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  1. Semeando preconceito e intolerância

    quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

    Duas notícias que me marcaram e um fato que me fez perder o chão.

    Primeira notícia
    No final do ano passado tive um grande dissabor ao ler uma notícia referente a uma declaração muito infeliz de Justine Sacco, relações públicas e Diretora de Comunicações da empresa IAC (dona das marcas Vimeo e Ask.com). Antes de embarcar para uma viagem, publicou no Tweeter: 

    Fonte: Yahoo
    Traduzindo: "Estou indo para a África. Espero não pegar AIDS. Brincadeira. Eu sou branca!".
    Claro que o tuíte gerou polêmica e revolta, tanto que Justine deletou suas contas nas redes sociais (Facebook, Tweeter e Instagram). 
    Esta mensagem nos leva a pensar o quê? Que AIDS é coisa de africano e negro. E o problema acaba aí. Quanta pobreza!
    Por mais que Justine tenha excluído as contas e, com elas, a declaração, não adianta: seu nome está manchado, sua imagem ficará comprometida por um longo tempo. A IAC demitiu a funcionária e divulgou uma nota de esclarecimento afirmando que o posicionamento de Justine não condiz com os valores da empresa. Curiosamente, o pai de Justine é um homem de negócios bem sucedido. Em que lugar? Na África do Sul.

    Segunda notícia
    Esta semana, o presidente da Uganda, Yoweri Museveni, sancionou uma lei que poderá condenar homossexuais à prisão perpétua. A opção de se relacionar com um parceiro do mesmo sexo já era considerada um crime pelo governo. Há alguns anos, o projeto de lei apresentado ao Parlamento, ao invés de prisão perpétua, previa pena de morte. Esta é mais uma confirmação da ideia que defendo sobre o excesso de criação de leis: elas não representam necessariamente o progresso e a evolução de uma civilização ou sociedade.
    Como sabemos (e alguns fazem questão de não compreender), a homossexualidade não existe por conta de uma disfunção genética. Outros falam em desvio de conduta, ou seja: um comportamento anormal. Mas anormal diante de quais circunstâncias?  Pois a união afetiva também carrega "tipos ideais", valores e uma ética que é construída socialmente e, portanto, considerados corretos. O que foge do padrão está errado, é esquisito, é pecado.
    Museveni ainda deu declarações polêmicas, dentre elas a de que a homossexualidade seria fruto da educação que o indivíduo recebe. Sendo assim, é algo que dá para corrigir. Também afirmou que as pessoas homossexuais são, na verdade, heterossexuais, mas optam pela homossexualidade por causa do dinheiro. E comparou os homossexuais a mercenários e prostitutas.
    Barack Obama alertou que esta medida poderá complicar as relações entre os países africanos e os Estados Unidos. Enquanto Obama estava preocupado em chamar a atenção de Museveni, quase que uma lei totalmente discriminatória estava sendo aprovada no Arizona. Por muito pouco, não foi. A lei em questão, se aprovada, daria liberdade aos mais diversos tipos de estabelecimentos comerciais (restaurantes e lojas, por exemplo) para que, se quisessem, recusassem a atender homossexuais. O motivo seria de caráter religioso.
    Para deixar a situação ainda mais contraditória e reflexiva, é importante informar que muitos cristãos evangélicos norte-americanos vivem em missões na África, inclusive prestando apoio à lei criada por Museveni. Além de ser ofensivo para a comunidade LGBT, o que se coloca em discussão é a mudança do paradigma cultural e religioso africano. Em segundo lugar, um dos impasses para a aceitação da homossexualidade, e isso em todo o mundo, é a preservação do modelo patriarcal de sociedade que, não parece, mas ainda é muito forte nas famílias e instituições.
    O que surpreendeu também foram alguns comentários de apoio à decisão tomada pelo governo de Uganda, querendo dizer que no Brasil precisamos de uma lei como esta para acabar com toda a bagunça existente por aqui. Ou que regras e normas devem ser criadas para regular o comportamento humano. 
    Todos nós temos o direito de nos expressarmos e apresentarmos nossas opiniões sem que as mesmas ofendam outras pessoas, mas realmente está sobrando intolerância no mundo.

    Perdendo o chão
    Dois garotos chamaram uma garota de macaca. Sim, ela era negra. Não, eles não eram brancos. Os dois eram negros também. Perdi o chão. 
    Ano passado fiz uma publicação sobre os negros (Em defesa da consciência negra) e discuti um pouco a questão do racismo. Afirmei que "o racismo se aprofunda, mesmo quando pensamos que estamos lutando e criando leis e políticas de inclusão. Na época do Brasil colonial, a raça era uma norma jurídica e econômica. Hoje, ela se autonomizou, tornou-se uma norma não-dita. E as práticas de discriminação podem assumir um caráter explícito ou velado". Também escrevi que os mais de 300 anos de escravidão no Brasil colocou em vigor uma supremacia racial-étnica. Não estou afirmando que os negros não são racistas e que racismo e discriminação é coisa de branco, mas o que dizer quando a discriminação parte de um igual? Ou melhor, esses garotos se achavam tão diferentes da jovem ofendida? Em que aspectos? No que diz respeito à cor, não havia distinção. E eles tocaram no ponto da cor. E aí percebemos como o preconceito ganha novas faces. No primeiro caso, a discriminação ficou clara por conta da ideia de supremacia dos brancos sobre os negros. É necessário insistir nas reflexões sobre como as práticas da intolerância e da discriminação estão se renovando e assumindo novas feições.
    Está sobrando preconceito no mundo. 

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