia e Filosofia no Ensino Médio nas escolas de todo o país.
    Minha análise começa no subtítulo da reportagem, que diz: "Agora obrigatórias no ensino médio brasileiro, a aulas de sociologia e filosofia abusam de conceitos rasos e tom panfletário. Matemática que é bom...". Este subtítulo, digamos, incompleto deixa claro a posição do autor, por isso não foi necessário terminar a frase. No decorrer do artigo, a ideia que se tem da disciplina de Sociologia é a de que ela não faz sentido algum para o aluno. Se é de conteúdo que se trata, falemos de conteúdo. O aluno vê sentido, aos 15 ou 16 anos, em aprender logaritmo? Não estou desmerecendo a Matemática, pois reconheço que, de uma forma ou de outra, todas as ciências e disciplinas são de extrema importância. Acontece que, normalmente, poucas coisas costumam fazer sentido para o aluno. Claro que esta é uma questão pedagógica também, isto é, como o professor vai trabalhar com os conteúdos para desenvolver as habilidades dos alunos. No entanto, questionemos: o aluno vê o sentido em aprender logaritmo, cálculo estequiométrico, a estrutura de um vírus? Ora, me parece claro que o problema da educação é estrutural, e não individual ou particular de uma única disciplina: é do processo educativo como um todo. E isso minha (pouca) experiência como professora não me deixa acreditar que a questão seja outra.
    Logo no início o autor se posiciona: "A leitura atenta desse material traz à luz um festival de conceitos simplificados e de velhos chavões de esquerda que, os especialistas concordam, estão longe de se prestar ao essencial numa sala de aula: expandir o horizonte dos alunos". Quem são esses especialistas? Pertencem a qual área? Por que não são mencionados diretamente? Além disso, parece-me óbvio que uma educação séria e comprometida carrega como valor essencial a referida expansão do horizonte dos alunos, e a Sociologia possui, dentre os objetivos primordiais, o da reflexão, pois nós - sociólogos de verdade - acreditamos que a Sociologia não propõe a solução de tudo (ou seja, ela não aponta onde está esse horizonte), mas sim o aperfeiçoamento das formas de se pensar e ver o mundo; propõe ao aluno que saiba fundamentar suas opiniões, sejam elas quais forem, para que não se enquadrem no senso comum, como Bortoloti neste artigo.
    Quanto às metas do currículo de cada Estado, não acho o material da disciplina, de fato, excelente (refiro-me às apostilas do Estado de São Paulo), mas os temas são fundamentais, e cito exemplos: desigualdade, violência, consumo, trabalho, cultura, identidade, estrutura política. São ou não temas importantes para compreendermos melhor a sociedade que vivemos? Outra coisa que me parece clara: como o Estado vai produzir um material denso e complexo que proporcione a reflexão profunda dos problemas que ele mesmo gera? É por isso que devem existir bons professores que não se restrinjam apenas ao material oferecido.
    Quando o autor diz que a proposta explícita das aulas de Goiás (incrustar no aluno a ideia de que a constante diminuição de cargos em empresas do mundo capitalista é um fator estrutural do sistema econômico) "desconsidera o fato de que esse mesmo regime resultou em mais e melhores empregos no curso da história", Bortoloti se esquece - ou finge não saber - de que no modo de produção capitalista, pela primeira vez na história e por conta do desenvolvimento tecnológico e das novas relações de produção, uma parcela do tempo do trabalhador passou a ser expropriada sem que ele saiba, uma vez que em todos os modos de produção anteriores existia uma noção mais nítida de posição social, estratificação e hierarquia. Isso sem contar o fato de que a condição essencial para que o capitalismo sobreviva é a permanência da desigualdade.
