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  1. Sobre recalque e outras filosofias

    domingo, 13 de abril de 2014

    Um dos assuntos mais comentados da semana passada foi a respeito da avaliação de Filosofia aplicada em uma escola de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília - DF. O professor responsável por elaborar as questões, Antonio Kubitschek, esteve no centro das atenções das redes sociais e da imprensa, apenas por um motivo: uma das perguntas era referente ao conteúdo de uma música da cantora de funk Valesca Popozuda.

    Fonte: CBN
    A questão número 11 foi, no mínimo, surpreendente e ousada para uma avaliação de Filosofia. Os alunos não hesitaram em fotografar e divulgar o conteúdo. O professor foi excessivamente criticado (o que era totalmente previsível) e a educação brasileira voltou a ser o alvo de discussões. Antonio se justificou alegando que a pergunta foi colocada intencionalmente para chamar a atenção, pois divulgou para a imprensa local uma exposição chamada "Olhares", elaborada pelos alunos onde leciona e ninguém compareceu. Pensou em "testar" o sensacionalismo midiático através da avaliação e obteve a atenção que a exposição fotográfica, na verdade, merecia. Contada a história, vamos levantar algumas questões sobre o acontecimento.
    Primeiramente, não escuto a música funk, mas compreendo e está muito claro que, se a cultura é um conjunto de manifestações e práticas simbólicas, o funk é, sim, uma expressão cultural. Quando alguém diz que "funk não é música", eu realmente concordo (e muito; particularmente acho horrível! Admito o meu preconceito). Agora, dizer que "não é cultura" é insensatez.
    Além disso, parece que o maior problema não foi o conteúdo da questão, mas o fato de Kubitschek ter atribuído o termo "pensadora" para Valesca. Em entrevista ao blog Socialista Morena, o professor cita Deleuze para definir pensador: "quem cria um conceito é um pensador". Qual é o conceito criado por Valesca? Antonio não deixou claro. De qualquer forma, como socióloga, acredito muito no poder da reflexão no cotidiano. O indivíduo que propõe a pensar, refletir e debater questões, sejam elas filosóficas ou não e independentemente de criar ou não algum conceito, não deixa de ser uma espécie de pensador. Em tempos de efemeridade e instantaneidade, as pessoas simplesmente não pensam: querem tudo pronto e mastigado para engolir, sem direito à digestão. E a minha experiência como professora está aí para provar, pois convivo diariamente com centenas de jovens e adultos que possuem aversão ao pensar.
    Por outro lado, nada, em hipótese alguma, justifica a colocação das pessoas que desqualificaram o trabalho do professor, chamando-o de incompetente. E muitos que fizeram isso certamente pouco se preocupam de fato com as condições de trabalho do professor e com a educação brasileira - só sabem criticar sem apresentar algo novo. Também é importante lembrar que a avaliação continha 12 questões e, com exceção da pergunta referente à letra de Valesca, as restantes estavam diretamente ligadas com o pensamento filosófico clássico e tradicional como conhecemos. Portanto, atribuir o termo "incompetente" para Antonio Kubitschek é muito injusto. Porém, se ele testou o sensacionalismo da imprensa, que fique claro que o tumulto foi provocado pelos próprios alunos que publicaram a foto da questão nas redes sociais: alunos e comunidade ficaram tão surpresos quanto a imprensa. Por que a mania de sempre culpabilizar os meios de comunicação, como se fossem deuses do mal e intocáveis, se eles são constituídos, construídos e valorizados pelos próprios homens? Onde está, de fato, o problema do sensacionalismo?
    Valesca Popozuda também merece destaque nesta publicação. Como não conheço suas músicas, pensei que o melhor seria ler algumas de suas letras e assistir a alguns vídeos. Os nomes das músicas soam como "papo reto": Quero te dar, Minha buceta [sic] é o poder, Agora virei puta, Late que eu to passando. Ninguém tem dúvidas, mesmo sem ter ouvido, sobre o conteúdo das músicas, e não precisamos fingir que tudo isso é exclusividade de Valesca. O funk carioca possui outras valescas, como é sabido. Sociologicamente falando, podemos afirmar que as músicas de Valesca "discutem" aberta e explicitamente - melhor: supostamente - a opressão, a liberdade e a autenticidade da mulher, sobretudo no que diz respeito a sexo (mas se o homem tem que latir quando ela passa, logicamente há o orgulho em atuar como cachorra).
    Valesca foi muito feliz quando declarou que se na pergunta tivesse uma música da MPB ou de outro gênero musical, talvez nada tivesse acontecido. Colocar trecho de música, seja ela qual for, numa avaliação parece gincana escolar, do tipo "complete a música". Se encaramos a educação como gincana escolar, não há como progredir mesmo. No entanto, se usarmos como instrumento de reflexão, com a intenção de relacionar a música com uma situação, realidade ou contexto histórico, social, econômico e cultural, o efeito é diferente e o amadurecimento intelectual também. O problema não é a música, mas como se trabalha com ela. Esta premissa é válida para qualquer gênero, inclusive o funk.
    Valesca foi infeliz ao declarar que lendo Machado de Assis se tornará uma pensadora de elite, o que demonstra que ela realmente não tem leitura suficiente para dizer esse tipo de coisa. Ela mesma discrimina o que é de elite e o que é para a massa. Nem só de Machado de Assis é feita a elite. Mesmo que ela decore a obra toda, isso não a fará ser uma pensadora de elite. E, principalmente: pobre daquele que pensa que o autor de Brás Cubas, Dom Casmurro, Casa Velha e outros clássicos é só para um determinado grupo social. Por que não para todos?

    Observação final: Valesca não deixa de ser um produto criado por padrões corporais impostos a todas as mulheres. E teve a coragem de declarar que "ser vadia é ser livre", como se fosse símbolo de uma figura libertária. Tudo parece girar em torno da dicotomia "homem x mulher", um posicionamento completamente reducionista e limitado. Ser vadia, ser mulher ou ser homem, nada disso é sinônimo de liberdade. A liberdade não diz respeito aos símbolos ou representações sociais e culturais. É apenas um falso paradigma.

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