Rss Feed
  1. Apareço, logo existo

    domingo, 31 de agosto de 2014

    A palavra do ano de 2013, segundo o dicionário Oxford, foi selfie, isto é, o autorretrato. Embora esta prática tenha origem no período renascentista (século XV), as câmeras de celulares e de outros aparatos tecnológicos popularizaram o autorretrato. O selfie, sobretudo para os jovens, é quase um ritual sagrado a ser seguido fielmente e as redes sociais estão aí para comprovar.
    Muitos sentem a necessidade de se fotografarem o tempo todo, em qualquer circunstância. A moda por aqui é em banheiros públicos (que mal gosto!), seja do shopping, das praças, dos restaurantes, das conveniências. É muito improvável que alguém ainda não tenha presenciado esta cena. Mas, como afirmei, isso ocorre em todas as situações possíveis: no trabalho, no encontro com os amigos na choperia, nas viagens com algum monumento importante que compõe o cenário ou no próprio quarto de casa. Não entendo muito bem esse frisson permanente em relação aos selfies (embora seja bom lembrar dos moderados e daqueles que não são adeptos do selfie), mas me parece mais uma necessidade constante de exposição nas redes sociais do que qualquer outra coisa.
    E antes, como era? Presenciei "o antes" e "o depois" no momento de transição tecnológica. Há quinze anos não existiam redes sociais. Há vinte, pouquíssimos ouviam falar em internet. Há trinta, celular e computador eram coisas de outro planeta. Alguns possuíam telefone e máquina fotográfica, daquelas que, para se ver uma fotografia que foi tirada hoje, era necessário esperar o filme acabar, levar na loja de revelação e esperar mais um tempo para buscar. E não se podia gastar o filme todo rápido, porque custava caro (minha mãe enlouquecia quando, nas viagens, eu tirava várias fotos do mesmo lugar). Somente quado as fotos reveladas estavam em mãos ficávamos sabendo como saíram nossas expressões faciais ou se tínhamos piscado. Resumindo, não havia outra alternativa: era necessário esperar. O pessoal mais velho viveu muito bem sem a parafernália tecnológica, e com toda certeza menos ansioso. Ao contrário de hoje, a geração dos mais novos não sabe o que é isso, porque tudo é instantâneo.
    Além da instantaneidade, a imagem é altamente valorizada em nossa sociedade. A percepção visual tornou-se muito importante e vai diretamente ao encontro com o fator de aprovação social. Isso quer dizer que, com todas as caras e bocas, com todas as tentativas de sair o melhor possível em um selfie, o que se procura, na verdade e em sua maioria, é a aceitação dos outros. É uma insistência constante de ser aquilo que normalmente não se é ou não se pode ser o tempo todo. É, literalmente, provar que se tem algum valor, mas que tipo de valor? Para quem? Quanto mais curtidas, melhor. [Uma crítica constante que tenho feito é a sensação real que uma curtida virtual provoca nas pessoas. Se, por exemplo, um usuário do Facebook teve 60 curtidas em uma foto (a curtida pode ser entendida como uma espécie de elogio), quantas pessoas elogiam ou já elogiaram este mesmo indivíduo pessoalmente, no dia a dia? Sei que existe a discussão da importância e da frequência das redes sociais, mas creio ser importante pensar no afeto concreto.]
    A ideia que se tem é a de que antigamente não era necessário provar nada para ninguém, pois o prazer em olhar uma fotografia era toda a história que ela carregava do momento em que foi registrada. Não havia a preocupação em tirar uma foto pensando em publicá-la no Facebook e, diga-se de passagem, com legendas completamente sem sentido. Também não estou dizendo que a ideia do registro foi completamente extinta e que devemos viver na pré-história sem máquinas boas ou sem nos fotografarmos. Apenas é bom repensar o excesso como auto-engano porque toda a necessidade de exposição pode ser, muitas vezes, o medo de descobrir quem se é de verdade. E sabemos que a crise de identidade é um problema sério e de grande proporção na sociedade.

  2. 0 comentários:

    Postar um comentário