    Outro ponto importante é quando o autor alega que os cursos de Filosofia e Sociologia se ancoram num ideário marxista e que, na verdade, estão cada vez mais distantes do rigor da complexidade do pensamento de Marx. Precisamos tomar cuidado. Primeiramente, o ideal e não generalizar o posicionamento desses cursos, como foi feito. Para quem não acredita, existe sim conservadorismo nos cursos de ciências humanas, existe sim gente que não compartilha de ideias marxistas. Quanto ao próprio Marx, César Benjamin fez uma excelente colocação, ao afirmar que "nunca foi tão necessário retornar a Marx. Um dos elementos de nossa crise teórica é o fato de que Marx continua sendo muito citado, mas é cada vez menos lido, tanto pelos que o atacam quanto pelos que pensam segui-lo". Talvez Bortoloti não saiba, mas a Sociologia, uma ciência tão complexa quanto as outras, demanda tempo para as leituras originais, para a compreensão profunda das teorias, tanto que se torna impossível ler todos os clássicos no período da graduação, além do fato de, no decorrer do curso, o aluno se direcionar a alguma linha de pesquisa específica, abrindo mão dos clássicos de outras linhas. Nos outros cursos não ocorre o mesmo? Ter esta consciência já faz com que o cientista social tenha uma postura clara quanto às discussões que pode oferecer e que não sejam em tom panfletário. E pode ser tanto de Marx quanto de outro pensador.
    A Sociologia não é exclusividade brasileira. Fundada na Europa e trazida para o Brasil primeiramente na USP (inclusive com a participação ilustre do grande Claude Lévi-Strauss), aqui a Sociologia não teve o merecido reconhecimento, mas nós, brasileiros, que temos o mau hábito de acreditar que tudo o que vem de fora é melhor, deveríamos saber que no velho continente esta ciência é extremamente relevante para a produção do conhecimento.
    No final do artigo, Bortoloti salienta a falta de profissionais especializados para atuarem em sala de aula na disciplina. O que ele não deixa claro, porém, é que a educação - sobretudo a pública - é, indubitavelmente, um problema político, baseado em decisões que, como costumamos dizer, "vêm de cima". Ele também não menciona que o país está absurdamente escasso de profissionais das mais diversas áreas. Faltam bons profissionais para todas as disciplinas, e outros empregos também. Não é à toa que muitos concluem o Ensino Médio com deficiências em leitura e escrita, que não possuem noções básicas de matemática aplicada no cotidiano, que desconhecem que os elementos químicos dos produtos de limpeza podem ser perigosos. Este não é um problema somente do aluno ou do educador, não é somente a falta de um profissional especializado, como afirma Bortoloti. É algo intrínseco na estrutura do processo educativo, que agrega uma ideologia específica.
    Falando em ideologia, não nos esqueçamos que o título do artigo é "Ideologia na cartilha". A pretensão não é aprofundar a discussão sobre ideologia, mas Marx - olha ele aí! - não estava enganado ao dizer que as ideias dominantes de uma sociedade são as ideias da classe dominante. Prova disso é que o próprio ensino de Sociologia não é conveniente para os grupos detentores do poder (aqueles que vivem do capital e não do trabalho), uma vez que não é bom que os indivíduos comecem a refletir sobre todas as questões sociais, desde as mais banais até os problemas e conflitos mais complexos, estruturais e consolidados para tomarem consciência do que é necessário mudar ou apontar pistas sobre esses fenômenos.
    Bortoloti termina seu artigo da seguinte forma: "Em outros países da América Latina, esse tipo de iniciativa também costuma resvalar em aulas contaminadas pela ideologia de esquerda, preponderante nas escolas. Não será desse jeito que o Brasil dará o necessário passo rumo à excelência". Mas Bortoloti não aponta o caminho necessário a seguir, já que este é inútil. A Sociologia no Brasil também serve para reconhecermos que tanta desigualdade (nosso país, todos sabem, está entre os piores no aspecto de igualdade) não é questão de meritocracia, que o esforço não basta para vencer na vida quando já se está inserido em condições materiais que não fornecem oportunidades iguais a todos. Se não percebermos que a essência é ideológica num país em que os 10% mais ricos concentram mais de 40% dos rendimentos brasileiros, só nos resta concordar com Max Weber, dono de uma coerência sem tamanho ao declarar que neutro é quem já se decidiu pelo mais forte.

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